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3,5
Bom
Mãe Só Há Uma

Um passinho atrás

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Há uma grita no cinema nacional que, não é de hoje, clama pelo filme médio, ou seja, aquele tipo de produção que não trata o público como acéfalo (caso de muitas comédias televisivas), nem tampouco sobrecarrega o cérebro do pobre coitado depois de um dia de trabalho com uma história tão hermética que nem Foucault daria conta de interpretar (a turma wannabe Glauber Rocha).

Mãe Só Há Uma - FotoIsso, no entanto, nunca foi um problema para Anna Muylaert. Desde que estreou no comando de um longa-metragem, em 2002, com Durval Discos, passando por É Proibido Fumar (2009), e culminando com o incrível Que Horas Ela Volta?, de 2015, a diretora mostrou que é possível, sim, fazer um cinema nacional que entretém e, ao mesmo tempo, não subestima a inteligência do espectador.

Dentro dessa curva, Mãe Só Há Uma é, no entanto, um passinho atrás. O longa parte de uma história real que ganhou o noticiário nacional na década de 1990 e ficou conhecido como “o caso Pedrinho”, rapaz que, com 16 anos, descobriu ter sido sequestrado quando bebê – e vivia de boa até então com a mãe, que acreditava ser biológica. A tentação óbvia é que o enredo se desenrolasse em uma adaptação policial, um filme de tribunal, um embate do vilão (ou vilã) versus o(a) mocinho(a).

Mãe Só Há Uma - FotoMas Anna não é óbvia e, por isso mesmo, acrescenta uma importante camada ao drama familiar que se desenrola na ficção. Mãe é protagonizado pelo filho, Pierre (o estreante Naomi Nero, ótimo, sobrinho do ator Alexandre Nero), um garoto que não obedece às convenções tradicionais de gênero. Ele toca guitarra, pinta as unhas, transa com meninas, usa lingerie. Pierre não é gay ou hétero; é Pierre.

Um dos grandes méritos do filme é que o comportamento... atípico (?) do personagem não é tratado com ou sem sutileza; ele simplesmente está lá, representado de forma neutra, o que mostra uma sintonia da obra com uma questão contemporânea da juventude dos grandes centros urbanos (pelo menos), da não exigência do binarismo sexual. Como retrato de uma fase da vida típica de incertezas, o filme evoca a pertinência de As Melhores Coisas do Mundo (2010).

Mãe Só Há Uma - FotoAnna também não é maniqueísta. E quando Pierre (batizado Felipe) é reassentado por lei no seio da família biológica (e bastada, diga-se), é como se fosse sequestrado uma segunda vez, afinal, sem saber que tinha sido roubado, ele nada tinha contra a mãe que o criou – e que, por outro lado, cometeu, sim, um crime. O confronto é previsível, mas que julgue o espectador.

E, como mãe só há uma, a atriz Dani Nefussi (Bicho de Sete Cabeças) é a responsável por interpretar as duas – biológica e adotiva –, o que faz de maneira bem distinta, em uma ótima sacada do filme.

Mas a produção se vale de um arco dramático abortado prematuramente. A história simples (até demais) resulta repetitiva quando estendida para o formato de um longa – o roteiro é assinado pela própria Anna Muylaert, com a colaboração de Marcelo Caetano.

Não que a experimentação não deva ser valorizada, mas apesar do clímax, o filme carece de resolução (termina de maneira abrupta) – o que, a julgar pelo contexto da obra da diretora, no mínimo, causa estranhamento (no máximo, soa como amadorismo). E o que Mãe Só Há Uma traz de melhor parece credenciá-lo como um rascunho da obra-prima (sem exagero) que é Que Horas Ela Volta – que, embora tenha sido lançado anteriormente, foi realizado concomitantemente.
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