Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Chico - Artista Brasileiro

Vinicius 2 (o que não é um demérito)

por Renato Hermsdorff

Com Vinicius, o diretor Miguel Faria Jr. recontou, cronologicamente, a vida de Vinicius de Moraes, intercalando depoimentos do “poetinha” (imagens de arquivo) e de amigos famosos, mesclados com um pocket show em que artistas reinterpretam sua obra musical e declamações de parte do acervo literário pela dupla de atores Ricardo Blat e Camila Morgado. O ótimo documentário, honesto, colheu o que plantou. Lançado em 2005, é o filme brasileiro do gênero mais assistido do país.

Com alguma (quase nenhuma) variação, Chico - Artista Brasileiro, assinado pelo mesmo cineasta, repete a mesma estrutura. Quem conduz a história (cronologicamente) é o próprio Chico Buarque, em longo depoimento exclusivo para a obra, com intervenções dos amigos, números musicais, literatura... Embora a forma não seja exatamente original, Miguel Faria Jr. acerta de novo na honestidade.

O resultado é um filme-homenagem – é conhecida a relação de amizade entre o cineasta e o biografado – que evita episódios “polêmicos” da vida de Chico (o artista teria roubado um carro aos 17 anos, por exemplo) ou mesmo muito pessoais (o casamento com Marieta é tocado de forma curta, embora bem significativa, a partir do relato do ator e diretor Hugo Carvana).

Aos 70 anos, sendo 50 de carreira, Chico é um dos personagens mais interessantes – e explorados – da

vida cultural nacional (Vinicius diz no filme que ele seria uma das poucas “montanhas” na imensa “planície” que seria a música brasileira, ao lado de Dorival Caymmi e Noel Rosa). E ele – e todas as histórias que o orbitam – são a garantia de uma obra ainda assim (um pouco) reveladora e (muito) deliciosa de ser assistida (em grande parte, por causa do humor do protagonista).

Para além de todo o contexto da efervescência política que compreende esse longo período, com a qual vida e obra de Chico Buarque se confundem – e dos quais o filme não foge –, o retratado inverte alguns paradigmas a respeito de sua personalidade, ao negar a timidez a que é associado normalmente; ou se declarar “mais” escritor do que um artista musical.

A respeito dos números musicais, o próprio filme traz suas “montanhas”. "A Banda"? "Construção"? "Apesar de Você"? Que nada! O repertório escolhido para ser apresentado no palco do longa foge do

lugar comum e vai de “Mambembe” (Moyseis Marques), “Mar e lua” (Monica Salmaso), “Estação derradeira” (Péricles). Na mesma linha, e seleção de artistas traz um frescor de intérpretes, com destaque para a portuguesa Carminho ("Sabiá"), um empolgante dueto/ embate de “Biscate” entre Adriana Calcanhotto e Martnália; e uma arrebatadora interpretação de “Uma canção desnaturada” pela também atriz Laila Garin, que deu vida a Elis Regina nos palcos.

Pelo viés literário, Miguel Faria Jr resolveu destacar o último romance de Chico Buarque, o “Irmão Alemão”, no qual, mesclando realidade e ficção, o autor resolve investigar o “boato” de seu pai teria tido um outro rebento, fora do casamento, em uma viagem ao país europeu. Cabe a Marília Pêra a leitura dos trechos selecionados do livro, um recurso narrativo que marca presença no início da projeção e se perde ao longo do filme, até ser retomado – e justificado – no fim.

Apesar da forma de “planície”, Chico - Artista Brasileiro é uma “montanha” no conteúdo (bem ali, ao lado de Vinicius).