Em Nascido para Matar, Vincent D'Onofrio interpretou de forma brilhante o recruta Gomer Pyle, o principal alvo das humilhações do sádico sargento instrutor Hartman.
Lançado depois de Platoon deOliver Stone, Full Metal Jacket de Stanley Kubrick, acabou sofrendo na época com as inevitáveis comparações com seu antecessor. Foram necessários alguns anos para que o filme conquistasse, com justiça, o status de obra-prima e clássico cult, graças à sua abordagem mais semidocumental e psicológica da Guerra do Vietnã.
Diretor lendariamente conhecido por seu perfeccionismo obsessivo (como mostra a famosa história contada por Matt Damon sobre O Iluminado), Kubrick não hesitava em exigir mais de uma centena de tomadas de seus atores, como aconteceu com Shelley Duvall em O Iluminado e Ryan O'Neal em Barry Lyndon. Era um verdadeiro mestre do controle absoluto. Em Nascido para Matar, filme sobre o qual estamos falando, exigiu um comprometimento total de toda a equipe — incluindo, é claro, o elenco — durante dois anos.
Foi nesse desafio que Vincent D'Onofrio embarcou ao interpretar brilhantemente o recruta Leonard "Gomer Pyle" Lawrence, alvo constante das humilhações do sádico sargento instrutor Hartman (R. Lee Ermey), que acaba enlouquecendo o jovem antes mesmo de ele colocar os pés no Vietnã.
Em um episódio do podcast apresentado por Rich Eisen, o ator contou que foi Matthew Modine quem o ajudou a conquistar o papel que mudaria sua carreira, incentivando-o a fazer um teste para Stanley Kubrick. D'Onofrio tinha apenas 24 anos.
"Ele apareceu para me ver quando eu trabalhava como porteiro no Hard Rock Café e disse que Stanley Kubrick estava filmando um longa na Inglaterra. Falou que havia um papel disponível e me aconselhou a fazer um teste. Alugamos uma câmera enorme, gravamos um monólogo de uma peça que eu estava encenando e enviamos a fita para Kubrick. Depois eles pediram uma segunda gravação.
Então o próprio Stanley me ligou. Ele me passou algumas falas para gravar e eu as enviei. Depois disse: 'Você deveria ganhar um pouco de peso para esse papel. Gostaria de fazer isso?'. Robert De Niro tinha acabado de fazer isso em Touro Indomável, então pensei: 'Claro. Se De Niro consegue fazer, eu também consigo'. E acabei conseguindo o papel."
Ao longo de sete meses, D'Onofrio ganhou impressionantes 32 quilos para interpretar o soldado Leonard "Gomer Pyle" Lawrence. Depois das filmagens, precisou de mais de nove meses para voltar ao peso normal, recorrendo a uma intensa rotina de exercícios físicos. Até hoje, sua transformação para o filme continua sendo uma das maiores já realizadas por um ator para um papel.
"Eu era um ator de teatro, e Kubrick me transformou em um ator de cinema"
Em 2009, tivemos a oportunidade de conversar longamente com Vincent D'Onofrio. Ao revisitar sua carreira, ele naturalmente relembrou essa atuação marcante, contextualizando-a em um período pessoal bastante difícil:
"Foi o primeiro personagem de cinema que interpretei. Para ser sincero, não me lembro de muita coisa sobre aquele filme, porque tudo o que me vem à cabeça é Stanley Kubrick. [...] Eu só me lembro de que era um ator de teatro. Fazia de tudo para sobreviver: trabalhava como segurança em casas noturnas e atuava no teatro à noite. Era só isso que eu fazia. Participava de espetáculos na Broadway das oito às dez da noite, pegava o trem para o centro da cidade, trabalhava a madrugada inteira no clube e acordava às quatro da manhã para voltar ao trabalho.
Kubrick era muito gentil comigo, mas eu não queria exatamente me tornar amigo dele. Eu era jovem demais, e ele era um ícone. Eu simplesmente voltava para casa todas as noites rezando para não ser demitido no dia seguinte. Eu era um ator de teatro, e Stanley Kubrick fez de mim um ator de cinema. Foi ele quem me permitiu me tornar exatamente aquilo que eu queria ser."