Nem a mãe do roteirista gostou deste filme de ficção científica e o pior: O fracasso não foi na tela, mas no tribunal
Jornalista em formação dividida entre a paixão pelo cinema e pela música. Como coração é grande, cabe desde comédias românticas até documentários musicais. Sempre em busca de encaixar sua devoção por Jorge Ben Jor e John Carpenter em alguma conversa.

Travolta promoveu A Reconquista como a A Lista de Schindler da ficção científica e acabou fazendo o pior filme da década.

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Para quem gosta de ficção científica, A Reconquista (Battlefield Earth) é sempre um exemplo claro de até onde um projeto pode chegar quando alguém com poder demais se apaixona por ele e ninguém ousa dizer não. É um pouco o que acontece com James Cameron e Avatar, mas pior. Talvez você nem conheça: é aquele filme do Travolta com dreadlocks, um disparate cinematográfico em honra da Cientologia, cuja melhor história não está na tela. É que por trás do filme se esconde uma história bem mais feia do que uns alienígenas saídos de um show do Marilyn Manson.

Um absurdo galáctico: o pior filme da década

John Travolta sonhava há anos em adaptar o romance de L. Ron Hubbard, fundador da Cientologia; defendeu o projeto como a grande obra de sua vida e, em algum momento do processo, chegou a descrever o roteiro, com toda a seriedade, como "A Lista de Schindler da ficção científica”. Sim, sério mesmo.

Nisso já dá para perceber a distância considerável entre o que Travolta achava que estava fazendo e o que chegou aos cinemas americanos em 12 de maio de 2000, com Roger Christian na direção e o próprio Travolta no papel do vilão alienígena Terl. Além disso, o filme adaptava apenas a primeira metade do livro. O que ficou para a posteridade, por outro lado, foi algo bem diferente.

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O filme foi rodado com uma insistência quase doentia no uso do “plano holandês”, que, na verdade, é aquela câmera inclinada que sugere inquietação e que aqui, repetida até causar tontura, só faz você se perguntar se todos os tripés disponíveis para a equipe de filmagem estavam quebrados. Além disso, tudo tem um filtro azulado ou esverdeado (nesse caso, a culpa é de Matrix), os vilões exibem dreadlocks e sapatos de plataforma no estilo Kiss.

Travolta, que fica rindo o tempo todo no filme, e Forest Whitaker interpretam uns conquistadores alienígenas com uma teatralidade que não conhece meio-termo. Barry Pepper (que, surpreendentemente, continuou atuando depois disso, incluindo um papel em Call of Duty: Modern Warfare 2), é o herói humano Jonnie Goodboy Tyler, que faz tudo o que é humanamente possível para sobreviver à trama do filme. O resultado final não enganou ninguém.

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Ela foi criticada por todos os lados, a bilheteria foi péssima e acabou no Razzie, o anti-Oscar que celebra o pior do ano, onde a criticaram duramente; e, uma década depois, em 2010, deram o golpe final ao nomeá-la o pior filme da década. A Reconquista é ruim de uma forma tão absoluta que dá pena, porque, sabendo como é difícil fazer um filme, é sempre uma pena que o trabalho, o esforço e a ilusão de tanta gente acabem indo por água abaixo. E, para todos, a tragédia desse filme não termina aí.

O verdadeiro campo de batalha estava em um tribunal

O maior problema desse filme não é o que acontece na tela nem sua bilheteria, mas sim sua contabilidade. Travolta havia recuperado seu status em Hollywood com Pulp Fiction, em 1994, e usou todo esse capital social e sua fama renovada para levar adiante esse projeto, que, como dito antes, o deixava encantado há anos. Apesar de seu entusiasmo, os grandes estúdios não queriam desenvolver o projeto: o roteiro era constantemente rejeitado, e eles também não viam nada de claro no orçamento e na complicação de financiar uma adaptação da obra do fundador da Cientologia. É aí que entra Elie Samaha, um ex-proprietário de boates e lavanderias que se tornou produtor de cinema à frente da Franchise Pictures.

