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    "Hemlock Grove é uma metáfora sobre se sentir monstruoso", diz o diretor e produtor Eli Roth
    Por Bruno Carmelo — 22 de ago. de 2014 às 17:00
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    Eli Roth conversou com jornalistas brasileiros sobre a série da Netflix.

    O cineasta Eli Roth é mais conhecido como o diretor de vários filmes de terror como O Albergue e Canibais, além de fazer alguns trabalhos como ator em Bastardos Inglórios, por exemplo. Mas Roth é sobretudo um produtor atarefado, responsável por dezenas de filmes de terror, e também pela série de sucesso Hemlock Grove, disponível na Netflix.

    De passagem pelo Brasil, ele conversou sobre a criação da série, sobre o universo único desta história cheia de monstros, e revelou o que realmente significa ser um monstro em seu ponto de vista. "Histórias de terror são contos de fada para adultos", ele defende. Confira as interessantes ideias de um cineasta prodígio do gênero fantástico:

    Influências

    "Hemlock Grove foi a primeira coisa que eu dirigi depois de atuar em Bastardos Inglórios. A maneira como eu dirigi atores e cenas foi muito influenciado pela maneira como eu vi Tarantino trabalhando. Os filmes dele são sempre muito estilizados, todo mundo pensa que existe um storyboard ou uma graphic novel que acompanham, mas o processo é muito mais orgânico do que parece. Ele começa com os atores atuando em um espaço, depois sente o que parece mais natural, e só aí decide trazer a câmera".


    "Não se preocupe, não é Crepúsculo"

    "Eu estava empolgado para dirigir novamente, e foi um bom passo antes de dirigir Canibais. Eu queria voltar à cadeira do diretor. Foi ótimo trabalhar com a Netflix, porque nós encaramos Hemlock Grove como um filme de 13 horas na primeira temporada, e um filme de 10 horas na segunda temporada. Foi a minha primeira vez adaptando algo. Eu realmente adoro o romance de Brian McGreevy. Quando o produtor me trouxe o livro, ele disse: 'Tem vampiros e lobisomens, mas não é Crepúsculo, não se preocupe!'. Eu li e era muito mais próximo de Twin Peaks. Achei ótimo, dava uma trama de assassinato estranha, sombria, violenta".

    A diferença da Netflix

    "Eu pensei: se você realmente vai fazer uma série sobre um garoto de 17 anos que pode hipnotizar pessoas e tem sede de sangue, então quando uma bela líder de torcida vai colocar o seu absorvente, ele pode segui-la no banheiro, hipnotizá-la e fazer sexo oral nela, dar o melhor orgasmo que ela já teve! E a Netflix adorou! Eles queriam estes momentos chocantes que fariam todo mundo comentar no dia seguinte. Eles não precisam de audiência, eles trabalham com inscrições e ações".

    "É incrível o que aconteceu com Breaking Bad, que era de outra emissora, mas sofreu o 'efeito Netflix': todo mundo falava do final, então a melhor maneira de assistir ao final era voltar e ver as três primeiras temporadas na Netflix. Além disso, dez anos atrás quando eu estava fazendo O Albergue, as séries demoravam demais para ficarem prontas e para serem exibidas. Desperate Housewives estava começando a produção quando eu estava filmando O Albergue 2. E as pessoas em Praga ainda não tinham visto a série, que demorava demais para chegar lá. Hoje, quando uma série estreia nos Estados Unidos, ela está no ar no mundo inteiro. E todo mundo fala a respeito nas redes sociais, no Twitter. O que a Netflix fez, foi criar um evento global. Isso nunca tinha sido feito antes". 


    Uma história de monstros como as outras?

    "O tema de Hemlock Grove é comum, mas a atmosfera é diferente. Existem muitos filmes sobre crianças sendo mortas na floresta, mas tem apenas um Cabana do Inferno. Existem muitos filmes sobre pessoas sendo torturadas, mas apenas um O Albergue. Se eu sinto que posso trazer algo especial, único e interessante, eu vou fazer. Se me parece que a coisa já foi feita antes, ela não me interessa. É por isso que eu gosto de Hemlock Grove, porque ele é uma metáfora sobre se sentir monstruoso. A personagem mais bonita, Olivia Godfrey (Famke Jannsen), é a mais monstruosa, enquanto a mais feia por fora, Shelley Godfrey (Madeleine Martin), é a mais bonita por dentro. Roman (Bill Skarsgard) e Peter (Landon Liboiron) estão lutando com seus demônios internos, literalmente. Eu queria pegar essa mitologia e levá-la a direções inéditas".

    "A ideia da maioria das pessoas sobre a transformação em lobisomem é o de um cara musculoso arrancando a camisa e magicamente se transformando em lobo. Eu queria que a transformação fosse incrivelmente violenta, como no momento em que você está na sala de aula, aos 13 anos de idade, e te mostram um vídeo explícito de um parto pela primeira vez. Todo mundo grita, e as meninas falam: 'Você nunca vai fazer isso comigo!'. É um processo biológico, e eu queria que a transformação também fosse assim. As pessoas que gostaram de Crepúsculo podem assistir e dizer: “Ah, então essa é a versão verdadeira!”. Mas aqui o lobo rasga a pele, come a própria placenta".

