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4,0
Muito bom
Love Film Festival

Coisa de cinema

por
Manuela Dias é um exemplo positivo de diretora estreante em longa-metragem, que articula boas ideias, diversas, com eficiência, coesão e inteligência. Desde o curioso título Love Film Festival: tanto remonta ao gênero em que o filme se inclui, como faz referência ao local primordial em que essa história de amor acontece: os festivais de cinema. Mas é mais que isso. A opção pela língua inglesa, comum nesse tipo de evento, também evoca Hollywood — indústria em que Manuela se inspira ao explorar e subverter, muito espertamente, suas convenções.




Love Film Festival
é uma grande sacada desde a premissa. Luzia (Leandra Leal), uma roteirista brasileira, conhece Adrián (Manolo Cardona), um ator colombiano. Eles se conhecem e se apaixonam numa mostra cinematográfica, e Manuela Dias se mostra uma habitué desse tipo de evento ao ora registrar de modo documental, ora representar em ficção, suas recorrências: os discursos dos cineastas, as conversas pós-sessão, os comentários sobre o hermetismo do cinema de arte, o feedback pedido por realizadores sobre seus filmes, os jantares, os encontros e, sim, o amor passageiro de festival.

A ambição da diretora e roteirista, no entanto, é contar uma história de encontros e desencontros possível nesse universo, e é aí que Love Film Festival revela ecos de um grande nome do cinema estadunidense: Richard Linklater. Como em Boyhood, voltaremos a encontrar Luzia e Adrián ao longo dos anos, numa passagem de tempo real. Tal qual na trilogia de Jesse e Celine, a paixão avassaladora que une o casal — vide Antes do Amanhecer — acontece na paisagem urbana das cidades de Lisboa, Rio, Cartagena e Chicago (o que reflete a importância das cidades na construção de personalidade dos festivais). E o que acontece nos meses entre cada reencontro é muito bem resolvido como discussões de relacionamento entre os protagonistas, em preenchimentos de elipse similares aos de Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite.



Distância, saudade, traições, insegurança. Em vez de clichês do gênero, o roteiro explora elementos comuns da vida real, o que reflete um grande poder de observação da cineasta (característica de Linklater), confere sensibilidade ao texto, gera pronta identificação com o público e redunda em dramaturgia de alto nível — também graças ao talento de Leandra Leal, estupenda, e Manolo Cardona. Após diversas participações especiais ilustres, Nanda Costa surge repentinamente como a única atriz famosa com um nome ficcional, Camila, numa apresentação que prenuncia, positivamente, a função de sua personagem na trama. Sua atuação mantém a excelência do elenco principal e até surpreende que a escalação e sua consequente subtrama tenha sido uma alternativa emergencial, devido a um problema de agenda de Leandra Leal.

O conflito gerado por Camila, inclusive, acrescenta um aspecto metalinguístico tanto caro à alternância entre o documental e o ficcional presente em Love Film Festival, como pela forma com que esse jogo traça o destino de Luzia. Em considerar um final feliz para o seu próximo filme, por ser uma alternativa subversiva (e melhor opção) no cinema atual, a protagonista — uma mulher do século XXI, independente, receosa em abdicar da vida profissional em prol de um romance — discursa sobre a própria vida, em que se entregar ao grande amor é um ato de rebeldia. Essa é, na verdade, a voz de Manuela Dias, defendendo um clichê somente para adotá-lo sem culpa, na maior cara de pau, e concluir sua proposta (anunciada desde o título) em deliciosa mostra de autoconsciência.



Aconcretização desse roteiro esperto só acontece, como a arte preconiza, por sua boa representação visual/narrativa. E essa é uma realização ainda mais grandiosa em Love Film Festival, dada a sua direção compartilhada, com Manuela Dias atuando como showrunner (ou um diretor geral de novelas brasileiras) de outros três cineastas: Vinícius Coimbra, Juancho Cardona e Bruno Safadi, um em cada cidade. Eles atuam em perfeita sincronia, e com uma cinematografia que foge ao convencional, cheia de transições dinâmicas, que abusa da contraluz e possui uma construção dramatúrgica ao mesmo tempo harmônica e ousada, com direito a excelente plano sequência, longo e tenso, bem no clímax. Assim, a direção consegue ser coerente em seus tempos variados e transformar uma premissa ambiciosa num filme completo.
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