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    A Luneta do Tempo
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    A Luneta do Tempo

    Um faroeste brasileiro

    por Francisco Russo
    O faroeste – ou western, como chamam os puristas – é um gênero tipicamente americano, com seus heróis e bandidos de chapéu e pistola na mão, duelando pelo Velho Oeste. Entretanto, isto não significa dizer que os Estados Unidos sejam os únicos capazes de rodar filmes de qualidade neste estilo. O Brasil, quem diria, ganhou um belo exemplar do gênero através de um iniciante detrás das câmeras: o cantor e compositor Alceu Valença.

    A Luneta do Tempo - PosterA Luneta do Tempo, seu filme de estreia, levou 14 anos para sair do papel. Em parte pelo desconhecimento de Alceu com a técnica cinematográfica, em parte pela dificuldade natural em obter recursos para fazer cinema no país. O resultado, mesmo diante de tantas dificuldades, é encantador. Nem tanto por ser um filme perfeito, o que não é, mas pela paixão existente no longa-metragem. Há uma vibração inerente que contagia, atrai o espectador para este universo tão próximo e, ao mesmo tempo, onírico. Trata-se não apenas de um mero faroeste, mas de um filme com traços tipicamente brasileiros que, ainda por cima, são usados para subverter o formato tradicionalmente explorado pelo gênero. Um faroeste em tom de cordel, simples assim.

    Centrado nas figuras de Lampião e Maria Bonita, o longa-metragem acompanha os embates dos cangaceiros com a polícia que os caça, liderada por Antero Tenente. Não espere o didatismo contado nos livros de história, Alceu Valença está mais interessado em usar os ícones em torno do cangaço – a roupa, o modo de falar, a honra entre seus integrantes, a imagem mítica do casal – para compor seu repente pernambucano visando a ação, através de duelos ágeis e tensos. A fotografia é aliada neste objetivo, buscando ângulos inusitados – a sequência de cabeça pra baixo é ótima! -, assim como a trilha sonora vibrante, toda composta pelo próprio diretor. A música, por sinal, é parte importante na narrativa.

    Entretanto, A Luneta do Tempo não é propriamente a história do cangaço. Lampião e Maria Bonita são usados como ícones daquele período que permaneceram através dos tempos, em canções e pelo próprio visual, impulsionado anos depois por Luiz Gonzaga. É nesta transição que o filme patina, pelo excessivo uso de fade outs e uma certa confusão no roteiro, com lacunas preenchidas através de flashbacks rápidos já perto do desfecho. Falhas até certo ponto comuns para um diretor de primeira viagem, ainda mais diante de uma empreitada tão longa, mas que provocam um certa queda de ritmo no segundo ato, recuperado apenas quando a trama se aproxima do final.

    A Luneta do Tempo - FotoApesar deste desnível, há no filme um punhado de bons motivos para sorrir. Um deles é Irandhir Santos, mais uma vez impressionante ao compor um Lampião com semblante sério e capaz de momentos de pura doçura ao lado de sua Maria Bonita (Hermila Guedes, apenas correta). Há também personagens coadjuvantes deliciosos, como o encrenqueiro e Severino, pelo espírito fantasioso necessário a um bom cordel. Isso sem falar nos diálogos rimados, que trazem um charme extra à história.

    A Luneta do Tempo é um filme um tanto irregular e talvez até incompleto, mas traz consigo uma criatividade e uma paixão contagiantes que atenuam boa parte de seus (poucos) problemas. Sua beleza maior está no risco, no fugir de respostas óbvias e na coragem de tentar fazer algo diferente do convencional. Se Alceu seguir nesta toada, o cinema brasileiro ganhou um diretor que merece ser acompanhado de perto.

    Filme assistido durante a cobertura do 42º Festival de Gramado, em agosto de 2014.
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