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Admirável Mundo Pop: Os filmes sobre brinquedos não são brincadeira
Por Pablo Miyazawa — 09/02/2019 às 20:00
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Já faz anos que Hollywood tem provado que consegue fazer filmes inspirados em qualquer coisa. Até quando o público vai aceitar?

A gente nem percebe mais o quanto o mundo dos brinquedos é uma fonte de inspiração para o cinema. 

Essa semana estreou Uma Aventura LEGO 2, mais um longa-metragem inspirado por uma das marcas de entretenimento mais populares do mundo. Trata-se do quarto produto da franquia lançado nos cinemas, além das dezenas de filmes que saíram direto em home video, séries de TV, curtas, videogames e mais. Os motivos para tanto sucesso são inexplicáveis para mim, talvez porque eu não seja o público-alvo. Entendo o carisma dos bonequinhos amarelos, mas tem algo aí que não consigo digerir (e adoro o primeiro Uma Aventura Lego, fazer o quê?).

Coincidência ou não, nessa semana também saiu o primeiro trailer de Brinquedo Assassino, o reboot do clássico do suspense oitentista sobre... um boneco com sede de matar. O teaser é ótimo, nada datado e bem alinhado com o mundo tão dependente da tecnologia em que vivemos. Jamais vemos o rosto da criatura, mas tem uma cena em que o rosto da criança é escaneada. Será que o Chucky terá a cara de seu dono? Isso sim seria um algo horripilante.

Aliás, parabéns ao gênio do marketing que decidiu que Brinquedo Assassino chegaria aos cinemas em 20 de junho, mesmíssimo dia de Toy Story 4. Sério, que bela ideia.

Brinquedo Assassino (2019) Trailer Original

Lembro de quando o primeiro Brinquedo Assassino surgiu em 1988, apenas para confirmar os nossos maiores pesadelos. Quem foi criança no Brasil naquela década conviveu com o pavor de que os que os brinquedos possuem motivações próprias quando não estamos olhando e que um dia poderiam se voltar contra nós. Essa crença era ainda mais alimentada por lendas urbanas que diziam que os bonecos da Xuxa e do Fofão eram amaldiçoados (escrevi sobre isso no meu livro 52 Mitos Pop). Felizmente, Woody, Buzz e o maravilhoso time de Toy Story apareceram anos depois para nos oferecer o lado divertido dessa ilusão.

Só que a ideia de brinquedos ganhando vida nos filmes é mais antiga do que a gente consegue se lembrar. A onda atravessou as décadas, desde os tempos do Pinoquio e do Rudolph, a Rena do Nariz Vermelho, passando por tramas singelas como Babes in ToylandPequenos Guerreiros e A Chave Mágica. Atualmente, é como se valesse qualquer coisa nesse sentido, até aberrações como o desagradável Ted, que corrompeu o ideal do bicho de pelúcia bonzinho, ou a horripilante Annabelle, cujo maior mérito foi me fazer adquirir um pavor real por bonecas de porcelana.

Mas acabei fugindo do assunto. Retornarei ao real motivo de abordar os brinquedos falantes nesta coluna: o sucesso dos filmes LEGO, que além de ser algo esquisito, para mim é também um sintoma de um problema bem complicado do cinema atual.

Primeiro, pense como hoje parece fácil criar filmes e gerar franquias literalmente sobre qualquer coisa -- nem é preciso ter uma verdadeira história por trás. O importante é que os protagonistas sejam atraentes e interessantes o bastante para gerar curiosidade e atrair o público que adora esses produtos. Quando o primeiro filme LEGO foi anunciado em 2013, a dúvida era como seria possível gerar um longa-metragem a partir de um brinquedo de personalidade genérica, ainda que tão versátil. E hoje cá estamos, vendo o quarto filme fazendo milhões nos cinemas do mundo, ainda que longe de se sair tão bem quanto o primeiro.

E olha que houve vários exemplos antes desse. Tudo começou com a fabricante de brinquedos Mattel, que em 1982 criou a linha de bonecos de um herói genérico chamado He-Man, que por sua vez deu origem a um desenho animado (e, anos mais tarde, a um filme bem divertido). O mesmo aconteceu com a Hasbro e seus G.I.Joe (aqui conhecidos como Comandos em Ação), que primeiro apareceram nos brinquedos para depois virarem HQs, animação e alguns filmes décadas depois. A mesma Hasbro explorou essa lógica com os Transformers, em um movimento esperto que rende até hoje (mesmo que não sejam frutos muito saborosos, como esses descartáveis filmes recentes).

Já faz tempo que a exploração de marcas virou uma grande fonte de ovos de ouro para Hollywood. Esse fato apenas confirma a escassez de boas tramas originais, feitas especiamente para as telonas e que não dependem de bases de fãs consagradas para ganhar investimento dos estúdios. Ninguém mais contesta o fato de a indústria cinematográfica ser completamente dependente das histórias em quadrinhos, videogames, literatura fantástica e brinquedos para fazer girar suas metas anuais de bilheteria. Hoje os estúdios têm medo de investir em mares nunca navegados. Os executivos devem imaginar que o grande público ficará mais encorajado a pagar ingresso se já souber onde estará pisando pelas duas horas seguintes (será que é assim mesmo? Tenho minhas dúvidas).

Mas nem sempre foi assim. Imagine que até o início do século XXI, praticamente tudo o que assistíamos eram histórias criadas originalmente para o cinema. Entre os filmes mais rentáveis dos anos 1980, o único filme "não original" do top 10 era o Batman de Tim Burton. Atualmente, mais da metade da lista dos 100 maiores bilheterias de todos os tempos é feita de filmes estrelados por personagens de HQs, livros e outras mídias. Se incluirmos aí os filmes de franquias que começaram no cinema e se expandiram para o mundo multimídia (como Star Wars, por exemplo) e suas tão numerosas continuações, sobram poucos títulos para formar uma lista de obras realmente inédita.

Diante de tudo isso, é mesmo de se admirar a capacidade dos roteiristas e produtores (e dos diretores, atores e atrizes) em transformar ideias medíocres em blockbusters que atraem milhões de pessoas às salas escuras. Basta lembrar que o obscuro videogame Rampage, sobre monstros que destroem prédios, virou um filme esquecível com o The Rock; que o clássico jogo Batalha Naval virou um filme de ação com a Rihanna e o Liam Neeson; que algo absurdo como Emoji: O Filme já existiu; e que em breve teremos um filme chamado Monopoly, inspirado no jogo de tabuleiro Banco Imobiliário e estrelado por Kevin Hart.

O que isso tudo significa? Que deveríamos ir ao cinema para apreciar mais histórias originais e gastar menos ingressos com filmes de grandes marcas e bobagens descartáveis? Bom, talvez não dê para ser tão radical -- os filmes de super-heróis estão aí para nos mostrar que existe muita qualidade nas grandes franquias. Mas também precisamos nos esforçar para enxergar um pouco além do que os olhos estão acostumados. Pode ser que apareçam boas surpresas no horizonte.

E só para lembrar, em caso você não saiba... um filme sobre os Playmobil vem aí. 


Pablo Miyazawa é colunista do AdoroCinema e consome cultura pop desde que nasceu, há 40 anos, de Star Wars a Atari, de Turma da Mônica a Twin Peaks, de Batman a Pato Donald. Como jornalista, editou produtos de entretenimento como Rolling Stone, IGN Brasil, Herói, EGM e Nintendo World.

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