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    Cadê Você, Bernadette?
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Cadê Você, Bernadette?

    Ou Cadê Você, Linklater?

    por Sarah Lyra
    Um dos maiores traços de autoralidade de Richard Linklater como diretor e roteirista vem de sua habilidade em destrinchar problemáticas interacionais e grupais com diálogos realistas e provocadores, que muitas vezes nos transportam para um alto nível de imersão e identificação. É interessante observar trechos de obras como Boyhood: Da Infância à Juventude, ou de qualquer um dos filmes da trilogia Antes do Amanhecer, e pensar que só podem se tratar de elementos linklaterianos. Em Cadê Você, Bernadette? essa marca infelizmente se perde, e o resultado final, independentemente de um juízo de valor, poderia ser atribuído a qualquer outro profissional competente.

    De maneira geral, o que traz força a esta narrativa de Linklater é o trabalho dos atores, com destaque para Cate Blanchett, que novamente domina o papel da mulher rica neurótica — a outra vez foi em Blue Jasmine —, mas com a diferença de que os sintomas de Bernadette não são desenvolvidos com a mesma profundidade do filme de Woody Allen. Aqui, a trama dedica-se a gerar humor a partir do comportamento hostil que ela destina a todos à sua volta, com exceção do marido Elgie (Billy Crudup) e da filha Bee (Emma Nelson). A chamada agorafobia enfrentada pela protagonista acaba sendo empregada mais como uma extensão de sua personalidade do que realmente uma fobia social ou transtorno de ansiedade. Por isso, apesar de uma propensão a tomar seu lado, já que os acontecimentos são desenvolvidos sob sua perspectiva, não fica claro para o espectador quem a personagem realmente é, nem os subtextos dos relacionamentos entre ela, Bee e Elgie.



    Ao mesmo tempo que parece perfeitamente à vontade com sua solidão, Bernadette apresenta indícios de que seu comportamento foi desencadeado por algum grande evento do passado, e não por uma escolha. É curioso notar também como a trama caminha no sentido de apresentar uma enorme preocupação do marido que até então se mostrava apático em relação à sua condição. Não fica tão evidente, até o último ato do filme, que o fato de Elgie ser um workaholic tem forte impacto na dinâmica do trio. A maneira como essas relações são apresentadas, na maior parte do tempo, indica que esta característica não é uma questão. Assim, quando Bee confronta o pai sobre sua ausência — o que também é usado para justificar repentinamente a proximidade entre mãe e filha —, o momento soa mais como um artifício para redenção do que para evidenciar os problemas familiares. Diante disso, o roteiro se apressa em apresentar um sacrifício edificante por parte de Elgie que fará a tríade se reunir novamente.

    Em outras palavras, é como se o roteiro se empenhasse para resolver problemáticas que, na verdade, não chegam a ser apresentadas. Existem peculiaridades na interação familiar, é claro, mas que por vezes soam mais como linguagem — assim como fazem Wes AndersonNoah Baumbach — do que uma intenção de se aprofundar nas questões. Portanto, por mais bem vindo que o ato final seja, este praticamente se dissocia do restante da obra, principalmente em sua duração, que parece sugerir um recomeço da narrativa mais do que uma continuidade.

    Com arcos desperdiçados para Kristen Wiig e Nelson, cujas funções são essencialmente de alimentar e balancear a neurose da personagem-título — Audrey a potencializa, enquanto Bee traz o contraponto da protagonista como uma incompreendida —, Cadê Você, Bernadette? se encerra com uma mensagem de que o abismo emocional no qual a protagonista se encontrava poderia ser facilmente resolvido assim que ela percebesse a necessidade de continuar ativa em sua arte. "Ela é uma artista que não está criando", diz Elgie, em uma espécie de epifania que reforça ainda mais essa ideia, o que se torna não apenas contraditório, mas problemático vindo do homem que estava prestes a interná-la à força momentos antes. Embora o título do filme lance um questionamento sobre o paradeiro de Bernadette, a sensação ao final é de se perguntar onde exatamente está Richard Linklater nesta obra que passa longe de exibir a costumeira competência do diretor.

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