"Alguns até se recusaram a ter seus nomes nos créditos": Há 41 anos, ninguém queria financiar este filme que renderia um Oscar ao seu brilhante ator
Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).

Com orçamento de 1,5 milhão de dólares, nenhum distribuidor e um diretor em meio à quimioterapia, saiba como O Beijo da Mulher Aranha passou de um filme "impossível" a uma obra-prima vencedora do Oscar.

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Em 1985, William Hurt foi o protagonista de um filme extraordinário dirigido pelo cineasta brasileiro Hector Babenco: O Beijo da Mulher Aranha. Sendo quase um drama de confinamento ambientado em uma prisão de um país fictício da América do Sul sob um regime ditatorial (um reflexo evidente da situação política do Brasil, que em 1985 saía de 21 anos de ditadura militar), Hurt interpreta Molina, um prisioneiro homossexual condenado por um "crime contra os costumes".

Obrigado a dividir a cela com Valentín, um jornalista revolucionário torturado e preso por suas ideias políticas (interpretado pelo fabuloso Raul Julia em um dos papéis de sua vida), Molina compartilha com seu companheiro de cela os sonhos que cria com base nos velhos filmes guardados em sua memória. Enquanto a hostilidade inicial entre os dois detentos se transforma em amizade, uma teia de traição se tece inexoravelmente ao redor deles, testando a confiança mútua e o espírito de sacrifício de ambos.

"Mulheres fatais que se movem em um mundo dominado por homens"

Na origem dessa história está o romance escrito pelo autor argentino Manuel Puig. Tendo crescido em um pequeno vilarejo nos Pampas durante a ditadura de Juan Perón, sua única distração real era o cinema, que descobriu graças à sua mãe e que frequentava quase diariamente:

"Assim que o filme começava, tudo se tornava mais puro. Ali eu encontrava Jean Harlow, Greta Garbo, Rita Hayworth... Mulheres fatais que se moviam em um mundo dominado por homens, mas sempre conseguiam o que queriam".

Seu livro, publicado em 1976, não trata especificamente de revolucionários marxistas ou prisioneiros políticos, mas sim da opressão social e da submissão exercida pelo machismo. Toda a sua obra é concebida em torno do arquétipo da mulher submissa. "Se os personagens dos meus romances forem reais o suficiente, eles inevitavelmente vão impor um contexto político", explicava o romancista. "Eu acredito no poder subversivo do inconsciente", (via AlloCiné).

"Não havia pesadelo pior em Hollywood"

"Dadas as mentalidades dos anos 1980, abordar um tema como esse era uma loucura", conta Peter Dekom, renomado advogado e fundador da American Cinematheque, no extraordinário documentário de bastidores Tangled Web.

"Um gay e um comunista presos juntos na mesma cela. Consegue imaginar? Não havia pesadelo pior em Hollywood", dispara sem filtros David Weisman, um dos produtores do filme.

"Passei parte da minha infância no Brasil, mas parei de ir em 1968 por causa da ditadura. No final de 1981, falando português fluentemente e conhecendo bem o país, decidi voltar para tentar a sorte. Foi lá, no Rio, que me apresentaram o autor argentino Manuel Puig. De volta a Los Angeles, o acaso me fez conhecer Hector Babenco, que estava lá para promover um filme."

O cineasta desabafou com ele: vinha tentando de tudo, há algum tempo, para convencer Manuel Puig a lhe ceder os direitos de seu romance para uma adaptação cinematográfica, mas sem sucesso: "Ele tentava me desencorajar o tempo todo, mas sem nunca dizer a palavra 'não'".

Weisman perguntou então quais nomes ele tinha em mente para o elenco; Babenco mencionou imediatamente o de Burt Lancaster para o papel do homossexual Molina. Um papel como esse para uma lenda de Hollywood como ele? Parecia impossível, até porque o ator já tinha 68 anos.

