"Nosso poder está no local de trabalho": Em meio às eleições 2026 e ao debate da escala 6x1, Boots Riley mostra como I Love Boosters aborda a luta de classes
por Diego Souza Carlos

Membro do júri da Competição Novos Diretores da 50ª Mostra de Cinema de São Paulo, diretor aproveitou vinda ao Brasil para, além de divulgar novo filme, entender movimentos sociais do país durante o período eleitoral.

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Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial brasileira, no último sábado (24), Boots Riley chegava ao prédio do Cultura Artística após participar brevemente de uma manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, pela reeleição do presidente Lula. Diretor de I Love Boosters, filme que integra a programação da 50ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo, o cineasta norte-americano veio ao Brasil não apenas para divulgar o novo projeto, mas também como membro do júri da Competição Novos Diretores do evento.

Entre um filme e outro, aproveitou o momento vivido pelo país com uma experiência intensa. Enquanto se debruçava sobre as atividades do festival, ele ainda teve tempo para experimentar feijoada, conhecer mais da nossa música, o cinema e arte que pulsam no país. "Escolhi um momento e tanto para estar aqui", disse ele antes de começarmos a entrevista com o AdoroCinema. "Aquela manifestação [da Paulista]... eles sempre diziam que havia passeatas e desfiles nas ruas e tudo mais, e foi exatamente o que encontrei", contou ele enquanto tomava um cafezinho.

Filho de uma refugiada judia e um advogado de justiça social, Riley cresceu inspirado tanto na arte quanto pelo ativismo de causas que sempre o impactaram, da luta antirracista e anticapitalista. Por volta dos 20 anos, fundou o grupo de hip hop The Coup e, desde então, mergulhou em um universo que sempre misturava resistência, música e, há pouco mais de 10 anos, cinema. Essa vivência torna compreensível seu interesse em participar de uma passeata progressista, algo que o diretor compartilhou durante a entrevista sobre I Love Boosters.

Como I Love Boosters vai impactar o público brasileiro?

Historicamente, o cinema comercial não permitiu com frequência que personagens negros e não-brancos ocupassem espaços surreais ou de ficção científica. A lógica dessa tendência não funciona para I Love Boosters, longa que coloca mais uma vez a classe trabalhadora no centro das atenções. Em uma espécie de irmão de Sorry To Bother You, o filme estrelado por Keke Palmer, Demi Moore e grandes outros astros dobra a aposta no fluxo de críticas ao sistema de trabalho que pode ser opressor em muitas condições.

Questionado sobre o impacto do filme em um contexto onde o embate polarizado das eleições brasileiras e as discussões sobre o fim da escala 6x1 permeiam a sociedade, Boots Riley foi direto ao ponto sobre o papel do cinema de classe. "Eu faço arte que fala sobre onde está o nosso poder, certo? Falei que a principal contradição do capitalismo é a exploração do trabalho - e é aí que está o nosso poder. Nosso poder está no local de trabalho. Nosso poder está em ser capaz de parar a indústria se estivermos organizados o suficiente. E é assim que precisamos ser capazes de lutar."

I Love Boosters quer ser a faísca na revolta do proletariado através de um humor afiado

A esperança de Riley é que tais discursos vistos de maneira extravagante e inventiva no longa possam contagiar a todos os lugares. “Não apenas no Brasil, as pessoas estão passando por coisas semelhantes ou análogas pelo mundo todo”, continuou. Para ele, existe uma necessidade de ir além - e isso está impresso em diversos momentos do filme.

“Acho que a esquerda no mundo todo, desde os anos 1960, tem confundido greves e protestos ou manifestações como se fossem a mesma coisa. Mas precisamos que os radicais comecem a se organizar no local de trabalho, e precisamos ser capazes de impor nossas reivindicações dando aos patrões a escolha de não ganhar dinheiro algum ou ganhar menos dinheiro. E é por isso que em toda a minha arte você verá esse tipo de ideia."

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Ainda que saiba que a luta da classe trabalhadora se faz com movimentos assertivos na raiz de qualquer injustiça, o artista também reconhece que atos políticos em praças públicas são importantes. Nas redes sociais, após o fim da apuração no domingo (26), ele compartilhou um vídeo de eleitores do presidente Lula celebrando a vitória do petista na Avenida Paulista. "É maravilhoso estar em São Paulo numa noite tão histórica", escreveu.

Qual é a história de I Love Boosters?

I Love Boosters conta a história de Corvette ( Palmer), Sade (Naomi Ackie) e Mariah (Taylour Paige), três amigas que vivem em um restaurante de frango abandonado. Elas conseguem se manter roubando roupas de marcas conhecidas para revendê-las por preços mais baixos em São Francisco e ficam conhecidas como Velvet Gang. Corvette, sonha em se tornar estilista e admira o trabalho de Christie Smith (Moore), então decide participar de um concurso promovido pela marca da designer.

A sua inscrição é rejeitada por não ser parte do padrão conhecido no mundo da moda, mas pouco tempo depois, ela descobre que Christie copiou o seu desenho e o colocou à venda nas lojas. Revoltada, Corvette se junta às amigas para roubar todo o estoque da estilista, espalhando o caos pela indústria.

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I Love Boosters pode ser visto na programação da 50ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo. Depois do festival, o filme chega aos cinemas pela Universal Pictures em 19 de novembro.

Diego Souza Carlos
-Redator | Crítico
Apaixonado por cultura pop, latinidades e karê, Diego ama as surpresas de Jordan Peele, Guillermo del Toro e Anna Muylaert. Entusiasta do MCU, se aventura em estudar e falar sobre cinema, TV e games.
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