Críticas AdoroCinema
2,0
Fraco
The Discovery

O cinza

por Taiani Mendes

Segundo longa de Charlie McDowellThe Discovery tem uma premissa instigante: num futuro não muito distante, a sociedade encontra-se em colapso por conta do alto número de suicídios em decorrência da comprovação de um novo plano de existência, como o cientista Thomas Harber (Robert Redford, desperdiçado) gosta de chamar a vida após a morte. Ele diz não sentir qualquer responsabilidade pelos milhões de óbitos e defende a disseminação da descoberta vital, mas uma entrevista ao vivo marcada por um choque o leva a se esconder para dar prosseguimento à busca por ainda mais respostas. Afinal, o que acontece com a consciência? Para onde vamos?

Will (Jason Segel) vai de barca e assim conhece Isla (Rooney Mara), que o faz se encontrar na ilha que muda o rumo de sua vida – que escolha de nome nada sutil, roteiristas McDowell e Justin Lader... Poderia ser considerado spoiler não fosse tão óbvio desde a primeira cena dos dois que eles em alguns minutos superariam a implicância, ficariam juntos, sofreriam um bocado e compartilhariam traumas. Estabelecido o panorama, não existem muitas surpresas nos 102 minutos de The Discovery e a principal – talvez única – é tão descaradamente plantada, no sentido de manipulação forçada da trama, sem qualquer justificativa, que deveria ser desqualificada.

The Discovery coloca descoberta no título e no cerne para tratar da quebra de convicções. A suicida que desiste de morrer. O cientista que para de pesquisar. O cético que quer acreditar. Assim como no filme anterior do diretor, o sinistro Complicações do Amor, os personagens são flagrados tomando decisões que desestabilizam suas existências e lidam com o extraordinário inserido na realidade. Uma vantagem do filme de 2014, no entanto, é a química dos protagonistas, vividos por Elisabeth Moss e Mark Duplass. Rooney Mara e Jason Segel não dão liga e a construção do relacionamento tampouco contribui para a produção de alguma faísca. Apenas Will se empenha no romance, nutrindo sentimentos, e tanto é assim que no trecho final ele é o único preocupado com o futuro a dois. O romance do casal que só importa a um componente.

Assumidamente chato, o neurologista vivido por Segel é uma imitação de qualquer interpretação de Jesse Eisenberg sem a velocidade no disparo de palavras. Como é difícil se importar com ele e o sonolento mistério dos vídeos que dá ao longa um caráter investigativo, o que leva a pensar que abordar o dilema do reset em termos mais gerais, olhando para a sociedade e a população em drástico declínio, teria sido bem mais rico do que a limitação ao núcleo familiar Harber, isolado numa pequena ilha ao redor de uma máquina.

Como um irmão depressivo de No Limite do AmanhãFeitiço Do Tempo e Contra o TempoThe Discovery felizmente não tem "tempo" no título, mas recicla conceitos e decepciona pelo cheiro de "sofrimento requentado" e falta de criatividade que deixa no ar. Mesmo quando estão bem, todos parecem estar mal e chega a ficar cansativa a brincadeira de enganar a morte. Pouco profundo e cheio de frases de efeito existenciais, o filme também exagera nos furos e "jeitinhos" para avançar a narrativa, como facílimas invasões hospitalares e Isla convidada para participar de uma reunião secreta mesmo tendo acabado de ser aceita no culto de Thomas, um líder muito esquisito.

Caracterizado por clima pesado e protagonistas cabisbaixos, The Discovery faz você descobrir, caso ainda não saiba, que bom argumento não gera filme de qualidade. Histórias tristes de personagens tristes compõem este drama que talvez tivesse êxito se conseguisse transmitir tal tristeza transbordante ao espectador, que apenas afunda no tédio minuto a minuto. Na versão alternativa da vida não cometa o mesmo erro e pegue esse tempo de volta.