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Abrindo o Armário
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3,0
Legal
Abrindo o Armário

A experiência de ser gay

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Como uma pessoa se descobre gay? E transexual? É libertador ou angustiante perceber que você é um menino gostando de meninos? De que maneira se lida com o corpo quando você admite que não se encaixa nos padrões femininos, nem masculinos? A vida é diferente para um jovem e para um adulto gays? E como seria para os idosos? Este documentário investiga a experiência, íntima e difícil de delimitar, de descoberta e exploração da própria sexualidade. Afinal, como afirma um entrevistado, os heterossexuais não precisam fazer nada quando crescem: o mundo está pronto para eles. Aos indivíduos LGBT, cabe um longo caminho de aceitação e convívio com a sua própria identidade.


Os diretores Dário MenezesLuís Abramo propõem um apanhado de relatos pessoais, que se pretendem universais ao reunirem pessoas de classe média e das periferias, brancos e negros, jovens e idosos, que vivem a sua sexualidade de modo aberto, ou que sofrem com o preconceito e a baixa autoestima. A intenção de pluralidade é louvável, e os entrevistados são pessoas bem articuladas, com depoimentos fortes. No entanto, o projeto se enfraquece ao excluir por completo as mulheres lésbicas e os homens transexuais, além de relegar a bissexualidade a uma menção passageira. A representatividade LGBT costuma ser criticada pelo monopólio dos homens gays cisgêneros, e este projeto confirma a concentração do olhar de homens cisgênero a outros homens cisgênero.




Esteticamente, Abrindo o Armário é um projeto muito bem resolvido. A montagem permite momentos de respiro entre cada depoimento, explorando de modo discreto e elegante o uso das narrações sobrepostas a locais vazios e/ou turísticos das cidades, como se os personagens estivessem simbolicamente se apropriando do espaço urbano. As imagens de performances artísticas são muito bem registradas, em particular a cena inicial do filme, em que o espectador é convidado a adentrar a narrativa como quem se senta na poltrona para o início de um espetáculo. Mesmo adotando uma estrutura bastante simples - já está na hora de os filmes sobre a marginalidade adotarem uma estética igualmente marginal -, o resultado é competente, bem articulado.


Seria possível criticar, no entanto, o escopo amplo demais. Através dos depoimentos, Menezes e Abramos citam questões importantes como a opressão religiosa, a rejeição dos familiares, o papel da Internet, a diferença da vida gay na cidade e no campo, os crimes homofóbicos, os abusos sexuais, a ditadura militar, a representação LGBT em novelas e na TV de modo geral, a tendência ao suicídio, as dificuldades econômicas específicas dos trabalhadores gays etc. Cada um destes aspectos mereceria um olhar aprofundado. Entretanto, assim que os entrevistados tocam num assunto, outro tema vem substituir o anterior. O espectador se depara com um painel amplo, uma espécie de porta de entrada à vida de homens gays, que jamais se detém em pormenores.




Isso pode ocorrer devido ao fato de Abrindo o Armário ser um projeto de vocação mais psicológica do que sociológica. Os diretores não abordam projetos de lei, representantes políticos, dados da sociedade como um todo. A mensagem principal, entoada ao fim pela excelente Jup do Bairro, diz respeito à libertação pessoal, à autoaceitação. Destaca-se igualmente a presença de Linn da Quebrada, artista bem articulada e transgressora, que se tornou um ícone incontornável do novo cinema de temática LGBT, após figurar em Meu Corpo é PolíticoCorpo Elétrico e Bixa Travesty. Ironicamente, é através de duas figuras trans que este projeto focado em homens gays cisgênero extrai o seu discurso mais potente.


O documentário se conclui como um chamado à tolerância, um aceno empático às minorias. Resta saber se o seu público-alvo será os indivíduos LGBT ainda em formação, que precisam de referenciais como este para se construírem, ou a população geral, de maioria heteronormativa, de quem se espera uma progressiva desconstrução dos preconceitos.

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