Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Mais Pesado é o Céu

A vida sempre encontra um meio

por Aline Pereira

Mais Pesado é o Céu estreou premiado no 51º Festival de Gramado e, ao falar sobre o filme durante evento, Matheus Nachtergaele, co-protagonista da história e um dos grandes nomes do cinema brasileiro, deu uma declaração, citando outros trabalhos que já fez, que me marcou: “A última cena é uma das que vou escolher, no final da minha vida, para dizer que ator eu fui. Eu quero João Grilo com Nossa Senhora, Sandro Cenoura vendendo armas, Dunga chorando e Antônio no final de Mais Pesado é o Céu”, disse o ator [em referência a seus trabalhos em O Auto da CompadecidaCidade de Deus e Amarelo Manga. Acho que entendi o que ele quis dizer. Assim que o filme acaba, fica claro o impacto que Matheus viu na história como um todo e em um desfecho de tirar o fôlego. 

Com direção de Petrus Cariry (A Praia do Fim do Mundo), Mais Pesado é o Céu nos apresenta a Antônio (Matheus Nachtergaele) quando ele está tentando conseguir carona até um lugar onde estava um amigo que, segundo ouviu dizer, estava indo muito bem nos negócios. Seu caminho, no entanto, é atravessado pela aparição de Teresa (Ana Luiza Rios) e de um bebê sem nome. Eles têm um passado em comum com uma cidade que não existe mais e, agora, com uma pequena família formada – e mais nada – Antônio e Teresa têm uma nova missão desesperadora: sobreviver e manter viva a criança.

Aqui, me vem à mente a clássica frase que ouvimos em Jurassic Park - Parque dos Dinossauros: a vida encontra um meio. Porque é como se absolutamente tudo estivesse contra Teresa e Antônio – das condições da natureza à interferência humana –, mas eles encontram uma forma de continuar. Custe o que custar. O bebê, em uma representação da própria vida, não faz ideia do milagre que é a sua existência e nem dos sacrifícios feitos por aqueles que vieram antes para que ele continue existindo. 

Mais Pesado é o Céu é um filme sobre fazer o que tem que ser feito 

Enquanto Antônio passa mais tempo em casa tomando conta do bebê, Teresa é quem sai de casa para procurar trabalho e dinheiro. Sem amparo e sem opções, a mulher começa a fazer programas sexuais e, pouco a pouco, consegue criar condições, mínimas que sejam, para que a criança pare de chorar de fome. Acompanhar o desenrolar dessa história é um misto de muitas angústias: é de partir o coração assistir a essa mulher se submeter à violência para encontrar o sustento de sua família – uma sensação que revira ainda mais o estômago com a ambientação hiperrealista e as atuações excepcionais do elenco. A gente sabe que está assistindo à representação de um pedaço do mundo real. E é terrível. 

Essa jornada fica ainda mais profunda se olharmos mais atentamente para a relação entre Teresa e o bebê. Não quero cravar aqui exatamente o que pode significar essa “maternidade” porque Mais Pesado é o Céu é o tipo de história que nos convida, o tempo inteiro, a contemplar com calma tudo o que está acontecendo – os cenários, o movimento dos personagens, os diálogos e alguns silêncios dolorosos entre eles. Com tudo isso dito, vi a mulher e a criança não só sob uma ótica “maternal”, mas como o símbolo de uma humanidade que resiste sem muita explicação lógica, mas que talvez seja a essência do que nos manteve vivos até hoje. 

O desafio de acreditar na bondade 

Ao longo do caminho, Antônio e, especialmente, Teresa são expostos ao pior lado do homem de forma tão brutal que é difícil acreditar em atos de “bondade gratuita” que chegam – e existe algo mais real do que isso? No filme, temos outras duas personagens que surgem como pontos de apoio e, em meio a tanto sofrimento, nosso único pedido mental enquanto a história avança é que elas permaneçam assim. 

Nesse sentido, Teresa é quem tem uma desconfiança que vai sendo trabalhada aos poucos e fica uma sensação da divisão entre o medo e o alívio de encontrar um pouco de amparo e empatia em outras pessoas. É dessa mesma forma, afinal de contas, que sua história com Antônio começa e é a mistura entre falta de opção e uma esperança persistente que a empurram para frente. É muito diferente do comportamento de Antônio: não é que ele seja ingênuo, mas tem uma passividade diante dos acontecimentos que é incômoda. Compreensível, mas incômoda. 

A estrada é um personagem no filme 

Como “road movie” brasileiro, Mais Pesado é o Céu torna o próprio caminho um personagem na história. Veja bem: Teresa e Antônio se encontram na estrada de um lugar que sequer existe mais. Não sabemos direito nem de onde eles estão vindo e nem qual será o ponto final de sua jornada, mas sabemos que eles chegaram e saíram desse fragmento de trajeto com suas vidas completamente transformadas - o bebê, inclusive, ganha nome.

Ambientado principalmente em rodovias enormes e super abertas, o drama dá uma sensação de grandiosidade que é até um pouco sufocante. Os protagonistas passam por aquele caminho muito lentamente e com muito sacrifício, ao passo em que vemos dezenas de carros e caminhões passarem em questão de segundos – alguns deles, inclusive, trazendo experiências violentas para Teresa (ela fica para trás, mas eles vão). Solidão, perigo, silêncio e uma liberdade um pouco tortuosa se misturam em cenários que parecem uma pintura. 

A direção de Petrus Cariry é, sem dúvidas, firme no recorte que quer fazer e o mundo (ou o céu) sobre os ombros de Matheus Nachtergaele e Ana Luiza Rios parece mesmo muito pesado. E sem fim. Vale ressaltar que todo esse espaço aberto também pede uma disposição do público para desacelerar e admirar a vista. Para os mais impacientes, a antecipação dos acontecimentos que virão a seguir vai ser difícil de encarar porque os personagens passam um tempo andando em círculos, com um progresso que não se apressa muito em acontecer – particularmente, acho que esse ritmo faz sentido. As coisas se repetem e repetem antes de darem um pequeno passo em outra direção. 

Mas quando a última cena chega, a fala de Matheus Nachtergaele faz sentido e a catarse é de fazer o coração acelerar. Aquele não é o fim da história de Antônio e Teresa, mas a estrada deles continua para outro lugar. E nós vamos em frente.