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    Aos Teus Olhos
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    Aos Teus Olhos

    Tempos modernos

    por Francisco Russo
    Dia após dia, milhões de pessoas mundo afora acessam as redes sociais para se comunicar. Se por um lado a internet revolucionou o meio de se relacionar com o outro - o próprio AdoroCinema é fruto desta transformação -, por outro revelou também um rancor intrínseco que muitas vezes promove pré-julgamentos no tribunal do Facebook e pulveriza amizades longevas em instantes. Culpa da plataforma ou de quem a acessa? Não é bem esta a questão a ser levantada no novo trabalho da diretora Carolina Jabor (Boa Sorte), que se apropria da realidade nossa de cada dia para analisar uma situação verídica e séria: o linchamento virtual.

    Aos Teus Olhos - FotoBaseado na peça teatral espanhola "O Princípio de Arquimedes", Aos Teus Olhos acompanha o drama enfrentado ao longo de um único dia por Rubens, um professor de natação querido e extrovertido que dá aulas a pré-adolescentes. Um dia, um de seus alunos alega para a mãe que o professor o beijou na boca. Tem início um verdadeiro turbilhão, onde a acusação de pedofilia rapidamente ganha proporções cada vez maiores através da internet. Mas, no fim das contas, quem está falando a verdade, a criança ou o professor? Em quem acreditar?

    O conceito de uma mentira dita por uma criança estraçalhando a vida de um adulto inocente já foi (muito) bem executado em A Caça, filmaço dinamarquês dirigido por Thomas Vinterberg que foi indicado ao Oscar. Por mais que haja ecos do longa-metragem, a proposta de Aos Teus Olhos é diferente: o espectador não sabe quem está falando a verdade. Há a palavra de um contra o outro e indícios que apontam para cada lado, mas apenas isto. Diante de tamanha dúvida, Carolina optou por dar maior vazão às consequências de uma acusação sem provas, de forma a ressaltar o quanto ela pode se tornar sem controle, para todos os envolvidos. Num estalar de dedos, com a agilidade típica da internet.

    Por mais que seja um tema atualíssimo e cotidiano, Aos Teus Olhos peca por ser extremamente raso. A intencional ausência de maiores informações acerca dos personagens centrais, de forma a replicar na tela o que acontece nas redes sociais, faz com que o filme em si tenha pouquíssimo material a ser trabalhado ao longo de 90 minutos de duração, se atendo a girar em círculos a partir de dinâmicas envolvendo o choque da acusação e suas consequências imediatas. Soma-se a isto a insistência da diretora em apostar em sequências cansativas que mostram o que é escrito nas redes sociais, de forma que o espectador tenha tempo mais do que suficiente para ler cada comentário publicado, e também nas cenas ora retratadas a partir de um espelho ora através da água turva da piscina, sempre para ressaltar que há uma dualidade ali existente. Até mesmo os diálogos foram moldados com este objetivo em mente, mesmo que isto cobre o preço da naturalidade - é o caso do estranho "o que eu significo para você?", logo no início do filme.

    Aos Teus Olhos - FotoAlém disto, vários dos personagens coadjuvantes são bastante estereotipados e/ou exagerados. É o caso do professor unidimensional de Gustavo Falcão, da irritante namorada vivida por Luisa Arraes e também do pai da criança, interpretado por Marco Ricca. Neste caso, pelos excessos na vilanização do personagem, desconsiderando que o fato em si - seu filho teria sofrido assédio por um adulto - já é mais do que suficiente para contrapô-lo a Rubens.

    Diante de tantos problemas conceituais e narrativos, quem segura o filme é Daniel de Oliveira. Curiosamente, sua presença carismática de início logo remete a outro personagem recente no cinema, o Zolah de Sangue Azul, pela sexualidade latente que o transforma em um devorador em potencial - o que é bem explorado na futura construção da dúvida acerca do personagem, diga-se de passagem. Malu Galli também merece destaque, em uma personagem atônita não só pela acusação mas também pela velocidade dos fatos.

