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    Ida
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Ida

    Sacrifício e pecado

    por Lucas Salgado

    Escolhido o representante da Polônia na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2015, Ida é um filme bem especial. Por um ponto de vista completamente diferente, o diretor Pawel Pawlikowski volta a trabalhar com temas que já havia abordado em Meu Amor de Verão (2004), com Nathalie Press e Emily Blunt. Por mais que a trama foque em uma espécie de reencontro com o passado, o grande objeto da narrativa é a jornada de uma jovem que inicia a vida adulta e é obrigada a conviver com erros e decepções.

    Agata Trzebuchowska interpreta Ida, uma jovem noviça que está pronta para se tornar freira, faltando apenas prestar seus votos. Antes que isso aconteça, ela recebe uma missão da Madre Superiora (Halina Skoczynska): passar um tempo com sua única parente viva, a tia Wanda (Agata Trzebuchowska).

    Chegando na casa da tia, ela se depara com uma realidade completamente diferente da sua. O álcool, o cigarro e o sexo fazem parte da rotina da tia e ela não vai mudar isso apenas para agradar a sobrinha. Além disso, a jovem descobre uma notícia que não esperava: ela é judia e seus pais foram mortos durante a Segunda Guerra Mundial.

    A partir daí, o longa investe num road movie inusitado, em que as duas embarcam em uma viagem para descobrir onde estão enterrados os pais da garota. Trata-se de um retrato bem interessante do pós-guerra na Europa, mostrando que o trauma permaneceu por muitos anos na região, com uma ferida que parece nunca cicatrizar.

    A relação entre Ida e Wanda é o ponto alto da produção, com personagens complexos e cenas realmente bonitas. A tia, vista pela jovem como pecadora, confronta constantemente seus próprios fantasmas ao mesmo tempo que tenta passar um pouco de sua experiência para a sobrinha. É bem interessante quando ela confronta a ideia de sacrifício feito pelas freiras que fazem seus votos. Como chamar de sacrifício se elas não conhecem o prazer do pecado?

    Ida conta com um trabalho brilhante de design de som, mas nada chama mais a atenção do que a fotografia. Não só a utilização do preto e branco é perfeita, como o longa investe em uma razão de aspecto de 1.33 : 1 e em um enquadramento que deixa suas personagens várias vezes na parte de baixo da tela, reforçando o desconforto das duas protagonistas naquele cenário.

    Filme visto no Festival do Rio, em setembro de 2014.

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