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    Rasga Coração
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    Rasga Coração

    A política é feita de afeto

    por Bruno Carmelo

    Existe algo curioso na psicologia das lutas sociais: muito mais difícil do que compreender porque as pessoas se revoltam contra o sistema, é entender porque param de se revoltar. Se a história guarda as trajetórias de militantismo com orgulho ou desdém – dependendo do lado do espectro político em que você se encontre –, pouco se diz sobre o esfacelamento dos movimentos, a dissolução dos grupos e a adesão, ainda que parcial, ao sistema criticado como forma de sobrevivência. Muitos jovens devem ter estudado como começou, e como se desenvolveu, o maio de 1968 na França. Mas de que modo ele terminou? Acima de tudo, que impacto aquele instante produziu nas gerações posteriores?


    Rasga Coração busca compreender, com generosa dose de afeto, a herança da resistência contra a ditadura militar no Brasil de hoje. O símbolo principal destas gerações é Manguari Pistolão (Marco Ricca), pai de família que praticava, em sua juventude, a resistência contra os militares. “É por causa de política que ele não subiu na vida”, lembra a mãe conformista que, no entanto, ama o marido e compreende sua verve questionadora. Em seu tempo, o jovem Manguari (interpretado por João Pedro Zappa) lutava nas ruas, enfrentava a tortura dos militares, rejeitava o patriotismo belicoso. Décadas mais tarde, ele trabalha todos os dias na mesma repartição, distante de disputas políticas, até perceber o filho adolescente (Chay Suede) aderindo a novas formas de protesto.


     


    O roteiro é rico em discussões sobre as mais diversas formas e razões de lutar, entre os séculos XX e XXI. Hoje o filho é vegano, buscando um tipo de revolução do corpo que o pai não entende. Na sua época, os combates eram coletivos, nas ruas, com panfletos, ações sociais, gritos de ordem. Tempos depois, os jovens querem lutar pelo direito de homens usarem saias, mulheres disporem de seus corpos como bem entenderem. O mérito do texto é perceber que estes combates são idênticos em sua essência (por apoiarem a liberdade do indivíduo, a distribuição de renda e o combate às opressões), mas distintos em suas características culturais e formas de atuação.

     

    “Nossa dor é perceber / Que apesar de termos feito tudo o que fizemos / Ainda somos os mesmos / E vivemos como nossos pais”, cantava Elis Regina, numa canção que descreveria perfeitamente o misto de orgulho e decepção que contamina os atores contemporâneos das lutas de ontem. Ou ainda: “As coisas podem parecer novas para você, mas o mundo é cheio de velhos problemas”, como explica o pai ao filho. Esta comparação entre gerações é feita de modo clássico pela montagem, que alterna imagens do presente e do passado, comparando com humor e leveza as lutas de Manguari e aquelas do filho Luca. O mundo mudou, mudou e continuou igual. Como não perder a coragem depois de tanto tempo e tanto sangue investido na causa?

     

    É muito belo, e um tanto ingênuo, perceber o pai reganhando forças de lutar devido ao filho, mesmo que não se adeque aos novos tempos. Rasga Coração é um filme impregnado de nostalgia, uma espécie de tom crepuscular visto na câmera que passeia pela fachada dos prédios anônimos, nos preços das compras no supermercado, no cadáver abandonado ao meio-fio, que ninguém vem buscar. Furtado, que sempre soube equilibrar drama, comédia e crítica social como ninguém, retorna à melhor forma ao dirigir Marco Ricca, comovente em seus pequenos gestos e olhares no parapeito da janela, Drica Moraes, sempre tão talentosa com diálogos, capaz de passar da raiva à comédia em segundos, e Chay Suede, uma presença indispensável do novo cinema brasileiro, de estilo despojado e natural.


     


    A interação entre eles é tão realista quanto verossímil, em decorrência dos excelentes diálogos e da coreografia discreta da câmera no apartamento, invisível em sua transição de corpo a corpo, de rosto a rosto. O cineasta nunca foi vaidoso, jamais buscou grandes estripulias de câmera, e sua precisão se torna ainda mais afiada e contida neste caso. As cenas do passado, igualmente, transbordam carinho e vigor juvenil, ainda que o histrionismo de Bundinha (George Sauma), por mais divertido e bem atuado que seja, soe cansativo pela ausência de variações. Mas Zappa e os demais atores deste núcleo se saem muitíssimo bem na crônica dos prazeres e excessos da juventude.

     

    Rasga Coração se encerra com uma cena comovente, espécie de constatação que as lutas são feitas de concessões e rupturas. É preciso destruir um sistema para construir outro no lugar, diriam os revolucionários do século XX. Após tantas discussões políticas e ideológicas, o filho enfim se sente pronto para olhar o futuro e seguir em frente. Enquanto isso, o pai enfim encara os traumas do passado e relembra tanto o furor da juventude quando o cansaço que o levaram à vida de comodidades. Ninguém está certo, nem errado em seu modo de agir. Na calçada em frente ao imóvel, a mancha de sangue do cadáver abandonado relembra as marcas que não se apagam mais.

     

    Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2018.

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