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Todas as Razões para Esquecer
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3,0
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Todas as Razões para Esquecer

O blues do homem contemporâneo

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Todas as Razões Para Esquecer é um filme que não poderia existir antes do século XXI. Ele pretende falar sobre fenômenos tipicamente pós-modernos, usando os recursos mais populares atualmente no cinema e na tecnologia. O diretor Pedro Coutinho aposta numa radiografia dos tempos contemporâneos, o que implica num projeto de fácil identificação, mas também necessariamente datado.

 

A comédia romântica gira em torno da figura do macho em crise. Some a ideia do homem feliz, bem-sucedido, capaz de seduzir a mulher mais cobiçada: o herói do filão indie é o jovem adulto fracassado, que não sabe flertar, tem pouco dinheiro e um emprego que não traz satisfação. O que este herói faz à perfeição é refletir sobre si mesmo, no caso, demonstrar forte senso de autopiedade, utilizando todos os amigos ao redor como interlocutores de sua prolongada crise existencial.


 

O protagonista é Antônio (Johnny Massaro). Ele ostenta uma expressão deprimida e fala gaguejante, no melhor estilo Woody Allen. Sua comunicação verborrágica e irônica sobre a vida alheia e a inadequação com a própria sexualidade remete às comédias agridoces de Judd Apatow e Noah Baumbach. Os flashbacks, nos quais relembra com afeto da ex-namorada (Bianca Comparato), têm exatamente a mesma luz lavada e lilás dos flashbacks de Ela, de Spike Jonze. A tentativa de esquecimento, até o personagem relembrar a importância das memórias tristes para efetuar o luto do namoro, remete a filmes como Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry.

 

A lista poderia continuar, com dezenas de outras referências. Todas as Razões Para Esquecer cita Facebook, Tinder, Fluoxetina, maconha, álcool e todos os outros paliativos para a solidão. Coutinho adora se apropriar deste universo, entre a paródia e a homenagem. Como nas obras citadas acima, o homem deslocado sofre críticas, mas é abraçado como tal. Ele não deixa de ser um “loser” para se inserir no topo do sistema econômico: a felicidade do século XXI surge da aceitação de sua posição marginal. O filme demonstra carinho evidente por tipos autocentrados como Antônio.


 

As ferramentas de linguagem são utilizadas de modo competente, e os atores estão empenhados em trazer o tom cool à realidade paulista. É louvável que personagens gays sejam tratados com naturalidade, e que mulheres possam ser felizes sem precisar de um par romântico. Ironicamente, o resultado é tão agradável e progressista quanto pouco memorável. Sem buscar qualquer forma de originalidade, contenta-se com a reprodução de códigos. Acaba encontrando seu papel dentro de uma cinematografia nacional que carece de projetos “do meio”, capazes de estabelecer uma ponte entre o cinema de invenção e o cinema de massa.

 

Filme visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2017.

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