    Por mais que traga um tema importante, Aos Teus Olhos peca pela ausência de análise em torno da acusação sem provas e a velocidade de suas consequências. No fim das contas, o filme é um mero retrato do cotidiano com um certo cuidado em deixar sempre a dúvida no ar, como proposta narrativa. Se até funciona como provocação, falta muito para discorrer sobre a questão com um mínimo de profundidade.

    Filme visto no 19º Festival do Rio, em outubro de 2017.
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    Comentários

    • Jacques Campos Fernandes
      O filme é interessante e te prende no drama vivido pelo personagem principal mas, de repente.... ACABOU!!! O filme simplesmente não tem um final! Mas sim um corte! Pena....
    • ies01ies
      O filme não é nenhuma obra prima, o roteiro é fluido e pouco consistente; a direção tem alguns problemas. Mas é bastante interessante. Merece ser visto e discutido. Lembrando que o que está sendo discutido no filme não é a culpa ou não do professor Rubens (em mais um excelente trabalho do ator Daniel de Oliveira), mas o modo como usamos as redes sociais para dar vazão às nossas interrogações e suspeitas, sem pensar nas consequências que uma acusação ou apenas uma inferência pode trazer para a vida de muitas pessoas.
    • Glória Gomes
      A dúvida é angustiante. Como mãe, entendo o comportamento dos pais. Mas eu jamais seria irresponsável de divulgar possível caso de pedofilia, sem provas concretas. A diretora foi omissa, inclusive antes do escândalo. Afinal, são crianças que frequentam o local. O que me incomodou muito foi a displicência inicial do acusado, diante de fato tão grave. Creio que profissionais sérios e qualquer pessoa inocente se defenderia com unhas e dentes.
    • Victor Hugo
      Não foi ele, nos primeiros minutos do filme, quando o pai está levando o filho pra escola percebe-se na expressão do garoto e mexendo os dedos que ele está nervoso com algo. O Rubens não estava chorando, estava apenas aplicando colírio nos olhos. No minuto 1:05:00 do filme, durante a condução dele para a delegacia, repare que o aluno Alex (não o filho do casal, o aluno mais velho) diz eu falei pra eles não fazerem e já corta para o professor indo para a viatura. Deixando assim um indício que tudo não passou de uma armação de alunos do colégio que colocaram a sunga do menino dentro do armário dele. Ou seja, botando mais lenha da fogueira. Repare também que é afirmado que o Alex (agora sim, o filho do casal) é muito próximo ao professor Rubens e a pressão do pai em querer que ele tivesse ganhado pode ter induzido o menino a mentir. Não vamos esquecer que durante nossa infância é a fase que mentimos para esconder nossos medos. O fato dele não ter morrido ou ter sido preso, como achei que aconteceria, já abre outra dúvida sobre o suposto crime. A própria diretora do filme fala em entrevista hoje em dia, nas redes sociais, o acusado é condenado antes de ser julgado. A mensagem que essa obra quer passar é justamente essa e a sinopse do filme já demonstra qual a real intenção do roteiro, isso já encerra a discussão sobre a inocência ou não dele. Apenas reflita!
    • Fillipe Morais
      Não gosto de filme sem final, até hoje não me conformo com Aquarius.
    • Fillipe
      Apesar*
    • Fillipe Morais
      Em nenhum momento me passou pela cabeça que ele era culpado, apenas do filme na parte em que ele se mostra machista querer fazer ele parecer um cretino. Devo me preocupar?
    • Lucas Rodrigues
      Na minha cidade teve um caso de uma moça 'conhecida' que foi inserida como uma cliente de um traficante que vendia drogas para as pessoas de alto poder requisitivo. Oq mais se via nos grupos era a condenação dela. Ela postou textos explicando que não estava na lista de clientes e que não usava nada. Enfim, hoje ela ainda é ligada a essa história e tem essa má fama. Se ela era cliente ou não, se ela usava algo ou não, não importa... No fim o povo já condenou e ela já foi julgada.
