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Azul é a Cor Mais Quente
Críticas AdoroCinema
5,0
Obra-prima
Azul é a Cor Mais Quente

Uma jornada de descoberta

por Lucas Salgado

A passagem da adolescência para o dia a dia adulto é um momento difícil de viver e ainda mais difícil de explicar. Por isso, são poucos os filmes que realmente se arriscam em traçar este caminho. E este é o caso de Azul é a Cor Mais Quente. Esqueça tudo o que leu sobre o filme. Não se trata de uma obra sobre duas mulheres que "se pegam" o tempo todo. Trata-se, sim, de uma produção ímpar sobre descoberta da juventude. O amor e o sexo estão ali, é claro, mas como pano de fundo para algo bem mais complexo.

Azul é a Cor Mais Quente - FotoAdèle (Adèle Exarchopoulos) é uma garota de 15 anos que divide sua rotina entre completar o ensino médio e dar aulas de francês para crianças. Determinado dia, ela conhece Emma (Léa Seydoux), uma artista plástica de cabelos azuis. As duas começam a se conhecer e dão início a um relacionamento intenso. 

O filme tem em sua longa duração um dos seus pontos positivos. Suas quase três horas ajudam o espectador a conhecer detalhadamente sua protagonista. Quando Adèle conhece Emma, nós já temos uma boa ideia da fase de vida em que se encontra a primeira. Sem saber o que quer, ela faz aquilo que se espera de uma garota de 15 anos. Conversa com as amigas, flerta com garotos etc. Até o dia em que conhece o novo.

Ao mesmo tempo em que a protagonista vai se descobrindo, ela vai conhecendo o mundo. E ainda assim, no sentido geral, parece um pouco perdida. O fato do diretor Abdellatif Kechiche dar à sua personagem o nome de sua protagonista ainda colabora para dar ao longa um ar quase documental. Obviamente, Exarchopoulos não é a Adèle do filme, mas se entrega de forma tão impressionante que o resultado é fenomenal.

Azul é a Cor Mais Quente - FotoConhecido pelos trabalhos em O Segredo do GrãoVênus Negra, Kechiche realiza mais um trabalho incrível, adotando novamente a naturalidade como sua marca. Nenhuma das atrizes usou maquiagem para os papéis, o que reforça suas belezas e ainda dá ao longa um ar muito particular, fugindo da plasticidade do cinema hollywoodiano. Outra opção formidável do cineasta foi rodar o filme em 2.35:1. Usado classicamente em faroestes como Era uma Vez no Oeste ou épicos como Lawrence da Arábia, o formato se tornou cada vez mais comum nos últimos tempos com a propagação do widescreen. Ainda assim, é usado na maioria das vezes para reforçar cenários ou efeitos visuais. Em Azul é a Cor Mais Quente, não tem nada disso. O diretor usa uma razão de aspecto alta para contar uma história muito intimista. O resultado é perfeito e vemos Adèle, por mais que esteja sempre em destaque, também presente em um ambiente amplo, aberto a novas situações ou novos personagens. E isso também vale para Emma.

A diferença de classes, tema recorrente na cinematografia do diretor franco-tunisiano, está presente aqui, e também de forma bem natural. Enquanto Léa é um fruto de uma família de intelectuais e sonha em ser uma artista, Adèle possui pais mais simples, que não dispensam uma boa macarronada e são objetivos na hora de pensar no futuro. Kechiche levanta vários temas, mas não perde tempo transformando qualquer um deles em um impedimento para a relação.

Azul é a Cor Mais Quente - FotoA trama é inspirada livremente nos quadrinhos homônimos de Julie Maroh. O diretor faz questão de ressaltar a independência com relação à HQ, mas é inegável a influência, principalmente na fotografia de Sofian El Fani. O azul não está só no título brasileiro ou nos cabelos de Emma. A cor está presente durante toda a produção, seja nos figurinos (principalmente de Adèle), seja nos próprios ambientes, que parecem debaixo de um filtro azul.

La Vie d'Adèle (no original) é construído através das atuações de Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. Elas brilham tanto que foram consideradas coautoras pelo júri de Cannes e acabaram levando a Palma de Ouro ao lado do diretor, o que não foi nenhum exagero. Elas se entregam de corpo e alma ao longa e protagonizam no mínimo três cenas memoráveis: a tão falada cena de sexo; a cena em que brigam; e a sequência num café.

A comunhão entre as duas atrizes é tão impressionante que em alguns momentos o espectador as verá sim como um ser único. Por causa disso, não há a possibilidade de alguém não se envolver com a relação ou sofrer com os momentos em que discutem.

Não se trata de um filme militante sobre um relacionamento homoafetivo. E por causa disso acaba marcando ainda mais o espectador. O relacionamento de Adèle e Emma é construído de forma muito delicada e inteligente. Um filme que mostra a força do amor, seja para construir, seja para destruir. Que mostra as maravilhas, as incertezas e as dificuldades de uma juventude que não sabe o que quer, mas que ao mesmo tempo quer tudo. 

O título original destaca que este é o capítulo 1 e 2 da saga de Adèle. É torcer para que diretor e atriz queiram continuar com a história. Pois ao final dos 177 minutos de Azul é a Cor Mais Quente, a sensação que fica é a de quero mais.

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Comentários

  • Barbara Martins
    Ganhou 5 na crítica do Adorocinema eu já fico curiosa!
  • Tomaz F.
    Filme Muito bom!!Já assisti o filme e recomendo, ainda na Presença deles na pré-estreia do filme melhor impossível....
  • Victor Augusto B.
    deixa de ser preconceituoso cara... esse é um belo filme. não se deve tirar nem por.
  • McGuelrretti S.
    O filme de fato é muito envolvente e extraordinário, por vários aspectos e que me recuso comentar p'rá não cometer uma injustiça, embora as protagonistas desse já conceituado filme, seja pelas suas atuações, seja por todo conjunto da obra cinematográfica, um espetáculo à parte, tamanha a unicidade que deram às suas personagens. Encantador e merecedor da premiação recebida. Que muitas outras premiações possam vir.
  • Juninho C.
    Gostei muito. Lindo. Não é a toa que ganhou um premio em um importante festival de cinema. E não é a toa que eu amo o cinema francês. Maravilhoso.
  • Aglae P.
    Amei esta critica, aprendi e aprendo me soma ler estas criticas existe um filme chamado "assunto de meninas"onde á um relacionamento de duas meninas, mostra de forma bem tragica e belissima, as carências, pois uma vinha de uma familia desestruturada, a outra não conhecia a mãe e outra que havia perdido a mãe para uma doenca, só que este filme levanta bandeiras sim , e mostra como o pré-conceito é como uma pedra jogada num lago, vai criando circulos e afetando, todos ao redor, é um filme para almas fortes, muito trágico, e que nos lembra de como é um periodo maravilhoso, e tambem de descobertas quer sejam passageiras ou definitivas,
  • Ilson d.
    Simplesmente brilhante!
  • Nina M.
    Por isso não peço opinião sobre filmes.. É tão pessoal gostar ou não de um filme. Aquele momento em que vc se apaixona não pela carne mas sim por tdo q rodeia a pessoa em si..Foi assim que me senti ao ver o filme. Fotografia fantástica, apaixonante cada minuto de descoberta, amor e sofrimento...
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