Ainda assim, Lancaster mostrou-se muito receptivo ao projeto. Comprou uma tradução do romance de Manuel Puig e começou até a ensaiar o personagem, fazendo testes de maquiagem e figurino. No entanto, insatisfeito com as múltiplas revisões do roteiro, o ator passou 14 meses no projeto, chegando a escrever sua própria versão do texto em 1983, antes de acabar desistindo de vez.

"Eu estava pronto até para implorar de joelhos"

Enquanto Raul Julia, escalado para viver o personagem Valentín, abraçou o projeto rapidamente, entusiasmado com o tema, começou a caça para encontrar o substituto de Burt Lancaster. Em 1983, William Hurt era o ator em ascensão do momento, emendando filmes de grande destaque como Viagens Alucinantes, Corpos Ardentes (de Lawrence Kasdan), o longa de espionagem Mistério no Parque Gorky e O Reencontro.

Foi justamente nas filmagens de Mistério no Parque Gorky que Hurt ouviu falar do projeto de O Beijo da Mulher Aranha, que ainda lutava para sair do papel:

"Eu estava no meu quarto de hotel durante as filmagens quando me falaram do filme. Quando dei o aval ao meu agente para fechar o negócio, mal tinha lido 20 páginas. Disse a ele que estava pronto até para implorar de joelhos."

Hector Babenco não conhecia William Hurt, mas aceitou. Já escaldado pela saída de Lancaster e diante de um projeto que tinha imensa dificuldade em controlar — principalmente pelo fato de grande parte da equipe falar inglês, idioma que ele dominava mal —, o diretor também ficou bastante frustrado ao saber que o produtor americano não tinha conseguido levantar sequer 100 mil dólares para financiar o filme.

Embora William Hurt e Raul Julia tenham aceitado receber o salário mínimo exigido pelo sindicato, isso ainda estava longe de ser suficiente. A engenharia financeira do filme foi um inferno absoluto: "Nosso projeto foi rejeitado por vários motivos por quase todos os produtores", relembra Francisco Ramalho Jr., produtor executivo brasileiro do longa.

"Chegaram a nos perguntar o que motivava um dos atores a limpar as fezes do outro. Nunca me esqueci disso. Naquela época, o conceito de cinema independente não existia. No fim das contas, com muita dificuldade, conseguimos reunir 1,5 milhão de dólares para as filmagens. Mas alguns investidores exigiram que seus nomes não aparecessem nos créditos."

"Para sobreviver, era preciso se identificar com o torturador"

Nesse ambiente sufocante de confinamento prisional, onde as únicas saídas residiam no imaginário poderosamente figurativo de Molina, praticamente tudo dependia dos ombros dos dois atores.

"Quando exploramos um personagem, é preciso ser prático: quem, o quê, quando, onde e como. E, se possível, o porquê. O Raul sabia de tudo isso", comentou Hurt sobre seu parceiro de cena. "Os personagens do filme são como dois países estrangeiros", observou Julia em uma entrevista realizada durante as filmagens.

"Dois países que não se entendem e estão repletos de preconceitos. Se você os tranca em uma cela, só existem duas saídas: o entendimento ou a destruição. À medida que o tempo passa ali dentro, todos os preconceitos desaparecem e eles se aproximam. Quando a humanidade de cada um fica mais evidente, as ideias preconcebidas sobre o outro acabam sumindo."

No set, William Hurt frequentemente levava Raul Julia ao limite, provocando-o. Alguns viam nisso o reflexo de um ego inflado por parte do ator, quando na verdade era apenas a sua maneira de trabalhar e aprofundar cada vez mais o personagem. Hurt também mantinha uma relação tensa com o diretor, que duvidava de sua capacidade de expressar a feminilidade latente em seu papel. Para além de seu talento nato, Hurt conseguiu atingir o tom ideal com a ajuda de Mara Borba, a coreógrafa do filme, que trabalhou em estreita colaboração com ele.

