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    8 ½ Festa do Cinema Italiano 2019: Para diretor de A Melhor Juventude, temos muito a aprender com os anos 1960 (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo — 09/08/2019 às 09:10
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    Marco Tullio Giordana fala sobre a epopeia de dois irmãos ao longo de quarenta anos de história italiana.

    A Festa do Cinema Italiano, que acontece entre os dias 8 e 21 de agosto em várias cidades brasileiras, traz ao circuito um filme raro: A Melhor Juventude, saga de mais de seis horas de duração, dirigida por Marco Tullio Giordana, sobre quarenta anos da história italiana vista pelos olhos dos irmãos Matteo (Alessio Boni) e Nicola (Luigi Lo Cascio).

    Engana-se quem acredita que o filme é arrastado: as duas partes de A Melhor Juventude - exibidas em sessões distintas do festival - revelam as principais passagens na vida da dupla da adolescência à maturidade, incluindo muitas histórias de amor, guerras, encontros e mortes através de diversas cidades e países. O cineasta e os produtores oferecem uma epopeia como poucos artistas fariam hoje em dia. (Leia a nossa crítica).

    De passagem no Brasil durante a Festa do Cinema Italiano, Marco Tullio Giordana conversou com o AdoroCinema sobre o filme, vencedor da mostra Um Certo Olhar em Cannes em 2003. Depois do festival, A Melhor Juventude chega aos cinemas brasileiros dia 5 de setembro. 


    O diretor Marco Tullio Giordana

    Como concebeu e viabilizou um projeto dessas proporções?

    Marco Tullio Giordana: Na verdade, este projeto só pôde acontecer porque foi imaginado para a televisão. Eram quatro episódios de uma hora e meia cada um, atravessando quarenta anos da história italiana. Mas no final das contas o delegado artístico do Festival de Cannes, Thierry Frémaux, assistiu ao material e quis exibi-lo em Cannes. Até tentamos cortar o filme, reduzi-lo para se tornar um filme só, mas era impossível. Então acabamos tirando os letreiros da televisão, reunimos as imagens e dividimos em duas partes.

    Por que quis trabalhar com os mesmos atores principais ao longo de tantas décadas de narrativa, ao invés de escolher atores de idades diferentes?

    Marco Tullio Giordana: Os personagens principais da minha história vão de dezoito a cinquenta anos de idade. Como eu não mostro a vida deles durante da infância, não tinha a necessidade de trabalhar com atores diferentes. Um bom ator na casa dos vinte e cinco, trinta anos pode se parecer com alguém de dezoito, e pode se transformar em alguém de cinquenta. Fica mais fácil para o espectador se afeiçoar aos personagens se os atores forem sempre os mesmos. Os filmes sempre correm um grande risco quando mudam os atores, e outro assume de onde o anterior parou. Cria-se um conflito com o espectador, que eu preferi evitar.

    O que entende pela noção de “melhor juventude”?

    Marco Tullio Giordana: A expressão “la meglio gioventù”, do título original, não está gramaticalmente correta; ela corresponde a um dialeto. Mas ela já contém a ideia de algo que não funciona perfeitamente. Além disso, faz referência ao título da obra do Pasolini, e traz a ideia de algo que você acredita que tenha sido o melhor, mesmo que não seja o caso. Trata-se de uma geração movida por ideais muito grandes. Eles tinham fé, tinham convicções. Acredito que a boa recepção ao filme em outros países se deva ao fato de que este movimento, durante os anos 1960, ocorreu em todas as partes do mundo ocidental, e até alguns orientais. Naturalmente, isso não significa que esta tenha sido a melhor juventude de todas, mas eles realmente se esforçaram, viveram essa época com ternura e vigor, ainda que tenham enfrentado momentos muito sombrios da História.

    Como a juventude retratada no filme se compara com a geração atual?

    Marco Tullio Giordana: Não queria responder nem com frases banais, nem com discursos de velho! Mas a maneira de viver juntos mudou tanto que fica até difícil traçar um paralelo. A difusão da Internet criou uma impressão de contato que não existe de fato. Estamos totalmente solitários, ainda que escrevamos, publiquemos o dia inteiro. Mas estamos interpretando: essas personas das redes sociais não são nós mesmos, são nossos personagens. Antes, era diferente: a convivência real, física com os outros era necessária para se conhecer e conhecer o mundo. Não havia outra maneira. Seria impossível voltar agora a uma sociedade como a daqueles tempos, mas precisamos resgatar a aproximação real entre as pessoas. Acredito que um artista jovem, desta geração, poderia realmente descrever a nova juventude, mas eu não posso, já estou muito distante disso.

    Considera A Melhor Juventude um drama tipicamente italiano ou um projeto universal?

    Marco Tullio Giordana: Acredito que os artistas sempre devam retratar o mundo que conhecem. Eles precisam falar de seus pais, seus vizinhos, seus amigos, seus filhos. Ser sincero com esta representação leva naturalmente a uma impressão de universalidade, sem esforços. Isso acontece porque temos muita curiosidade em descobrir o resto do mundo, que é obviamente muito distinto das nossas experiências pessoais. Essa vontade de conhecimento nos leva a buscar elementos que consideramos universais em histórias locais. Isso vale tanto para a música, a literatura quanto para o cinema.

    Nesta trama, os protagonistas são homens, mas quem faz mover a história são as mulheres: Giorgia, Giulia, Mirella, Adriana...

    Marco Tullio Giordana: Em A Melhor Juventude, as mulheres são a verdadeira força, a verdadeira energia. Os homens são como lagos, algo fechado em si, mas as mulheres são riachos, que correm, se movem. Adriana, Giorgia, Giulia, Sara, Francesca, todas elas transmitem um desejo de novidade, uma vontade de transformação, mesmo que cometam erros. As mulheres são mais corajosas em projetar, em inventar para o futuro. Os homens são mais voltados ao presente, à necessidade de enfrentar o urso, de enfrentar o tigre. São os problemas de aqui e agora.  

    A Melhor Juventude é bastante focado em rostos, em close-ups, algo que poucos diretores fazem hoje.

    Marco Tullio Giordana: Isso se deve ao fato que, quando fiz o filme para a televisão, trabalhei com um elenco que jamais tinha trabalhado na televisão. Eles eram uma novidade absoluta para o público. Inclusive, fiquei surpreso que tenham aceitado essas escolhas, porque é comum os produtores imporem suas escolhas já feitas, mas eu queria nomes novos, estreantes. Para mim, quando faço um filme, é importante que o ator não apenas interprete aquele personagem, mas que ele o viva, que se transforme dentro da composição. O close-up me permitia captar essas pequenas transformações no rosto de cada ator. Quando aproximava a câmera, eu sentia que entrava nas palavras deles, penetrava as expressões do rosto, até captar algo escondido, principalmente nos olhos. Quando escolhi Alessio Boni e Luigi Lo Cascio para os papéis principais, me disseram: “Mas eles são muito diferentes, ninguém vão acreditar que sejam irmãos!”. Ora, esse não é um problema. Quando gostamos de um personagem, a verossimilhança não tem nenhuma importância.

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