    A segunda temporada

    "Na segunda temporada, nós não tínhamos mais o livro, e pudemos ir para qualquer direção. Peter tinha tantos segredos sobre ser um lobisomem, mas o que aconteceria se ele fosse mais ousado, se trapaceasse as pessoas para conseguir dinheiro? E se ele pudesse se transformar fora da lua cheia? O que isso causaria a ele? Isso, para mim, era uma metáfora das drogas. É isso que acontece quando as pessoas forçam o seu corpo além da natureza. Existe um preço, e era isso que eu queria trazer".


    "A primeira temporada gira em torno do mistério de quem matou Brooke Bluebell. Na segunda temporada, existe outra mitologia, sobre o Roman e as pessoas que tentam pegar o filho dele. É um mundo divertido, dá para fazer muitas coisas com essa história. Nós tivemos ótimos diretores, e talvez nem todos quisessem fazer um filme inteiro a respeito, mas eles queriam experimentar esse mundo. Dois anos atrás, as pessoas achavam que por ser da Netflix, seria apenas uma série pela Internet, e hoje todos querem dirigir um episódio de Hemlock Grove como teste para ter a sua própria série na Netflix". 

    Madeline Brewer, a novata da série

    "Para a segunda temporada, nós pensamos no que gostamos na série, no que funcionava. E o que realmente dava certo era colocar todos os garotos interagindo. Quando Peter, Roman e Letha (Penelope Mitchell) estavam juntos, todo mundo gostava. E nós queríamos ver essas pessoas juntas de novo. Temos muita sorte que Madeline Brewer tenha se juntado ao elenco. Ela estava ótima em Orange is the New Black, e é uma excelente atriz, e um doce de pessoa. Ter um romance é uma ótima maneira de aproximar os personagens e criar conflito. Nós queríamos algo legal, convincente, e não que Miranda fosse apenas um par romântico".

    "Ela é a voz da plateia. Sendo a única forasteira, ela fica surpresa, descobre que Peter é um lobisomem. Ela traduz o que o espectador pode sentir quando assiste à série pela primeira vez. Ela também adora os garotos, e se preocupa com eles. Foi divertido assistir à plateia pensar: 'Calma aí, vai ter sexo a três? O que está acontecendo?'. As pessoas comentavam no Twitter... Isso é a parte bacana da série: pegar esses personagens e colocá-los em situações horríveis, estranhas, sinistras".  


    Eli Roth, ator

    Sobre a possibilidade de fazer uma participação como ator na série, o cineasta comenta:
    "Nós queríamos fazer uma cena na primeira temporada comigo e Famke. Eu deveria ser um barman que a Famke Jannsen ataca e leva para a cama, mas não deu certo com a minha agenda. Mas nunca se sabe. Se for algo realmente divertido, eu topo. Não vou ser um personagem fixo, mas sempre aceito uma participação especial". 

    Por que o terror agrada tanto?

    "Desde que somos crianças, adoramos histórias sobrenaturais. João e Maria mostra crianças enfiadas em fornos. Os contos de fada são muito violentos, com seus monstros e crianças sendo comidas. Isso ajuda as crianças a lidarem com as incertezas da vida e a estranheza da morte. Quando as crianças vão para acampamentos, elas contam histórias de terror. É natural. Os filmes de terror são contos de fada para adultos. Quando se faz uma comédia, ele reflete muito o país onde foi feita, e o que é engraçado naquele momento. Mas o terror é atemporal, e atravessa barreiras. Com O Albergue, tanto no Brasil quanto no Chile e na Islândia, as pessoas se assustavam da mesma maneira. O terror é global, e as pessoas adoram". 

    Eli Roth, Famke Jannsen e Madeline Brewer

    O que é um monstro?

    "Para mim, um monstro pode ser uma pessoa que, para outros, seja totalmente normal. Um monstro, para mim, é alguém que decapita alguém por causa de suas crenças religiosas, e culpa toda uma nação por causa de um pequeno grupo de pessoas. Isso é um monstro. Mas para as pessoas que matam, eles se sentem tão ameaçados que acham que precisam matar pessoas para afirmar as suas ideias. Para eles, eu devo ser o monstro, por causa da maneira como eu levo a minha vida, e pelas minhas crenças. Mas quando você vê pessoas que matam crianças no Iraque, e colocam diversas cabeças enfiadas em estacas porque acreditam que vão ao céu por causa disso, é aterrorizante".

    Reação do público

    "Tudo está no Twitter. O público que vê Hemlock Grove está nas redes sociais, e você vê a reação imediatamente. Mas na Netflix, eles sabem exatamente o que as pessoas veem, em qual minuto elas param, quando elas voltam. Muitos voltam para ver a primeira temporada, o público está crescendo. Mas assim que acaba um episódio, todo mundo quer ser o primeiro a ir no Twitter e declarar que a série é a melhor do mundo, ou a pior porcaria do universo. Eles querem dizer que a temporada 2 é bem melhor, ou que estragamos tudo. Quando você procura no Twitter, existem milhares de comentários. Com a Netflix, não apenas você pode assistir tudo de uma vez, mas você também pode interagir com os criadores e com outros fãs instantaneamente, então a série se torna uma experiência global".

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    Comentários
    • Allan Crisanto
      Eu gosto da série e acho super incrível, o elenco é demais ♥
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