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Loucas de Alegria
Críticas AdoroCinema
3,0
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Loucas de Alegria

Os loucos são os outros

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Duas mulheres fogem do hospício. A premissa representa um prato cheio para o humor pastelão, mas o filme italiano possui um ponto de vista particular em relação ao tema: primeiro, ele deseja mostrar que os problemas da dupla poderiam acontecer a qualquer um, ou seja, a loucura pode atingir todas as pessoas, de todas as classes sociais. Segundo, o diretor Paolo Virzì defende que o mundo das pessoas “normais” é muito menos interessante do que o universo ilusório das protagonistas.


Loucas de Alegria - FotoComo na maioria das comédias sobre duplas, as personalidades são opostas: Beatrice (Valeria Bruni Tedeschi) é rica, arrogante e nunca para de falar; Donatella (Micaela Ramazzotti) é pobre, introvertida e não pronuncia uma palavra sequer. Apesar dos delírios de grandeza ou da depressão profunda, elas são mais lúcidas que as outras mulheres na instituição psiquiátrica. Assim, unem-se e escapam do local. Beatrice sonha com aventuras extravagantes, enquanto Donatella busca superar um trauma, sugerido pelo roteiro desde a cena inicial.

 

Após o cerebral Capital Humano, Virzí opta por uma calorosa obra de excessos. As cores são saturadas, as pessoas gritam e gesticulam, as ações se desenvolvem em paisagens paradisíacas, a música busca contagiar as personagens e o filme de modo geral. As protagonistas constituem caricaturas, assim como as demais “loucas” desta história, mas o roteiro está ciente de suas licenças em relação à verossimilhança, e nunca se leva a sério demais. Loucas de Alegria se desenvolve como farsa, ou talvez uma fábula sobre a dificuldade de permanecer lúcido no mundo contemporâneo. As atrizes estão confortáveis: Bruni Tedeschi delicia-se compondo uma diva herdeira de Norma Desmond, já Ramazzotti faz uma depressiva em estilo gótico, com bom trabalho de olhares.

 

Loucas de Alegria - FotoO universo fantasioso determina a estrutura do projeto. Apesar de apontar ao road movie, com referência explícita a Thelma e Louise, o diretor apoia-se sobretudo no melodrama clássico, garantindo que cada conflito amoroso e familiar na vida de Beatrice e Donatella seja solucionado rumo ao final. O roteiro pode se apresentar dezenas de reviravoltas rocambolescas, que esticam a duração do filme, mas não demonstra ousadia na progressão linear e um tanto previsível. Mesmo assim, a conclusão é satisfatória em sua pretensão clássica-narrativa, com direito a uma cena final particularmente comovente.

 

Para além de questões cinematográficas, Loucas de Alegria pode ser questionado pela representação das doenças mentais. O filme defende a institucionalização forçada como melhor alternativa para pacientes com distúrbios mentais, algo questionado pelas reformas psiquiátricas há décadas. Neste sentido, ele soa menos libertário do que as impulsivas protagonistas poderiam dar a entender. Mas colocando essas questões à parte, o resultado revela-se otimista quanto à possibilidade de reinvenção de si e à constituição de novas formas de laços afetivos.

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