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3,5
Bom
Como Nossos Pais

Um sopro de modernidade

por

A diretora Laís Bodanzky possui um estilo único dentro do cinema brasileiro. Sua cartilha de mise en scène é simplíssima: planos de conjunto para filmar vários personagens, close-ups nos rostos, luz natural, pequenos diálogos a dois ou a três para conduzir a trama. Não existem grandes reviravoltas nem metáforas mirabolantes. Ao mesmo tempo, estamos distantes do registro documental da câmera na mão, livre, seguindo personagens como se não conhecesse o destino deles. Toda escolha de imagem possui um propósito, de uma transparência impressionante.


Como Nossos Pais - FotoA curiosidade neste caso consiste em ver tamanha limpidez aplicada a temas complexos como a mortalidade, a identidade, o feminismo, o papel da tecnologia nos relacionamentos. Bodanzky transforma o material digno de filme-tese num improvável feel good movie sobre sucessivas catástrofes na vida de Rosa (Maria Ribeiro), mulher que briga com o marido pouco participativo, perde o emprego do qual sequer gostava, enfrenta a crise pré-adolescente da filha e ainda tem que lidar com um segredo bombástico lançado pela mãe.

 

O roteiro apresenta conflitos em excesso. A solução encontrada para abordá-los de modo fluido é retirar o peso individual para que nenhum deles impeça Rosa de progredir. Ela recebe os golpes, demonstra cansaço e irritação, mas não para de seguir em frente. A própria existência de uma personagem como Rosa demonstra otimismo por parte do roteiro. Felizmente, a personagem é interpretada por Maria Ribeiro, atriz ideal para esse projeto pela maneira naturalista de lidar com diálogos, com o corpo e com os demais atores. O tipo de jogo fornecido pela atriz aos outros nomes do elenco – Clarisse Abujamra e Jorge Mautner estão particularmente luminosos – permite que o conjunto se desenvolva sem solavancos.

 

Como Nossos Pais - FotoMesmo assim, existem momentos desengonçados na trama, e não são poucos. A cena da conferência em inglês é exagerada no tom e no figurino, a facilidade com que se tem acesso a um Ministro da Casa Civil é pouco verossímil. Alguns diálogos são escritos demais, ultrapassando o registro oral e soando excessivamente funcionais dentro da narrativa. Uma doença terminal sem sintomas também incomoda, além de diversos símbolos óbvios – o quadro de Cuba convenientemente disposto ao olhar, o ato falho fantasma/fantoche de fácil sugestão psicanalítica.

 

Pode-se reclamar, portanto, que parte deste discurso não soa natural, e nem todas as importantes ideias feministas se encaixam tão bem na boca dos personagens. Apesar destas ressalvas, Como Nossos Pais tem consciência de seus objetivos e sua estética, conduzida com precisão notável: nenhum elemento técnico chama mais atenção que o outro, tampouco desperta atenção para si próprio. Este seria um bom exemplo do “cinema do meio” (nem hermético, previsto para um nicho, nem escrachado, previsto para a massa) de que o cinema brasileiro tanto precisa. Se ele puder incitar a uma discussão progressista e despojada sobre o papel da mulher na sociedade, melhor ainda. Enquanto tantos cineastas buscam a maneira mais adequada de fazer cinema contemporâneo, Laís Bodanzsky continua fazendo cinema moderno, e muito bem por sinal.

 

Filme visto no 67º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017.

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