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    Judas e o Messias Negro
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Judas e o Messias Negro

    Para além do mártir e do vilão

    por Barbara Demerov
    Fred Hampton foi um ativista norte-americano taxado como uma grande ameaça pelo governo e o FBI. Presidente do Partido dos Panteras Negras, dono de uma oratória marcante e de presença forte, o jovem foi o responsável por se esforçar - ao lado de Bobby Seale e Huey P. Newton - pelo coletivo na sociedade e pelos direitos dos negros nos EUA, especificamente em Chicago. Sua luta começou cedo e a ascensão foi tão ágil que logo Hampton se tornou alvo da polícia ao lado de Martin Luther King. Não demorou muito para que seu radicalismo em forma de protestar pelas injustiças e alimentar crianças da comunidade fosse interrompido com uma morte drástica: Hampton foi assassinado pelo governo em 1969, enquanto dormia em sua própria casa.

    A história de Hampton pode ser resumida neste parágrafo para muitos que não o conhecem, mas a intenção do filme Judas e o Messias Negro, de Shaka King, é a de justamente dar mais atenção aos detalhes e aos eventos que levaram o jovem de 21 anos a enfrentar um fim inesperado. Com o foco no lado pessoal de Fred Hampton e nos desdobramentos que envolveram a traição de William O'Neal, infiltrado do FBI, o filme prioriza uma abordagem humanizada não só do protagonista como também dos Panteras Negras e do FBI. Na obra, Daniel Kaluuya (Corra!) e Lakeith Stanfield (Atlanta) interpretam estes dois personagens de forma envolvente, trazendo mais brilho e profundidade a uma narrativa que segue os caminhos tradicionais de uma cinebiografia.



    Por mais protocolar que seja o estilo de King ao narrar esta história real, Judas e o Messias Negro conta com uma direção segura, que destaca o talento do elenco, e um roteiro que flui a partir da ação dos Panteras Negras e a reação do FBI. Isso faz com o que filme ganhe os contornos da perseguição violenta e silenciosa que permeou por um tempo até culminar no assassinato de Hampton. Aliado à caçada entre "gato e rato" que se sucede, o filme consegue, também, humanizar a figura de O'Neal, delator do FBI que teve participação na noite em que Hampton perdeu sua vida. Ao abrir e fechar a obra com o personagem (com atuação impressionante de Stanfield), o diretor entrega um contraponto à narrativa principal: O'Neal também foi vítima do sistema policial norte-americano, por mais que tenha tido grande responsabilidade no caso.

    As poderosas atuações de Kaluuya e Stanfield trazem emoção, surpresas e uma dinâmica extremamente agridoce

    Ao mesmo tempo em que existe o desenvolvimento de duas figuras complementares, que se encontram no mesmo espaço mas possuem ideais diferentes, a obra também dá espaço para que personagens secundários (e de grande importância na vida de Hampton) sejam abordados. É o caso de Deborah Johnson (Dominique Fishback), noiva do protagonista que, inclusive, presenciou o assassinato de Fred. O olhar de King para com essas figuras reais transforma o filme em mais do que uma obra de cunho político/social, pois prioriza as emoções daqueles que podem ter sido taxados de extremistas ou violentos pelo público distante ao longo das últimas décadas.

    Essa é a maior virtude da narrativa de Judas e o Messias Negro, pois King é capaz de dinamizar tão bem o cenário de luta diária dos Panteras com as pessoas por trás dos uniformes que, no fim das contas, o resultado consegue ser bastante comovente. Aliás, a combinação de sua direção com a fotografia com cores frias, de tons escuros, faz com que a sensação de claustrofobia de O'Neall e o receio de Hampton sempre estejam presentes de uma forma ou de outra.



    Já o que há de protocolar no filme se deve pela escolha do diretor em seguir com fidelidade a ordem dos fatos, enquanto trata os agentes do FBI claramente com mais frieza (com destaque ao J. Edgar de Martin Sheen), tornando-os unilaterais e afastados de um desenvolvimento complexo. Suas intenções são obscuras e, por isso, todos são expostos dentro da limitação de suas sombras (visualmente falando também). Quando colocados ao lado de Fred e William, o agente interpretado por Jesse Plemmons, por exemplo, torna-se um mero protótipo de um agente comum do FBI.

    Por outro lado, Kaluuya e Stanfield sempre mantém a história nos trilhos, trazendo emoção, surpresas e uma dinâmica extremamente agridoce. Afinal, o desfecho daquela breve amizade já é sabido por todos. Mesmo assim, a imersão que ambos proporcionam em seus personagens (especialmente Kaluuya em seus poderosos momentos de discursos) faz com que, por um breve momento dentro da ficção, o espectador passe a torcer para que o final seja diferente.

    Mesclando a proximidade da ficção dentro de uma história verídica, Shaka King flerta com as possibilidades que distanciam O'Neal de sua missão (amplificadas pela atuação observadora e relutante do ator de Atlanta), mesmo deixando claro em sua conclusão de que nunca houve escapatória. Como dito no início, as vítimas estão por todos os lados em Judas e o Messias Negro - menos nas figuras do governo, que mais se assemelham à silhuetas que observam, com satisfação, a manipulação realizada.
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