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Bruna Surfistinha

Falsa árvore de plástico

por Lucas Salgado

Quando soube que a bela canção "Fake Plastic Trees", do Radiohead, estava na trilha de Bruna Surfistinha, confesso que achei que as razões eram meramente comerciais, mas conferindo o filme pude perceber que a música tem uma relação muito interessante com a história vista na tela. A Bruna Surfistinha que irritou muita gente ao surgir do nada como pseudo-celebridade, em 2005, com o lançamento de seu livro de memórias "O Doce Veneno do Escorpião" é muito diferente da personagem vivida por Deborah Secco (Meu Tio Matou um Cara).

A Bruna que despontou ao estrelato - e que aparece em muitas partes do filme - é uma falsa árvore de plástico (como diz o título da música supracitada), algo totalmente artificial que nasce da necessidade crescer na difícil carreira que escolheu.

Bruna Surfistinha é um filme bem melhor do que qualquer um poderia esperar. Possui vários defeitos, é bem verdade, mas consegue cumprir bem a função de contar a história que se propõe. Outro mérito do filme é não julgar sua personagem principal, não gastando película para demonizá-la ou endeusá-la. Então, se você procura um longa sobre as consequências de escolhas erradas na vida de uma pessoa este não é o filme para você.

Obviamente, e é até natural que aconteça, o espectador possui toda liberdade para a partir da produção tecer seu juízo de valor, sendo importante apenas que não use esse direito para expor preconceitos ou intolerâncias.

Dirigido por Marcus Baldini, o longa conta a história de Raquel Pacheco, uma jovem da classe média paulistana que abandona a família e os estudos para se dedicar ao mundo da prostituição, onde passa a ser conhecida como Bruna Surfistinha.

O filme dedica pouco espaço para a vida da jovem antes de sair de casa, mas esse espaço acaba por não fazer falta diante da opção dos roteiristas Antonia Pelegrinno, Homero Olivetto e José Carvalho de não colocarem em xeque as atitudes da personagem.

Com uma carreira de maior destaque na televisão, Deborah Secco realiza em Bruna Surfistinha seu melhor trabalho nos cinemas. Ela entrega uma performance corajosa e sem falso moralismo. A produção, como era de se esperar, conta com inúmeras cenas de sexo, que felizmente em momento algum parecem gratuitas ou desnecessárias. A limitação mais evidente de Secco no filme acaba sendo nas cenas em que deveria demonstrar maior emoção. Em alguns momentos do longa é claro como a câmera foge da atriz quando esta deveria estar chorando. Outra tática usada foi focar a câmera em outras partes da face da atriz, como a boca, fugindo sempre dos olhos.

Drica Moraes, Fabíula Nascimento, Cristina Lago e Cássio Gabus Mendes completam o elenco principal da produção e se saem bem. O longa conta ainda com pontas do jogador de futebol Dentinho e da própria Raquel Pacheco. Nenhum nome no elenco decepciona e o diretor acerta na construção do relacionamento de Bruna com suas colegas de profissão.

Sem querer mostrar os bastidores da prostituição, mas se saindo muito bem ao retratar a interação das profissionais enquanto não estão trabalhando, o filme erra ao tentar criar um momento Sex and the City com as garotas de programa partindo para uma noite de badalação. A cena em si não tem nenhum problema, mas a forma como é construída é problemática e fora do tom em relação ao restante da produção.

Bruna Surfistinha possui trabalhos apenas convencionais de fotografia e direção de arte, mas merece ser conferido por contar uma história difícil de forma natural e sem preconceito. A trilha sonora, que não se resume apenas à canção do Radiohead, também é digna de destaque, bem como a edição de Manga Campion, que ao lado do roteiro e da boa direção possui o mérito de não investir em uma personagem de plástico.

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