Quanto a Raul Julia, sua dedicação também foi total. "Ele tinha emagrecido tanto que cheguei a temer por sua saúde", relata Babenco no documentário. O cineasta o levou para conhecer ex-vítimas da ditadura no Brasil que haviam sido torturadas. Hurt se recusou a participar dessas reuniões. "Essas testemunhas contaram a Julia que, para sobreviver, era preciso se identificar com o torturador, a ponto de conseguir sentir amor. Isso me marcou profundamente", relembrou.

"Eu tinha certeza de que nunca terminaríamos o filme"

O financiamento do longa se mostrou a maior de todas as batalhas até o fim — inclusive na fase de montagem. O primeiro corte tinha 2 horas e 50 minutos, transformando-se em um quebra-cabeça para o diretor, que acabou deixando grande parte do trabalho nas mãos do produtor americano, que deu suporte ao montador brasileiro Mauro Alice.

"A montagem foi turbulenta por falta de dinheiro", confessa Babenco. A situação era crítica: quase não restavam fundos para a pós-produção. E como desgraça pouca é bobagem, Babenco foi obrigado a se afastar de tudo nesse período para tratar um câncer recém-diagnosticado.

Uma primeira versão do longa foi enviada ao Festival de Cinema de Nova York, que a rejeitou categoricamente por considerá-la truncada. Leonard Schrader, o brilhante roteirista do filme, assumiu então a tarefa de fazer uma nova montagem, muito mais enxuta. Foi um trabalho de titã, que levou 14 meses para ser concluído. O calvário de O Beijo da Mulher Aranha ainda não terminaria ali: assim como na fase de produção, ninguém queria distribuir o filme...

Em 1985, o primeiro a ver a obra finalmente concluída foi Gilles Jacob, o diretor do Festival de Cannes. Ele aceitou o filme no festival, sob a condição de vários cortes. O longa foi um triunfo absoluto: William Hurt conquistou o prêmio de Melhor Ator. O astro encarou as ironias do destino com bom humor: curiosamente, ele havia sido barrado na entrada da exibição do próprio filme porque sua credencial foi considerada irregular.

Em julho de 1985, O Beijo da Mulher Aranha estreou em uma única sala de cinema, em Nova York. Mas o sucesso foi estrondoso: faturou 108.778 dólares em apenas uma semana com aquela única sala. Novas sessões foram rapidamente adicionadas. O autor do livro, Manuel Puig, que até então vinha ignorando a adaptação de sua obra, declarou-se encantado com o entusiasmo do público e, em uma estranha sincronicidade, passou a gostar do filme.

Impulsionado por um excelente boca a boca, cada vez mais jornais começaram a demonstrar paixão pelo longa, publicando críticas repletas de elogios. "Eu não fazia a menor ideia de que o filme faria sucesso", conta o produtor David Weisman. "Pelo contrário, eu tinha certeza de que nunca o terminaríamos."

Um impacto eterno

O desfecho emocionante da incrível trajetória de O Beijo da Mulher Aranha é narrado pelo próprio William Hurt. Um relato ainda mais tocante se considerarmos que o ator nos deixou em 2022, aos 71 anos — seis anos após a morte de Hector Babenco e 28 anos após a de Raul Julia:

"O mais importante é que as pessoas tirem algo disso. Como uma carta que recebi. Cinco páginas lindas, meticulosamente escritas à mão por uma mulher que tinha visto o filme várias vezes. Ela detalhou, com um estilo magnífico, tudo o que você, eu, Hector, Manuel, Raul ou qualquer outro queríamos expressar na tela. O filho dela havia cometido suicídio e ela também pensava em fazer o mesmo, até assistir ao filme. Ela não encontrou apenas algo para alegrar seu dia a dia; o filme permitiu que ela refletisse com calma sobre o sentido profissional e profundo da vida."

Ficou com vontade de conhecer esse filme extraordinário? Atualmente, aqui no Brasil, ele está disponível na plataforma de streaming Reserva Imovision. No mercado de mídia física, foi lançada uma excelente edição em Blu-ray há alguns anos, sendo possível encontrá-lo à venda em mercados especializados por um valor de colecionador.

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