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    Família Submersa: Maria Alché comenta o trabalho com Mercedes Morán e a imagem do luto sem clichês (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo, com a colaboração de Maria Clara Guedes — 5 de abr. de 2019 às 09:15
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    Um belo drama sobre o caos após uma morte inesperada.

    Acaba de chegar aos cinemas brasileiros um filme bastante especial: Família Submersa, coprodução entre Argentina, Brasil, Alemanha e Noruega. No centro da trama está Marcela (Mercedes Morán, de Um Amor Inesperado), uma mulher traumatizada pela morte súbita de sua irmã. 

    Mas a vida não para: Marcela precisa cuidar dos pertences da falecida, da crise amorosa da filha, que está terminando um namoro, da rebeldia do filho adolescente, das viagens a trabalho do marido e mesmo da máquina de lavar que não funciona. Enquanto as pessoas entram e saem de casa, Marcela planeja uma fuga para colocar as ideias em ordem.

    O resultado é um belíssimo drama, muito bem construído a partir de uma atuação notável de Mercedes Morán. A cineasta Maria Alché ainda é mais conhecida como a atriz principal de A Menina Santa, de Lucrecia Martel, mas sua estreia no comando de longas-metragens revela uma diretora de grande potencial.

    O AdoroCinema conversou com Alché sobre a experiência:


    Divulgação

    O filme mostra um lado barulhento, caótico do luto, ao invés do silêncio tradicional.

    Maria Alché: Justamente. Quando eu pensei em fazer o filme, tinha vontade de contar a ideia do luto, mas não dessa forma clichê que costumamos ver, de necessariamente ficar ansioso, chorar, gritar, se sentir vazio. Eu queria expressar o contrário, queria a sensação de que o luto implica uma série de emoções simultâneas, e nem todas dizem respeito à tristeza. Algumas emoções são de euforia, de loucura, de desejo de viver.

    Eu percebi que nunca tinha visto um relato do luto sendo contado de uma forma menos ordenada, fora do estilo “senta e chora”. Na verdade, a vida te empurra, te força a confrontar todos esses estímulos ao mesmo tempo. Então eu queria tratar dessa outra visão.

    Ao invés de fazer Marcela sair para as ruas, o roteiro traz o mundo inteiro para dentro de casa.

    Maria Alché: Para mim a casa pode ser qualquer espaço. Pode ser o espaço da fotografia que ela está olhando, das coisas que ela lembra, a representação da família, um conjunto de objetos. Em outras palavras, esta é uma geografia dos sonhos. Muitas vezes sonho que estou em uma casa, abro a porta e vejo um bosque... Não sei, para mim a casa é mais como uma representação dos sonhos, um espaço íntimo no qual ela poderia explorar seus sentimentos.

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    De que maneira você preparou Mercedes Morán? 

    Maria Alché: Foram muitos meses de preparação antes de começarmos as gravações. Nós conversamos muitos sobre como era essa personagem, como estava sua cabeça, como se sentia, como a todo tempo era interrompida por sua família, que não a permite efetuar sozinha este processo pessoal de luto e desapego. Ela precisa estar pronta para acumular esses processos distintos: o luto dela em paralelos com os estímulos lançados por outros personagens. Desta maneira, a personagem pôde se tornar presente, realista, mais ligada ao corpo. É deste modo que gosto de trabalhar. 

    Como vê as comparações de seu trabalho com o estilo de Lucrecia Martel?

    Maria Alché: Percebo mais as diferenças. Com certeza há algumas semelhanças, e é muito fácil para qualquer um fazer essas associações, mas gosto quando alguém vê algo distinto porque para mim é interessante oferecer algo novo, algo que ninguém teria pensado ainda. Se está pensando exatamente como outra pessoa, então não existe uma marca de subjetividade.

    Ao mesmo tempo, é óbvio que se trata de linguagens familiares, com uma raiz em comum. Lucrecia também é muito importante para a América Latina e mundialmente. É lógico que gosto muito da visão dela, já trabalhei com Lucrecia em outras oportunidades, e conversei com ela enquanto escrevia o roteiro.

    Acredita que a família do filme seja universal, ou tipicamente argentina?

    Maria Alché: Creio que seja uma família como todas as outras, ainda que tenha as suas características particulares. Acredito que existam muitas famílias como esta representada no filme. Afinal, eu não estava me focando numa característica particular: não é apenas uma família católica, uma família cristã. Eu queria fazer um filme que pudesse produzir uma identificação mais ampla. 

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    Em que medida se deu a coprodução entre quatro países, incluindo o Brasil?

    Maria Alché: Quando apresentei o projeto à Tatiana Leite ela se empolgou logo de cara. Fechamos a parceria e ganhamos um convênio de coprodução da ANCINE com o INCAA. Temos muitos membros brasileiros na equipe, muito intercâmbio com o Brasil. Isso aconteceu de uma maneira muito frutífera porque Tati é uma produtora fora do normal. Ela esteve muito envolvida com o filme, trabalhou noites a fio no projeto.

    Outra pessoa muito importante para o filme foi a Lívia Serpa, nossa montadora brasileira. Ela abraçou o projeto com paixão. Para mim foi uma surpresa porque tinha preconceitos em finalizar o filme com alguém que não fala o mesmo idioma, que não entende tanto a cultura. Mas a nossa parceria significou um intercâmbio. Não foi uma coprodução apenas pelo dinheiro, e sim artisticamente, o que é lindo. Gostaria que tivessem mais coproduções entre os países da América Latina, que nós trocássemos mais no continente. 

    Que aprendizados você vai levar desse primeiro filme para os próximos projetos?

    Maria Alché: Eu fiquei muito contente com a pré-produção, a preparação do filme, a escolha da equipe. Trabalhamos arduamente, eu sei que gostaria de continuar dedicando bastante tempo a esta parte, que é essencial para a configuração das filmagens. Mas me parece que a distribuição no Chile e na Argentina é muito falha. Sobre o filme, seria bom pensar também nessa parte de distribuição antes de produzir, porque depois de tantos anos, tamanho esforço às vezes não porta frutos. É difícil conseguir exibições no Chile sem dinheiro.

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