A Franchise operava com recursos europeus, e boa parte do capital de investimento foi aportada pela alemã Intertainment AG, que havia concordado em cobrir 47% dos custos em troca dos direitos de distribuição na Europa e acabou pagando bem mais do que isso.

Em dezembro de 2000, a Intertainment a processou por inflar os orçamentos de forma sistemática: segundo o relato do julgamento, o custo real do filme girava em torno de 44 milhões de dólares, e não os 75 declarados, e essa diferença de 31 milhões era um preenchimento fraudulento. Durante o processo, o responsável pela Intertainment testemunhou que Samaha lhes havia oferecido o filme no método de venda casada: para ficar com dois títulos atraentes, a comédia de Bruce Willis, Meu Vizinho Mafioso, e o thriller de Wesley Snipes, A Cilada, era preciso comprar também o filme de Travolta.

Em 2004, um júri federal de Los Angeles condenou a Franchise a pagar 121,7 milhões em indenização, dos quais Samaha ficou pessoalmente responsável por 77; o veredicto levou a produtora à falência. Travolta saiu ileso, mas, desde aquele ano, apenas um de seus mais de 40 trabalhos posteriores ultrapassou a nota 7,1 no IMDb, com quase todos os demais ficando na nota mínima de aprovação, sendo que seu trabalho mais bem avaliado é um comercial em que ele dança vestido de Papai Noel, recriando a cena de Os Embalos de Sábado à Noite.

O roteirista que pediu desculpas por tê-la escrito

Nesse desastre, há outra pessoa afetada: o roteirista original. J.D. Shapiro contou, anos depois, como havia chegado ao projeto, e a história também é uma loucura. Era 1994 e Shapiro tinha lido que o Celebrity Center, o epicentro da Cientologia em Los Angeles, era um bom lugar para conhecer mulheres; então, ele foi com intenções estritamente românticas e saiu de lá com um trabalho: adaptar o romance de Hubbard. Ele escreveu um roteiro do qual se orgulhava e tornou-se amigo de Travolta. A partir daí, segundo a versão dele, tudo deu errado.

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Ao que parece, durante o processo de redação, eles faziam constantemente anotações que alteravam completamente o tom do texto. Shapiro se recusou a incorporá-las e acabou sendo demitido, embora tenha mantido seu crédito ao lado do de Corey Mandell, que reescreveu o material final, pois abrir mão dele teria implicado abrir mão também do pagamento.

O fato extraordinário ocorreu em março de 2010, quando, coincidindo com o Razzie de pior filme da década, Shapiro publicou no New York Post um pedido público de desculpas por ter assinado o que sua própria mãe descreveu como “a pior merda de filme que já vi em toda a minha vida”. Shapiro compareceu à cerimônia para receber o prêmio pessoalmente, conforme consta na ata daquela edição. Não são muitos os autores capazes de subir ao palco para aceitar o troféu que consagra seu próprio fracasso.

Maio de 2000, contra Gladiador e todas as adversidades

A Reconquista estreou em mais de três mil salas e alcançou o segundo lugar nas bilheterias com cerca de 11,5 milhões, atrás de Gladiador, que já estava arrasando, segundo a reportagem daquele fim de semana. Também não está nada mal, não é? No segundo fim de semana, a bilheteria caiu 66% e, no terceiro, despencou mais de 72%, como mostra o detalhamento de sua trajetória, e o filme desapareceu das telas quase imediatamente. Na Alemanha, justamente o país cujo dinheiro havia financiado o filme, ele foi lançado diretamente em vídeo.

E, no entanto, aqui continua, viva em nossos corações, 26 anos depois. Sua história fora das telas tem algo do romance original de Hubbard, que tratava de uma espécie subjugada que se recusa a ser extinta, que resiste contra toda a lógica e acaba se impondo diante de todo tipo de adversidade cósmica. O filme fracassou em tudo o que se propôs a fazer, levou o estúdio à falência e envergonhou metade de Hollywood, mas acabou se mostrando impossível de ser eliminado, porque aqui estamos nós, lembrando-nos dele.

A Reconquista está disponível no pacote da Sony One dentro da plataforma do Prime Video.

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