30 anos depois, uma cena censurada de Spartacus, de Stanley Kubrick, foi finalmente reintegrada ao filme
Marco Rigobelli
Marco é tradutor e redator. Tem uma história pessoal com O Bebê de Rosemary, acha que 10 Coisas que Eu Odeio em Você é um dos maiores filmes já feitos e pode passar horas contando fatos aleatórios sobre O Senhor dos Anéis.

Spartacus, de Kubrick, foi vítima da censura. Em particular, uma famosa cena entre Laurence Olivier e Tony Curtis, cujos diálogos evocam, na verdade, a bissexualidade dos personagens.

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Clássico absoluto do gênero épico, Spartacus, de Stanley Kubrick, é mais do que nunca um auge do cinema. No entanto, o mestre não ficou satisfeito com este filme. Tanto que ele chegou a renegá-lo, porque não teve quase nenhum controle sobre a produção, da qual ele não foi o idealizador original.

Essa experiência e frustração pesariam muito no restante de sua carreira, já que Kubrick tornou-se notoriamente conhecido como um dos cineastas mais exigentes, fazendo questão de controlar absolutamente tudo, até o menor detalhe. Foi a primeira e última vez que Kubrick aceitou trabalhar em um filme no qual não detinha o controle criativo — obra que, apesar de tudo, conquistou quatro Oscars em 1961.

Ostras e caracóis

Além de uma produção já conturbada, Spartacus também foi vítima da censura. Primeiro, houve cortes exigidos pela Universal, na figura de Ed Muhl, especialmente no que dizia respeito às intrigas políticas no cerne do Império Romano. Na verdade, todo o subtexto político foi atenuado, para desespero de Kubrick, do roteirista Dalton Trumbo e de Kirk Douglas, ator e produtor do filme.

Embora as relações entre os três tenham sido tensas durante as filmagens, eles concordavam que esses cortes enfraqueciam a obra. E não foram os únicos: sequências de batalhas também foram descartadas, como a importante cena de Metaponto.

A Legião Nacional da Decência (National Legion of Decency), um grupo de pressão criado em 1933 por representantes da Igreja Católica nos Estados Unidos, também entrou na jogada. O objetivo dessa organização conservadora? "Purificar" as produções cinematográficas que pareciam exercer uma má influência sobre a população em geral, e sobre as crianças em particular.

A pedido dela, a Universal atenuou a violência gráfica (o sangue), mas também censurou a famosa cena do banho entre Crasso (Laurence Olivier) e Tony Curtis, que interpreta seu escravo Antonino. Os diálogos da cena evocam a bissexualidade dos personagens através de uma conversa metafórica, ao mesmo tempo críptica e sugestiva, sobre a preferência por "ostras ou caracóis". Isso fez com que a cena inteira, que dura quase 4 minutos, fosse cortada para o lançamento do filme em 1960.

"É revoltante pensar que uma arte com apenas cem anos tenha perdido tanto"

A obra-prima de Kubrick foi restaurada pela primeira vez em 1991, por uma famosa dupla: James C. Katz e Robert A. Harris, também responsáveis pelas sublimes restaurações de clássicos como Um Corpo que Cai e Lawrence da Arábia.

"As imagens são frágeis, os tons e as cores desbotam facilmente e o suporte de celuloide é extremamente delicado. Na verdade, devido aos estragos do tempo, quase 50% de todos os filmes já rodados já foram destruídos", afirmou a dupla na época. "É revoltante pensar que uma arte com apenas cem anos de idade tenha perdido tanto. Felizmente, a situação está melhorando, mas o estado em que se encontram algumas cópias com apenas vinte anos pode ser abominável".

Durante a restauração do filme, a famosa cena do banho foi reintegrada. No entanto, a gravação original dos diálogos dessa cena havia desaparecido, sendo necessário gravá-los novamente. Tony Curtis, então com 66 anos, pôde regravar sua parte, mas a voz de Crasso foi uma imitação de Olivier feita por Anthony Hopkins, sugerido pela viúva de Olivier, Joan Plowright. Assim, os atores gravaram seus diálogos separadamente.

No total, uma parte desses cortes, totalizando 23 minutos, foi reintegrada. Contudo, outras sequências desapareceram, como trechos que apresentavam o personagem Graco (Charles Laughton), que já havia ameaçado Kirk Douglas com um processo na época do lançamento ao descobrir que seu personagem fora severamente reduzido na montagem. Ameaça que ele acabou não concretizando.

O fato é que esta versão restaurada de Spartacus nunca recebeu o selo de "Versão do Diretor"; Kubrick jamais voltou a mergulhar no projeto para entregar sua visão final. Isso não impediu que o American Film Institute, em 1998, classificasse Spartacus na 81ª posição em sua lista dos 100 maiores filmes da história do cinema norte-americano.

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