Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Razão e Sensibilidade

Razão e Sensibilidade, a nova versão do clássico romance de Jane Austen, entrega um drama elegantemente feroz

por Júlia Barbosa

Muito do que conhecemos hoje como pilares clássicos do romance nasceu como transgressão pelas mãos de Jane Austen ao publicar seu primeiro livro, Razão e Sensibilidade, em 1811, sob o pseudônimo “The Lady”. Na época, mulheres não podiam estampar seus nomes nas capas dos livros e tampouco conseguiam abri-los sem encontrar que as personagens que pensavam em outra coisa além da obediência ao marido terminassem em tragédia. Por isso, ver uma histórias precursoras sobre irmandade feminina da literatura ser conduzida por Georgia Oakley, a primeira mulher a dirigir uma adaptação de Razão e Sensibilidade, ao lado de uma equipe majoritariamente feminina, já justifica mais uma versão.

Há três décadas, Emma Thompson conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por sua iteração de Sense & Sensibility, a qual muitos leitores consideram ser a adaptação cinematográfica definitiva da obra. E, ao meu ver, o longa-metragem de Oakley está muito longe de ser um remake do filme de 1995, mas sim um novo e potente caminho para interpretar a história das irmãs Dashwood.

Na trama, as mulheres da família Dashwood se veem em risco de ruína após o pai delas falecer e deixar quase toda a fortuna para seu único filho homem, fruto de seu primeiro casamento, como a lei manda. Para salvarem a mãe, a irmã mais nova e suas reputações, Elinor (Daisy Edgar-Jones) e Marianne (Esmé Creed-Miles) precisam arranjar maridos, algo que se torna muito mais difícil sem um dote a oferecer.

O novo Razão e Sensibilidade não é colorido como o filme de Ang Lee e isso não é um problema

Os momentos divertidos, o humor perspicaz e a ambientação alegre e colorida transformam o Razão e Sensibilidade de Ang Lee no filme de conforto perfeito. Se você está procurando essa sensação gostosa de domingo na nova adaptação, vai acabar se decepcionando. Isso não é um problema. Muito pelo contrário, é satisfatório ver que Georgia Oakley foge da estratégia de Hollywood de replicar fórmulas de sucesso para vender ingressos motivados pelo poder da nostalgia. Ela se propõe desde o embrião do projeto a fazer um drama, e não uma comédia romântica. Essa já é facilmente encontrada no streaming!

Dentro de sua proposta, a vibração do novo Razão e Sensibilidade provém de outras fontes que não de uma paleta de rosas e amarelos saturados. Ao lado da diretora de arte Caroline Barclay e da designer de produção Francesca Di Mottola, Georgia evidencia os verdes profundos em uma abordagem visual enraizada na conexão das protagonistas com a natureza úmida do litoral britânico.

Tal relação me fez desenhar um paralelo com (o espetacular) Hamnet, de Chloé Zhao, que trata a floresta como uma extensão natural da Agnes de Jessie Buckley. Aqui, os elementos da natureza, seja a tempestade ou a brisa das pradarias, refletem como Marianne e Elinor Dashwood se sentem, enquanto a pequena Margaret (Bodhi Rae Breathnach) recorre aos animais para buscar conforto. Em contrapartida, o cinza do concreto de Londres confina as irmãs na angústia de esperar pelas respostas dos homens que julgam amar.

Além de belíssima, a fotografia contemplativa se mostra essencial para pintar as variações emocionais dessa paisagem. Diante disso, creio que vale pontuar que Sense & Sensibility (2026) toma seu tempo para avançar de um ato para outro, se concentrando, muitas vezes, em construir a atmosfera de cada fase do enredo. Por um lado, isso garante transições coesas e fluidas, mas provoca um ritmo pouco ágil de montagem.

