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    Um Doce Refúgio
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    Um Doce Refúgio

    Mundo perfeito

    por Bruno Carmelo

    Os irmãos franceses Bruno e Denis Podalydès são reconhecidos por dirigirem, roteirizarem e protagonizarem vários projetos pessoais. A maioria destes filmes são comédias dramáticas sobre personagens banais, trazendo no elenco atores famosos em curtas aparições. Para Bruno Podalydès, Um Doce Refúgio significa um passo além na autorreferenciação e exposição de si. O filme apresenta um mundo ideal, onde tudo conspira a seu favor. É uma história feita sob medida para o autor brilhar em cada cena.


    Um Doce Refúgio - FotoA premissa acompanha Michel, um homem fascinado por aviões. Um dia, apaixona-se também por caiaques, numa espécie de analogia com a noção de fluidez e deslocamento. Sem ter o mínimo conhecimento sobre como construir um caiaque ou como remar, decide abandonar a família e o trabalho para fazer uma longa viagem de autodescoberta.  A fuga poderia ser rica em conflitos pessoais, mas esta não é nenhuma "Terceira Margem do Rio". A ordem, aqui, é a leveza e a concretização de um sonho.

     

    O sonho, no caso, é marcado pelas pulsões de Michel/Bruno. O diretor, roteirista e ator principal faz com que todos os passos desta aventura sejam facilitados: a esposa (Sandrine Kiberlain) aceita pacificamente a viagem do marido e o ajuda sem questionamento, o patrão (Denis Podalydès) não se incomoda que o funcionário suma sem aviso prévio, e absolutamente todas as mulheres que cruzam seu caminho (Agnès Jaoui, Vimala Pons, Stéphanie Cléau) se apaixonam por ele e querem ir para a cama com o desconhecido. Todos os estranhos prestam ajuda, e até uma celebridade (Pierre Arditi) aparece à beira do rio no instante em que Michel passa.

     

    Um Doce Refúgio - FotoUm Doce Refúgio lembra um devaneio erótico, porém com o teor sexual atenuado ao nível de uma comédia dramática permitida aos menores de 14 anos. De qualquer forma, ele manifesta um desejo de poder absoluto, com o mundo inteiro à disposição deste homem heterossexual e libidinoso. A liberdade, representada pela fluidez do caiaque e pelos imprevistos da natureza, combina-se ironicamente com um controle onisciente: o cenário lembra o mundo cor-de-rosa e artificial de O Show de Truman, onde todos os passos eram devidamente calculados em função do protagonista. Michel, como Truman, é um sol em torno do qual giram todos os personagens.

     

    Apesar de tamanho egocentrismo, é inegável que a obra possui noção de ritmo, e suas atrizes são bem escolhidas: Agnès Jaoui sempre interpreta bem as mulheres extrovertidas, desbocadas e confortáveis com seu corpo, enquanto Vimala Pons faz pela enésima vez o papel da estrangeira sedutora. Michel Vuillermoz e Noémie Lvovsky são coadjuvantes de luxo, muito desenvoltos na comédia. Bruno Podalydès também explora com destreza o humor físico, meio patético, herdeiro de Jacques Tati. Além disso, as belas paisagens e o tom otimista devem garantir uma recepção calorosa no circuito alternativo nacional. Mas o filme teria maior alcance se olhasse além do universo idealizado de seu autor-diretor.

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