Em 1985, ele ganhou um Oscar sem ser ator: 11 anos depois, foi assassinado em frente à sua própria casa
Amante dos filmes de fantasia e da Beyonce. Está sempre disposta a trocar tudo por uma sitcom ou uma maratona de Game Of Thrones.

Há 39 anos, Haing S. Ngor ganhou um Oscar histórico por sua atuação em uma obra-prima do cinema de guerra e, infelizmente, teve uma morte trágica.

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Em 1985, um médico do Camboja venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, superando concorrentes como John Malkovich e Pat Morita, estrela de Karatê Kid. Seu nome era Haing S. Ngor, que interpretou o jornalista Dith Pran no drama de guerra Os Gritos do Silêncio, sobre um repórter que cai nas mãos do regime do Khmer Vermelho após o fim da Guerra do Vietnã. O que tornava sua atuação ainda mais impactante era o fato de que Ngor havia vivido, na vida real, os horrores retratados no filme!

Nascido em 1940 no Camboja, Haing S. Ngor era médico especializado em obstetrícia e ginecologia. Sua vida relativamente confortável em Phnom Penh mudou drasticamente quando o Khmer Vermelho, liderado pelo ditador Pol Pot, derrubou o governo do país e instaurou um regime de terror.

Assim como milhões de cambojanos, Ngor e sua família foram expulsos da cidade e enviados para um campo de trabalhos forçados. Durante esse período, sua esposa, Chang My Huoy, morreu ao dar à luz. Enquanto isso, Ngor enfrentou anos de fome, tortura e perseguição.

Somente após a queda do regime, no fim da década de 1970, ele conseguiu fugir para a Tailândia ao lado da sobrinha, cujos pais também haviam sido assassinados. Mais tarde, os dois emigraram para os Estados Unidos.

Em Los Angeles, Ngor passou a ajudar refugiados cambojanos e acabou conhecendo a diretora de elenco Pat Golden durante um casamento. Na época, Pat Golden procurava atores para um filme sobre o genocídio cambojano, responsável pela morte de cerca de 30% da população do país.

Segundo ela, Ngor possuía um talento natural para atuar. Inicialmente, ele recusou o convite, pois reviver aquele período despertava lembranças traumáticas. No entanto, acabou aceitando participar de Os Gritos do Silêncio, acreditando que o filme poderia chamar atenção internacional para a tragédia vivida por seu povo. O diretor Roland Joffé relembrou posteriormente: “Ele foi muito corajoso. Interpretar aquele papel significava entregar sua alma — e foi exatamente isso que ele fez.”

O Oscar histórico para Haing S. Ngor

O esforço valeu a pena! Indicado a sete Oscars, incluindo Melhor Filme, Os Gritos do Silêncio venceu três estatuetas. Ngor recebeu o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante, tornando-se o primeiro ator de origem asiática a vencer nessa categoria.

Curiosamente, ele quase perdeu a cerimônia por causa do trânsito de Los Angeles e chegou ao Dorothy Chandler Pavilion apenas nos últimos instantes. Durante seu discurso de agradecimento, emocionou o público ao dedicar o prêmio à sobrinha Sophia Ngor Demetri, dizendo: “Eu fiz isso por você.”

Depois do Oscar, Ngor participou de alguns outros filmes, como P.O.W. – Prisoners of War e Meu Pai, uma Lição de Vida, ao lado de Michael Keaton e Nicole Kidman. Mas sua principal missão passou a ser conscientizar o mundo sobre o genocídio cambojano. Ele utilizou sua fama para denunciar os crimes do Khmer Vermelho e manter viva a memória das vítimas.

No entanto, em 25 de fevereiro de 1996, Haing S. Ngor foi assassinado em frente à sua casa, em Los Angeles, aos 55 anos. A versão oficial apontou que o crime teria ocorrido durante uma tentativa de assalto realizada por três adolescentes, mas muitos questionaram essa explicação.

Um assassinato cheio de mistérios e um legado que permanece vivo

Os criminosos não levaram o Mercedes de Ngor nem milhares de dólares em dinheiro que ele carregava naquele momento, abandonando o local praticamente de mãos vazias. Por causa disso, surgiram teorias de que o assassinato poderia ter motivação política, possivelmente ligado a ex-integrantes do Khmer Vermelho incomodados com o ativismo do ator.

O documentarista Arthur Dong, que investigou o caso anos depois, citou declarações de Kaing Guek Eav — responsável por uma prisão de tortura durante o regime — segundo as quais antigos membros do Khmer Vermelho teriam participado da morte de Ngor. Sua sobrinha também acredita nessa possibilidade:

Eu sempre tive medo por ele porque falava livremente sobre o Camboja. Não era seguro, mas ele não se importava. Só queria ajudar as pessoas do seu país

As circunstâncias exatas de sua morte talvez nunca sejam totalmente esclarecidas. Mas o legado de Haing S. Ngor permanece. Como afirmou sua sobrinha: “Ele usou sua fama para educar as pessoas. E toda vez que alguém vê seu Oscar e me pergunta sobre o Camboja, seu legado continua vivo.” Mais do que um vencedor do Oscar, Haing S. Ngor se tornou um símbolo de resistência, memória e sobrevivência diante de uma das maiores tragédias do século XX.

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