    • Lucas Rodrigues
      Mas é assim que as pessoas julgam no dia a dia. Por uma cena, por uma situação, por algo que contaram pra ela ou que ela ouviu. Ngm liga de onde vc veio, oq vc fez ou noq vc acredita.
    • Alécio Faria Jr.
      Lucas, como vc vai interpretar sem ter argumentos ? Sem conhecimento dos fatos. Sem histórico dos personagens. Sem saber o passado dos envolvidos na trama ? A diretora empurrou personagens estereotipados e quer vc decida se ele é culpado ou inocente. Ela poderia ter gastado + 10 minutos e apresentado algo palpável ao telespectador.
    • Lucas Rodrigues
      Um adendo, o Daniel de Oliveira fez uma interpretação SENSACIONAL. Pq ele faz a gnt acreditar nele e depois nos deixa com uma pulga atrás da orelha. Não tem como definir nada e ele conseguiu passar isso com maestria
    • Lucas Rodrigues
      Achei sensacional pq é EXATAMENTE assim que acontece. Até a conversa no WhatsApp. O final é excelente (eu até falei que se fosse eu, acabaria o filme naquela cena e foi exatamente oq aconteceu). Tem sim mt coisa rasa no filme, mas, não é assim que julgamos nas redes sociais/Internet? É tudo proposital e fica a cargo do telespectador a interpretação.
    • MATHEUS
      Esse filme é como a Ilha do Medo, o roteiro intencionalmente nos dá material que indica a ambiguidade do filme.SPOILERLogo no começo antes da batida de carro, o professor aparece chorando, indicando que ele tem algum problema que no decorrer do filme acaba não sendo explorado, deixando a certeza de algo oculto. Logo depois, na conversa de ''homem'' com o colega ele fala que algumas mães são insuportáveis. Eu logo pensei que a mãe do menino que fez a denuncia deu em cima dele e ele não quis, ela resolveu se vingar. O filme mostra ela tomando seu Rivotril nos dizendo que ela não está bem da cabeça, fora o close no rosto dela quando ela senta no notebook pra fazer a denúncia.FIM DE SPOILERNa real, a reflexão que o filme levanta torna o final irrelevante porque depois que nós assassinamos a reputação de alguém - como a mãe fez com o professor - é praticamente insignificante o desfecho ou o pedido de desculpas porque a merda já está feita, o leite derramou. Um ótimo exemplo disso, hoje, a condenação vem antes do devido processo legal, as atuações e acusações midiáticas do MPF e as condenações da Lava Jato sem provas sólidas, são bem mais fundamentadas num apoio popular do que precisamente e especificamente em provas incontestáveis e cabais. E antes que venham falar merda sobre política, não estou defendo nem o suposto pedófilo do filme nem os políticos acusados e sim, procurar fazer as coisas certas do jeito certo, porque se o alvo for nobre mas o meio é ilegitimo, a causa perde toda a dignidade.Vale tudo para se alcançar um fim?
    • Rogério Barbosa
      O mais importante do filme é deixar para vc que o assiste , o papel importante de refletir e pensar sobre as coisas que acontecem. Esse papel humano fundamental que acompanha os seres adultos e racionais, seres pensante e racionais, tirar conclusões depois das reflexões, embora cansativo, mas ser adulto e humano não é algo tão fácil.
    • Tassiana Chagas
      Dois pais idiotas que usam a criança na balança de uma separação. Dois patéticos!
    • Marcos Pedro De Barros
      No começo do fim o menino já estava atormentado. Não vi nada que a mãe queria chamar a atenção do pai.
    • Marcos Pedro De Barros
      Aos teus olhos você tem que julgar !
    • Tassiana Chagas
      Não tem desfecho. É final aberto. Não houve abuso sexual. A mãe do menino é uma histriônica que inventou a história para chamar a atenção do ex-marido ao filho.
    • Júnior Moreira
      Mas ele tem desfecho? O filme deixa claro que ele é culpado ou inocente ou deixa a dúvida no ar?
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