"Tolkien tornou-se um monstro": Lançado em 2019, este filme provocou a ira da família do criador de O Senhor dos Anéis
Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).

Dizer que a Fundação Tolkien e a família do ilustre escritor são extremamente zelosas com o legado do mestre é pouco. Como descobriu, da pior maneira, uma cinebiografia dedicada ao autor lançada em 2019...

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Um filme é, antes de tudo, uma obra de ficção, fruto de escolhas de direção e de dramaturgia feitas pelo diretor. Mesmo que a obra em questão se baseie amplamente em fatos e personagens reais, e que os cineastas frequentemente invoquem, com razão, a liberdade de expressão e de criação, o fato é que certos retratos pintados nas telas às vezes provocam forte indignação ou um desmentido categórico por parte das famílias envolvidas ou de círculos mais amplos. E eles não hesitam em deixar isso bem claro...

"Tolkien tornou-se um monstro, devorado por sua própria popularidade"

Dispensa apresentações J.R.R. Tolkien, considerado com justiça um dos pais da fantasia moderna, autor, entre outras obras, das sagas de O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Em 2019, uma cinebiografia dirigida por Dome Karukoski e estrelada por Nicholas Hoult chegou aos cinemas.

Em vez de de abranger todo o espectro da vida desse imenso escritor, a escolha do filme, bastante inteligente, foi esboçar um retrato de sua juventude e das experiências que o moldaram e o marcaram, como a Primeira Guerra Mundial — e que, em última análise, exerceram profunda influência em sua atividade criativa. Embora não tenha sido o filme do ano, a produção não decepcionou, contando com uma atuação bastante dedicada de Hoult.

Dizer que a Tolkien Estate e a família do escritor não viram o filme com bons olhos, e desde o início, é eufemismo... como guardiã absoluta do templo da memória do autor, a fundação é conhecida por ser extremamente rigorosa na gestão de seu legado e patrimônio. Em 2012, ela chegou a iniciar um braço de ferro jurídico contra a Warner Bros. por violação de direitos autorais e quebra de contrato, exigindo 80 milhões de dólares de indenização do grande estúdio. A batalha durou cinco anos, terminando em 2017 com um acordo amigável.

Naquele mesmo ano de 2012, Christopher Tolkien, filho do autor, havia expressado claramente sua aversão a novos filmes, declarando ao jornal Le Monde: "Tolkien tornou-se um monstro, devorado por sua própria popularidade e absorbido pelo absurdo da nossa época", enquanto "a comercialização reduziu a nada o impacto estético e filosófico desta obra".

Com o anúncio do projeto do filme Tolkien, a fundação publicou um comunicado de imprensa contundente: "A família de J.R.R. Tolkien e a Tolkien Estate tomaram conhecimento de que um filme intitulado Tolkien, produzido pela Fox Searchlight, está previsto para estrear em maio de 2019. A família e a fundação desejam esclarecer que não aprovaram de forma alguma, nem autorizaram ou participaram da criação do filme. Elas não o endossam, assim como ao seu conteúdo, sob nenhum aspecto."

John Garth, autor de uma biografia dedicada ao escritor durante a Primeira Guerra Mundial e citado pelo The Guardian (veículo que reportou a informação), declarou:

"O fato de a família Tolkien aprovar o filme daria credibilidade a todas as divergências e distorções. Seria um desserviço à história. Como biógrafo, prevejo que terei de gastar meu tempo corrigindo os novos equívocos que surgirão do filme. Espero que todos os que gostarem do longa e se interessarem pelos anos de formação de Tolkien comprem uma biografia confiável."

O Olho de Sauron na bilheteria afundou a exibição do filme nos cinemas

Apesar desse bombardeio de críticas, o estúdio manteve sua posição na época:

"Estamos muito orgulhosos do filme Tolkien, de Dome Karukoski, que se concentra nos primeiros anos da vida extraordinária de J.R.R. Tolkien e não retrata os elementos presentes em suas obras. Embora não tenhamos trabalhado neste projeto com a Tolkien Estate, a equipe do filme teve o mais profundo respeito e admiração pelo Sr. Tolkien e sua contribuição fenomenal para a literatura."

Uma declaração de intenções que, infelizmente, não bastou para salvar o filme de um desempenho desastroso nos cinemas, arrecadando menos de 10 milhões de dólares na bilheteria mundial. O que se pode chamar de um golpe duro com a força de um soco no estômago.

Para sua informação, o filme está disponível no catálogo do Disney+, caso tenha interesse em assistir.

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