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    Sonhos em Movimento
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    Sonhos em Movimento

    Pina inofensiva

    por Bruno Carmelo

    Quem diria que a coreógrafa alemã Pina Bausch se tornaria, um dia, um argumento de vendas no Brasil? Pois após o sucesso considerável de Pina, filme dirigido por Wim Wenders (87 mil espectadores até o momento, algo excepcional para um documentário alemão em 3D), a distribuidora Imovision correu para lançar outra produção sobre a mesma dançarina, intitulada desta vez Sonhos em Movimento. No entanto, embora o tema seja o mesmo, a forma de retratá-lo é muito diferente – quase oposta, aliás.


    Pina 3D chocava pela audácia estética, pela representação criativa da dança e pela homenagem ao legado de Pina, jamais à sua personalidade. Já Sonhos em Movimento opera de uma maneira distinta, a começar pela premissa: ele utiliza uma das últimas direções de Pina Bausch antes de sua morte, uma versão de sua famosa coreografia Tanzträume, ensaiada com adolescentes que nunca tinham dançado na vida.


    Enquanto Wim Wenders inovava, transformando até as típicas entrevistas dos documentários, este outro filme segue a cartilha do documentário comum: ele entrevista os jovens, faz as perguntas óbvias ("É muito difícil seguir as coreografias? Você gosta de Pina?"), e ouve as respostas esperadas ("É difícil, mas estou gostando", "Ela é muito profissional"). Os enquadramentos são simples, enquanto a observação é admiradora, até temerária em relação a Bausch. Como ela aparece pouco durante os ensaios – os jovens são treinados principalmente pelas bailarinas de Pina – os diretores se deliciam com cada aparição da coreógrafa, filmada à distância, com lentes teleobjetivas, como se a câmera tivesse medo de atrapalhar.


    Essa "boa conduta" aproxima os diretores Anne Linsel e Rainer Hoffmann dos próprios jovens dançarinos: todos parecem inexperientes, muito respeitosos, mas fazendo o possível para passar despercebidos diante da presença de seu ídolo. Não que faltem momentos de atrito, longe disso: as treinadoras irritam-se com os erros dos jovens, Pina não gosta de tal versão da cena. Mas sempre que isso acontece, as bailarinas pedem para a câmera se retirar, e esta prontamente vira seu ângulo e corta o som. A ideia é não ofender nada nem ninguém, fazendo um filme apenas positivo, cor-de-rosa.


    Pode ser interessante ver o desenvolvimento dos jovens na dança, ou então apreciar mais uma vez as belas coreografias de Pina Bausch, mas estes são méritos da dançarina e dos jovens, não do filme. Sonhos em Movimento é uma destas obras que podem ser facilmente apreciadas pelo seu conteúdo, independentemente da forma, mas é justamente a forma que instaura o abismo de qualidade que separa Pina 3D, filme feroz, intelectual e sensorial, de Sonhos em Movimento, homenagem domesticada e previsível.


    Por fim, após tanto ensaio, o espectador quase não verá o resultado de tanto esforço. A apresentação final dos jovens é passada rapidamente, pois lá não há mais Pina e, portanto, não há mais interesse para os diretores. Este filme é sem dúvida muito honesto, muito afetuoso, como também são aliás os pequenos vídeos de família, aqueles em que se filma uma festa, sem muita preocupação com a imagem, apenas para se admirar o avô que comemora seu aniversário, ou a prima que se casa. Sonhos em Movimento é uma declaração de amor simples, tão prazerosa aos fãs de Pina Bausch quanto irrelevante ao cinema.

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