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    O suspense Em Pedaços é "feito para perturbar", confessa o diretor Fatih Akin (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo, com a colaboração de Louise Franca — 15 de mar. de 2018 às 10:00
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    Existe limite na busca pela justiça?

    Magnolia Pictures

    Um dos filmes mais controversos do último festival de Cannes, Em Pedaços chega aos cinemas brasileiros dia 15 de março. A história gira em torno de Katja (Diane Kruger), alemã cujo marido e filho são mortos num atentado promovido pela extrema-direita. Embora os principais suspeitos sejam detidos rapidamente, não é nada fácil colocá-los na prisão.

    O suspense chocou muitas pessoas pelo retrato da justiça com as próprias mãos, levantando uma pergunta importante: a violência justifica a violência? Katja tem o direito de se voltar contra os agressores, se considera que as leis não funcionam?

    O AdoroCinema conversou com o diretor Fatih Akin (Contra a Parede, Do Outro Lado) sobre a origem do projeto, o trabalho com Diane Kruger e mesmo as acusações de que o filme defenderia a violência: 

    Que tipo de pesquisa você fez para construir o roteiro?

    Fatih Akin: A maior parte da pesquisa que fiz foi baseada em um caso real na Alemanha, chamado de escândalo NSU, por Clandestinidade Nacional-Socialista. É um caso de três assassinos que mataram 10 pessoas entre 2000 e 2007. A maior parte deles eram imigrantes, acho que nove imigrantes e um policial alemão. Os três assassinos eram neonazistas, e no caso, eram dois homens e uma mulher. Muito do material do filme é baseado nesse caso em particular. O julgamento ainda está acontecendo: o último assassino foi pego em 2011, mas desde 2012, o julgamento ocorre, e ainda não acabou. Minha pesquisa foi baseada na leitura de todos os arquivos deste caso real.

    Você também pediu a Diane Kruger para ler os processos?

    Fatik Akin: Eu tinha uma visão clara sobre Katja. Conheço muitas Katjas na minha vida pessoal. Talvez minha esposa não seja 100% Katja, mas possui elementos dela, e também as amigas dela e outras mulheres do local onde moro. Eu as observei, analisei, fiz anotações sobre elas. Quando a Diane chegou, eu mostrei algumas dessas pessoas que eu conheço, e ela se adaptou muito bem. Ela fez o dever de casa, encontrando familiares de vítimas de ataques terroristas ou de assassinatos, além de ir a grupos de apoio nos Estados Unidos. Ela realmente pesquisou bastante.

    Parte do incômodo de Em Pedaços vem das imagens bastante realistas. 

    Fatih Akin: Eu não estava interessado em fazer um flme no estilo Dogma, como se fazia 15 anos atrás. Sempre pensei nesse projeto como um suspense, mas era importante eu poder acreditar no que estava vendo, acreditar no meu próprio material. Se eu acreditasse, o público também iria acreditar, sabe? A ideia foi ser o mais preciso possível com a maquiagem, o figurino, a iluminação.

    A luz foi criada com uma ideia de precisão, isso era o mais importante para nós. Mas a forma com que usei a câmera remete a alguns cineastas cujo estilo eu gosto bastante. A imagem está sempre acima da cabeça, quando filmo um close up, não no mesmo campo de visão dos olhos. Depois, no tribunal, estamos no nível dos olhos. Mas antes disso, na primeira parte, a câmera, para o close da Diane, vem de cima. É uma questão de estilo.

    O filme aborda de modo cruel as falhas do nosso sistema de justiça. Você é pessimista em relação ao modo como a Europa tem lutado contra neonazistas?

    Fatih Akin: Não sou necessariamente pessimista. Acredito que essas forças na Hungria, na Turquia, nos Estados Unidos, em quase toda a França e na Polônia se fortaleceram por causa das ferramentas da democracia. As pessoas que comandaram esses sistemas foram eleitas democraticamente, revelando abertamente as suas posições. Não sou contra a democracia, mas percebo que a democracia é algo que precisamos defender nas ruas, não só no dia da eleição. A democracia não chega com a correspondência, não cresce nas árvores. Espero que as pessoas lutem, não se tornem preguiçosas.

    Olhe para o mundo: todo mundo está assistindo séries de TV, Game of Thrones, o que seja. Consomem, consomem, consomem, mas há uma falta de luta ou defesa pela democracia. Então, outras pessoas mais ambiciosas ou mais agressivas a tomam de volta. É preciso defender a democracia de modo agressivo.

