Críticas AdoroCinema
2,0
Fraco
A Obra do Século

A ficção contra o documentário

por Bruno Carmelo

No mesmo dia em que o festival Cine Ceará 2015 apresentou uma releitura nonsense da história espanhola com o divertido Estrela Cadente, outro filme propôs uma representação inusitada do passado nacional. O cubano A Obra do Século, de Carlos Quintela, apresenta a Cidade Electro-Nuclear, criada décadas atrás na intenção de receber uma usina nuclear que nunca foi concluída no país.

Cinematografias como a brasileira estão acostumadas com a permeabilidade entre ficção e documentário, que tem dominado as produções do circuito de arte. Mas A Obra do Século mostra que nem sempre os dois registros se somam muito bem: neste caso, não temos uma ficção dotada de estética documental, ou trechos históricos reencenados de maneira fictícia, e sim uma trama que coloca lado a lado, sucessivamente, materiais de arquivo e uma ficção destinada a comentar o tema. O mecanismo é portanto didático, como o show and tell das escolas americanas: primeiro apresenta-se a coisa em si, como fato objetivo, para depois interpretá-la.

No caso, as imagens documentais ocupam apenas um pequeno quadrado no meio da imagem, com depoimentos de trabalhadores que construíram a Cidade Electro-Nuclear. São trechos simples, sem pretensão artística original, mas que adquirem ares informativos quando apropriados pela obra cinematográfica. Já a ficção apresenta três gerações de homens ligados à cidade: o avô arrogante (Mario Balmaseda), que se julga dono do lugar, o pai depressivo (Mario Guerra), antigo engenheiro nuclear, e o filho que foi morar só (Leonardo Gascón), mas retornou à casa da família após uma ruptura amorosa.

A ficção constitui o elo mais fraco de A Obra do Século. Com uma fotografia em preto e branco meio esverdeado e enquadramentos estranhamente angulados, o diretor faz uso um tanto particular da casa principal, sem explorar a fundo a solidão ou as dúvidas de cada morador. Ele prefere os embates violentos (os homens literalmente comparando o tamanho do pênis no corredor) ou cômicos (a falsa morte do avô, as aventuras com o peixe no aquário), privilegiando portanto as cenas de catarse. Não há sutileza neste retrato ora sério, ora burlesco da história cubana, que dialoga muito pouco com a construção da usina. As atuações tampouco ajudam, fornecendo a impressão de uma bricolagem pouco controlada pelo diretor.

Por fim, a produção cubana deixa a impressão que, ao justapor ficção e documentário (ao invés de fundi-los), o filme acabou por sabotar sua própria estrutura interna. Um registro funciona contra o outro: as gravações da época sugerem uma impressão de “verdade” descontruída pelo drama doméstico dos três homens. A proposta do diretor é ousada e criativa, mas não se sustenta: os trechos funcionam como dois filmes independentes, de qualidades bastante distintas.

Filme visto no 25º Cine Ceará – Festival Ibero-americano de Cinema, em junho de 2015.