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    Festival do Rio 2018: "A Terra Negra dos Kawa é uma ficção científica indígena", afirma diretor Sergio Andrade
    Por Renato Furtado — 5 de nov. de 2018 às 11:50
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    Singular ficção trouxe elementos mágicos, alucinógenos e outras dimensões para a mostra da Cidade Maravilhosa.

    O que o THX 1138 de George Lucas, Alien, o Oitavo PassageiroStalker2001 - Uma Odisseia no Espaço têm em comum para além do fato de compartilharem um gênero cinematográfico? Todas essas ficções científicas serviram como inspiração para um peculiar projeto: A Terra Negra dos Kawa, sci-fi indígena de Sergio Andrade (Antes o Tempo Não Acabava) que intrigou e divertiu o público carioca em iguais medidas durante sua segunda exibição no Festival do Rio 2018, na tarde de ontem, dia 4.

    Surpreendemente, como aponta a crítica do AdoroCinema, a terra no centro da trama é extremamente literal: não é um território, mas sim o solo dos Kawa, um povo indígena fictício derivado dos Tucano, que protagoniza esta produção. E por um motivo muito simples: a terra negra em questão tem propriedades "eletromagnéticas, minerais, alucinógenas, afrodisíacas e sobrenaturais". Sim, se você está pensando que A Terra Negra dos Kawa é diferente de tudo que já viu, provavelmente está certo.

    Rodado em Manaus e nas periferias da capital amazonense — portanto fora do eixo Sudeste-Nordeste que tradicionalmente domina a cinematografia brasileira —, esta rara produção parte de um mistério para oferecer uma releitura da mais importante tensão que marca a relação entre os povos nativos e os "homens brancos": a questão do território. Entre dois ambientes muito bem delimitados, A Terra Negra dos Kawa explora uma problemática social pelo viés do entretenimento e de um gênero incomum no cinema nacional.

    Descrito como um filme heróico e de sobrevivência por Andrade por causa da dificuldade de produção encontrada às margens do establishment cultural do Rio de Janeiro e de São Paulo, o longa-metragem traz atores conhecidos — casos de Mariana LimaFelipe RochaMarat Descartes — ao lado de uma verdadeira família indígena. É assim que o terceiro filme do cineasta encontra um confortável espaço de ficção espontânea e natural, apesar de nunca objetivar o documental.

    É importante ressaltar esta característica para opor e realçar as afinidades entre A Terra Negra dos Kawa e Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, por exemplo, exibido minutos antes da obra de Andrade. Acompanhar os dois filmes, apesar de suas narrativas completamente distintas e de seus registros muito diferentes, em sequência é uma oportunidade para testemunhar como o cinema nacional, a despeito de todas as dificuldades, tem se preocupado com o protagonismo indígena nos anos recentes.

    Fundação da identidade brasileira, os povos nativos foram ou exoticamente observados ou totalmente descartados, via de regra, pela maior parte da produção da sétima arte em nosso país. Em A Terra Negra dos Kawa, no entanto, são os índios os responsáveis por guardar um elemento sagrado — a terra, em toda sua literalidade — que pode não só fazer delirar, como também pode ser a chave para unir todos os Brasis que compõem esta nação continental, dos brancos aos refugiados do Haiti.

    Com um misto de fantasia e ficção científica, este "filme vem na contramão do atual momento cultural e político de uma maneira afetiva", como o diretor fez questão de ressaltar no debate ocorrido após a sessão do longa, que disputa o Troféu Redentor do Festival do Rio. É, de fato, um longa mais de união do que de confrontamento, uma obra que busca evidenciar a importância das tradições, da cultura, do passado, da memória, da ancestralidade e também do futuro.

    A Terra Negra dos Kawa ainda não tem previsão de estreia.

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