Daisy Edgar-Jones mostra que nasceu para ser uma protagonista de filme de época, enquanto Esmée Creed-Miles desafina ao herdar papel de Kate Winslet

Desde que despontou na indústria em Normal People, série baseada no livro de Sally Rooney, Daisy Edgar-Jones vem demonstrando que tem o potencial e a versatilidade para sustentar papéis principais com maturidade. A britânica de 28 anos exibe a especificidade exigida para interpretar Elinor, alguém que faz esforços sisíficos para controlar suas emoções e tampouco mede forças para colocar as necessidades de quem ama em primeiro lugar. Além de puxar a trama com maestria, ela também complementa bem o par romântico com George MacKay, formando um casal delicado que se entende nos silêncios, não em discursos shakespearianos de paixão.

Falando em galãs, o astro de 1917 me surpreendeu como um Edward Ferrars bastante convincente, apostando na timidez do papel de uma forma não tão charmosa quanto o Hugh Grant dos anos 90 — um feito impossível de replicar—, mas sincera. Digo o mesmo de Herbert Nordrum, que surge irreconhecível como o misterioso e profundo Coronel Brandon. O norueguês, mais conhecido por A Pior Pessoa do Mundo, dispõe de menos espaço que Alan Rickman teve para conquistar o público, mas encontra os momentos certos para revelar que Marianne é a chama que derrete seu coração.

Por outro lado, eu passei a sessão inteira incomodada com a forma que Marianne Dashwood foi retratada e julgo que muito está nas escolhas de Creed-Miles para demonstrar quanto sua personagem é intensa, algo que acaba ficando brusco, ao invés de sensível. No livro de Austen, ela é uma pessoa naturalmente convicta de seus sentimentos e da importância que a paixão ocupa em sua vida. Ela transborda emoção, sabe disso e não quer ser de outra forma. Por isso, ela acha um absurdo que outras pessoas, como o coronel e sua irmã, sejam tão contidos e priorizem questões práticas. Em 1995, uma Kate Winslet de 19 anos consegue representar essa nuance. Infelizmente, a Marianne de Esmé foca tanto em ser intensa que ela soa apenas obstinada, teimosa e, às vezes, arrogante.

Ironicamente, não consegui tirar da cabeça o episódio das atrizes brasileiras que estavam cotadas para o papel de Juma Marruá no remake de Pantanal e publicaram fotos e vídeos na beira de riachos, descalças e encarnando os “olhos de cigana dissimulada” da mulher-onça. E, tal como a performance de Alanis Guillen provou na época, isso não é algo que dê para se forçar. Creio que a caracterização descabelada e rústica contribuiu para essa analogia.

Razão e Sensibilidade é uma história de amor entre irmãs

Mais do que qualquer casamento de felizes-para-sempre, o núcleo emocional do romance de Jane Austen reside no percurso das irmãs protagonistas. Enquanto Elinor encara a questão de maneira pragmática e se concentra em manter as finanças da casa em ordem, Marianne não abre mão de encontrar um noivado verdadeiramente por amor. À medida que o romance desponta na vida de ambas as jovens, elas precisam refletir sobre suas convicções e contar uma com a outra para atravessar tais dilemas.

Razão e Sensibilidade (2026) reforça tal argumento com dispositivos narrativos estrategicamente colocados. Sem dar spoilers de uma cena que não está nem no filme e tampouco no livro original, a grande virada de Elinor acontece quando ela, enfim, perde o decoro e cede aos impulsos passionais que passou a vida dispensando não tem nada a ver com o casamento do Sr. Ferrars, mas sim para defender sua irmã. Na mesma medida, Marianne encara a razão para reconhecer que foi injusta com a mais velha.

Tais momentos são grandes alívios para as Dashwood e para quem, do outro lado da tela, deseja ver nos filmes que histórias femininas são, sim, multifacetadas. Nelas, é possível explorar a ânsia pelo amor romântico e a imprescindibilidade da irmandade entre mulheres nas nossas vidas, complexidade essa que apenas uma obra assinada e feita pelas mãos de artistas mulheres consegue retratar.