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Viva - A Vida é uma Festa
Críticas AdoroCinema
4,5
Ótimo
Viva - A Vida é uma Festa

A memória afetiva

por

Ao contrário dos filmes tradicionais da Disney, as animações da Pixar sempre trataram a morte de maneira pudica, discreta. Enquanto A Bela e a Fera ousava matar seu vilão jogando-o do alto de uma torre imensa, o vilão de Toy Story 3, por exemplo, era punido com uma vida ruim ao invés da morte. Agora, a Pixar ousa abordar o assunto com uma frontalidade atípica e bem-vinda: Viva - A Vida é uma Festa explora não apenas a morte natural, mas as mortes por acidente, o assassinato e a morte simbólica, ou seja, o esquecimento.


O conteúdo poderia soar árido demais para o público infantil, porém o diretor Lee Unkrich suaviza a ideia com música, poesia e afeto familiar. A história gira em torno de um garotinho apaixonado por canções, vivendo dentro de uma estrutura matriarcal onde a música é banida devido a um trauma: como o tataravô abandonou a esposa e os filhos pequenos para seguir a carreira de artista, a dor familiar foi deslocada do homem para o seu outro objeto de paixão, no caso, a arte. O pequeno Miguel, fã das melodias românticas do ídolo Ernesto de la Cruz, nutre em segredo o sonho de se tornar artista. Mas seria possível articular o amor pelos familiares e o amor pela arte? Ou ainda, o senso de aventura e a vida doméstica?




Ao confrontar o pequeno Miguel à morte, e portanto ao limite de seus desejos, o roteiro de Viva felizmente foge à chantagem emocional, feito raríssimo em produções do gênero. Ele se confronta aos antepassados, que retornam no Dia dos Mortos sob forma de esqueletos com roupas e maquiagem, de modo a ilustrarem as pessoas que foram um dia. Ossos são transformados em brinquedos, o corpo é visto como mero acessório. É belíssimo o modo como o filme conjuga espiritualidade e cultura mexicana sem pregar a verdade única da religião, nem o didatismo da importância cultural. A excelente piada com Frida Kahlo exemplifica a representação da cultura erudita de modo leve e lúdico, ao invés do tom solene das invocações históricas.


A espiritualidade da trama dispensa a necessidade de igrejas e padres, enquanto a paixão pela música e pela poesia trazem a cultura ao cotidiano. A família de Miguel não percebe, mas se manifesta artisticamente cada vez que decora a casa para o Dia dos Mortos, mesmo detestando a arte como tentação perigosa. Unkrich trata todos os personagens e cenários com o mesmo carinho: ele cria uma aura dourada nos mortos, um longo corredor de pétalas para ligar os vivos ao além e imagina uma cidade de esqueletos com funcionamento análogo ao nosso. Viva se dissocia da noção maniqueísta de céu e inferno, preferindo a transferência harmônica e igualitária para outro plano de existência, no qual o elemento mais importante é ser lembrado por aqueles que ainda vivem.


Por isso mesmo, a bela canção-tema se chama “Lembre de Mim”, destacando o papel da memória na manutenção do afeto. Esse é um atalho fundamental encontrado pela história: ao invés de sugerir que o amor pela família passa obrigatoriamente pela presença física ao lado dos parentes, o amor se encontra na lembrança de quem cuidou de nós. A noção de um amor não-físico possibilita o afeto com os antepassados mortos e permite igualmente que uma pessoa seja, ao mesmo tempo, apegada aos pais, tios e avós, mas também um artista percorrendo o mundo com a sua arte. O dilema Miguel, entre ficar e partir, é solucionado pela narrativa através de uma bela via alternativa.




Tecnicamente, o filme demonstra a segurança da Pixar na criação de personagens e cenários. Ao invés de se colar ao máximo à técnica realista, o estúdio privilegia a riqueza da fotografia, dos sons, da montagem, da direção de arte. Viva impressiona pela belíssima construção da luz no Dia dos Mortos, pelos figurinos, pela maneira singela como explica a história de várias gerações através de bordados típicos mexicanos. A edição de som consegue usar várias faixas musicais sem saturação, brincando com o volume e a interação inesperada com outros tipos de sons (ruídos, diálogos). Acima de tudo, o filme sabe muito bem como e quando usar o silêncio - outra raridade num projeto infantil. E os silêncios desta história são de cortar o coração.


Talvez este seja um dos aspectos mais bem-sucedidos da obra: a conexão honesta e simples com os sentimentos do público. Viva está longe da originalidade de Divertida Mente, por exemplo, mas se sai muito melhor no trabalho emotivo e na construção dos personagens. A Pixar ainda sabe como ninguém dar profundidade a cada personagem coadjuvante, entendendo os seus motivos ao invés de julgá-los apressadamente. Esta história tem espaço para desenvolver a personalidade da mãe, da avó, do tio, cada um dotado de uma trajetória única.


O único porém do filme seria a reviravolta, no clímax, semelhante demais àquela de pelo menos dois outros filmes da Pixar. Os fãs dos estúdios devem antecipar facilmente tal transformação, mas pouco importa: a fórmula ainda funciona através de uso impecável de som e imagens. Melhor ainda quando desloca o foco da cultura americana para os sons e as cores mexicanas, colocando as mulheres em papéis de controle e expandindo a noção de família tradicional. O filme obtém sucesso na articulação improvável entre a tradição e a modernidade, homenageando o melhor de ambos os mundos sem desrespeitar as crenças de nenhum deles.

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