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    Festival do Rio 2018: A luta pelo protagonismo indígena é o destaque de Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos
    Por Renato Furtado — 5 de nov. de 2018 às 11:05
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    Longa de João Salaviza e Renée Nader, premiado em Cannes, disputa o Troféu Redentor nesta edição da mostra carioca.

    Se há uma etnia em situação de risco e de extrema falta de compreensão no Brasil, esta é a dos indígenas, espalhados pelos quatro cantos de nosso continental país em diversas tribos que resistem à violenta marcha do progresso. Mas apesar da continuidade dos sangrentos conflitos de terra entre latifundiários e nativos brasileiros e dos preconceitos, a sétima arte nacional vem descobrindo uma outra forma de analisar os povos que estão na base da formação de nossa identidade: a da observação empática e afetiva, o norte prinicipal da docuficção Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos.

    Codirigido por Renée Nader Messora e João Salaviza, o longa conquistou os jurados da mostra Um Certo Olhar na mais recente edição do Festival de Cannes e deixou a Croisette com o prêmio especial do júri, concedido pelo presidente Benicio del Toro e seus colegas. Agora, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos desembarca no Brasil, mais precisamente na Cidade Maravilhosa, onde já fez sua estreia em território nacional em meio ao Festival do Rio; bem recebido pelo público, presente no icônico Odeon, na tarde de ontem, dia 4, o longa colocou em pauta a luta pelo protagonismo indígena.

    Este híbrido de documentário e ficção, como contaram Salaviza e Nader aos espectadores após a exibição do longa, partiu de um projeto cinematográfico organizado pelos dois dentro da Aldeia Pedra Branca, localizada no município de Itacajá, Tocantins. Lá, os diretores, que frequentam o agrupamento desde 2010, conheceram o protagonista de Chuva é Cantoria na Aldeia dos MortosIhjãc Krahô — ou Henrique, como é chamado dentro do ultrapassado conceito de "nome de branco —, cuja vida tornou-se obra da ficção e matéria do cinema.

    No início, o bem-humorado, apesar de tímido, Ihjãc não gostou muito da proposta da dupla de cineastas: sentiu medo ao pensar em encenar questões como a relação dos krahô com a morte e a com a espiritualidade. Mas o nativo de Pedra Branca, que dirigiu-se ao público carioca em sua língua originária, venceu seus temores quando enxergou no projeto uma oportunidade única: a de retratar, verdadeiramente, os costumes, tradições e o modo de vida do povo krahô, que se espalha pelo norte e nordeste brasileiros, entre os estados do Tocantins, do Piauí e do Maranhão.

    Partindo de uma história real de um outro rapaz da aldeia, testemunhada por Salaviza e Nader durante sua estadia no local, em 2013, os realizadores e roteiristas desenvolveram a narrativa de Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos ao lado de Ihjãc. Nasceu, assim, o script do filme, que reconta a trajetória de um jovem, recém-órfão de pai, que acredita estar sob o efeito de um feitiço maligno. Para não sofrer as consequências da maldição, decide deixar a aldeia para viver um tempo na cidade e nos meios urbanos para "ser esquecido" pelos maus agouros.

    Mas os diretores fizeram questão de deixar claro que a escrita lhes permitiu criar apenas um início e um final: eles tinham em mente o que queriam dizer e como desejavam retratar o povo krahô — longe da dureza do olhar etnográfico ou do incômodo exotismo da perspectiva turística, comuns em produções sobre populações nativas —, mas foi o convívio e as vivências que deram forma ao roteiro em si. É por isso que o próprio Salaviza define seu longa como um "monstro", nascido entre as fronteiras da realidade e daquilo que é ficcional.

    Durante nove meses, os diretores se adequaram ao tempo da Aldeia Pedra Branca. Se fosse preciso esperar três horas pelo surgimento do sol para rodar uma sequência específica, esperariam; foi assim que o ritual do cinema encontrou-se com o ritual dos krahô, nas palavras do realizador, adequando a ficção ao cotidiano da aldeia. Esse encontro produziu algo ainda mais interessante: foi só quando traduziram as falas de seus personagens para o português que Salaviza e Nader perceberam as riquezas e os múltiplos sentidos dos diálogos improvisados pelos krahô — todos profundamente trabalhados por Ihjãc.

    É a palavra, aliás, como destacou Aline Rochedo Pachamama, escritora e historiadora indígena que mediou o debate entre a equipe e os cinéfilos cariocas, o principal instrumento dos povos nativos para a manutenção de sua cultura. Em um embate constante com a modernização imposta pelos "homens brancos" e o imperialismo dos costumes ocidentais, os indígenas brasileiros deparam-se com dicotomias de identidade a todo instante. Na fronteira entre a tradição e o futuro e o que é ser nativo e ser brasileiro, as etnias indígenas travam uma luta para manter viva sua memória e seus rituais — vale lembrar que a equipe do longa fez um protesto no tapete vermelho de Cannes pela demarcação das terras indígenas.

    Protesto em Cannes.

    "Somos vistos como fósseis, como imagens do século XVI. Nós queremos desconstruir isso", disse Rochedo, uma sentença afirmativa que define bem a essência de Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos. Não há nada de hermético ou exótico nos krahô: são "um grupo social dotado de especificidades, que precisa ser representado artística e politicamente como qualquer outro", como marca a crítica 4 estrelas do AdoroCinema, e que, de quebra, ainda podem ter muito a nos ensinar em termos de civilização e de organização social.

    "Temos milênios de atraso civilizacional em relação aos krahô", declarou Salaviza sobre a riqueza da estruturação política da sociedade em questão, um sistema verdadeiramente ecológico avant la lettre e anticapitalista. Na Aldeia Pedra Branca, não existe acumulação de riqueza ou de poder, contou o diretor, que ainda definiu o modo de vida krahô como uma utopia possível e exemplar para as lutas sociais contemporâneas.

    Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos ainda não tem previsão de estreia.

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