Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Ao Cair da Noite

Menos é mais (assustador)

por Renato Hermsdorff

Ao entrar na sala de cinema, não espere respostas. Ao Cair da Noite é um filme quase que exclusivamente sensorial. Um suspense de construção de clima que boa parte da audiência pode acreditar que não leve a lugar algum. Mas, acredite: o importante, aqui, não é o destino, mas o percurso em si.

Dirigido pelo quase desconhecido Trey Edward Shults (do elogiado Krisha, que não foi lançado no Brasil), o longa também conta com roteiro do realizador. E a história é bem simples. Em um mundo assolado por uma ameaça à saúde das pessoas, Paul (Joel Edgerton) vive isolado em uma floresta com a esposa (Carmen Ejogo) e o filho (Kelvin Harrison Jr.) Quando um homem (Christopher Abbott) invade o refúgio deles, claro, perturba a ordem autoimposta pelos anfitriões.  

Daí que sem reviravoltas rocambolescas, teorias “espertinhas”, nem a tentativa de reinventar a roda (o cinema), o que o diretor faz é se ater a uma escola econômica de contar história, uma espécie de volta ao passado que soa, ironicamente, transgressora para os dias de hoje.

Da mesma produtora do já cult A Bruxa (A24), It Comes At Night (no original) combina texto, fotografia (escura e úmida), trilha (minimalista e discreta), todos os elementos a favor da dramaturgia. E o resultado é uma atmosfera de constante apreensão – uma espécie de Contágio (o aterrorizante filme de Steven Soderbergh) rural.

Durante a totalidade da projeção, a impressão que se tem é a de se estar diante de um primeiro ato progressivo e sem fim. Sempre na iminência de que algo aconteça, o perigo rondando, à espreita, não há como desgrudar os olhos da tela. Funciona quase como uma pegadinha para com o espectador. O diretor estabelece uma relação terrorista para envolver psicologicamente a audiência.

Se o seu coração só dispara na presença de monstros megalômanos animados por computação, serial killers com máscaras esquisitas ou figuras que saltam à luz quando o som estoura, talvez seja melhor optar por outra sala. Ao Cair da Noite é a lembrança de que menos é mais (assustador).