    Você acredita que as séries e filmes de entretenimento ameaçam nosso senso crítico?

    Fatih Akin: Eu gosto de arte, de literatura, música, filmes, peças de teatro e pinturas. Sempre achei que a arte deve refletir a sociedade e mostrar os limites dela. Esta é uma razão pela qual meu filme foi atacado, por mostrar as fronteiras da sociedade, até onde você pode ir, o ponto em que acaba o politicamente correto.

    Não há problema em levantar essas questões em um contexto de entretenimento. Quando eu lembro os filmes que moldaram a pessoa que sou hoje, certamente foram filmes desse tipo, como foi definitivamente os filmes do Costa-Gavras. Penso em Desaparecido (1982), Z (1969), Muito Mais que um Crime (1989). São filmes muito importantes para um adolescente. Quando eu tinha 15 anos, vi Mississipi em Chamas (1988), de Alan Parker, ciente do racismo que existia.

    Nós temos documentários hoje em dia e temos filmes que entretêm o público, mas que também o fazem pensar. Acho isso importante. Mas se é apenas entretenimento de consumo, do tipo que oferece unicamente coisas idiotas, aí sim temos um problema.

    Desde o festival de Cannes, Em Pedaços gerou boas discussões. Parte dos críticos elogiou o discurso político, mas outros falaram numa possível defesa da violência.

    Fatih Akin: Isso não é correto. Quando você tem um filme coreano sobre vingança ou um filme do Tarantino sobre vingança, ninguém diz essas coisas, porque há um acordo entre o público e o cineasta de que "isso não pode ser levado a sério". No meu cinema, o acordo com o público sugere que "você pode acreditar no que está vendo agora", para perturbá-lo ainda mais.

    Eu tenho um final que é muito perturbador, sei disso. Em 20 anos de carreira, nunca tive um filme que, quando chega o fim, a maior parte do público espera sentada até o último crédito do filme. Isso acontece por causa do grande impacto da conclusão, que faz as pessoas pensarem. Algumas pessoas dizem que a ação do protagonista reflete a postura do cineasta. Isso é uma merda, uma mentira, é infantil. As pessoas mentem para tornar a interpretação mais fácil.

    Não estou dizendo que o filme não é perturbador: ele é perturbador, e deve perturbar. Deve ser um filme que você não esqueça, que continue discutindo quando chegar em casa. Ele mostra a escolha do herói, mas precisamos ser capazes de nos separar do herói. Uma das sessões tinha principalmente mulheres letradas, educadas, instruídas, contra a pena de morte e tal. Elas assistiram ao filme e isso criou uma grande catarse. Elas ficaram bem com as decisões da heroína. É sobre isso que deveriam escrever.

    As pessoas são incríveis, sabe? Os críticos fazem algumas coisas com preguiça, e eu até entendo porque cada vez mais filmes estão sendo lançados. Na época boa, tínhamos 20 filmes por semana para escrever a respeito. Hoje, você tem que escrever sobre 200 filmes por semana. Então escrevem de forma fácil, usam atalhos para não terem que pensar muito. Mas este filme quer justamente que você pense.

    Desde que apresentou o filme em Cannes, você percebeu diferentes reações do público, dependendo das origens ou sexo? 

    Fatih Akin: Bem, o meu público principal é na Alemanha. Sou um cineasta alemão, então quando escrevo ou faço algo, o primeiro público no qual penso é o meu mercado daqui. Mas fiquei um pouco surpreso com as reações semelhantes ao redor do mundo. Nos Estados Unidos e na Alemanha, foram muito parecidas, pelo que eu ouvi.

    Sei que os ingleses tiveram problemas com o filme, talvez porque três dias antes da exibição em Cannes, aconteceu o atentado em Manchester. Os jornais perguntavam por que os terroristas no meu filme não eram muçulmanos. Com licença, mas, primeiramente, isso é ridículo e, segundo, isso é racismo. Foi muito interessante ver essas reações, descobrir o quão racistas algumas sociedades liberais podem ser.

    E não estou me referindo ao racismo de jornais reacionários, falo do racismo de pessoas letradas, educadas, porque elas também são racistas. Elas têm uma imagem formada e querem que você mantenha essa imagem. Se você propuser algo diferente, vai encontrar resistência. Para mim, isso é racismo. Foi interessante ver como meus filmes comprovam o racismo no mundo liberal, em todo o mundo.

     

     

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    Comentários
    • Alan Bitencourt
      Gostei da temática, quero assisti esse filme.
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