Muitas imagens em uma tela sem cores e a curiosidade em imaginar como era cada cenário por trás do preto e branco: era assim que as coisas funcionavam até 1972, quando finalmente foi ao ar a primeira atração em cores do Brasil. Mas engana-se quem pensa que esse marco veio de uma novela de sucesso ou da transmissão de uma Copa do Mundo.
A história da TV brasileira começou mais de 20 anos antes da chegada das cores à telinha. Em setembro de 1950, Assis Chateaubriand inaugurou a TV Tupi de São Paulo – não apenas a primeira emissora do país, mas também a pioneira da América do Sul. A programação incluía telejornais, programas educativos, atrações musicais e variedades.
Ao longo das décadas, as emissoras foram se expandindo por todo o território nacional, enquanto formatos de sucesso, como os programas de auditório, conquistavam espaço. Foi assim que nomes como Silvio Santos e Hebe Camargo se tornaram ícones de gerações.
Mas foi apenas em 19 de fevereiro de 1972 que o público passou a ver tudo sob uma nova perspectiva. Naquela data, a Rede Globo realizou a primeira transmissão a cores do país, em um evento regional narrado por ninguém menos que o saudoso Cid Moreira.
É a uva na televisão colorida!
Isso mesmo: a primeira transmissão a cores da TV brasileira foi a cobertura da Festa Nacional da Uva, um evento tradicional de Caxias do Sul (RS) que acontece até hoje e foi criado para celebrar os imigrantes italianos que trouxeram a tradição da viticultura à região.
Na época, a Globo exibiu uma matéria e o cortejo das festividades e, para isso, contou com um grande apoio técnico. As imagens foram cedidas pela TV Difusora, de Porto Alegre, com colaboração técnica da TV Rio e apoio das TVs Gaúcha, Piratini e de Caxias. Haja trabalho!
TV Globo/Reprodução/RBS/Hildo
Com carros alegóricos, roupas típicas e um público eufórico, o desfile contou com a voz inconfundível de Cid Moreira e teve uma hora de duração – diga-se de passagem, a hora mais icônica da história da televisão! Afinal, mesmo assistido por pouca gente, a apresentação colorida deixou os brasileiros ainda mais animados com o que estava por vir.
Mas por que a Festa da Uva? Segundo Boni, ex-executivo da Globo, em entrevista ao Memória Globo, havia uma pressão por parte do governo militar da época:
"Havia uma mentalidade colonizadora e de primeiro mundismo. 'Ou vocês fazem a televisão colorida ou cassamos o canal' Tivemos que mergulhar na televisão colorida. Inaugurada para agradar ao nosso ministro da época, o Higino Corsetti, transmitindo a Festa da Uva, na qual a filha dele era a rainha" afirmou Boni.
Em 31 de março do mesmo ano, aconteceu a oficialização do novo padrão de transmissão colorida, o PAL-M. Mas as coisas não foram tão fáceis assim: o custo dos equipamentos era muito alto, e por isso as transmissões em cores ainda eram raras nessa primeira fase.
A primeira novela em cores do Brasil
Com o tempo, as emissoras foram ampliando a programação em cores, até chegarem à primeira novela colorida do país: O Bem Amado (1973), da TV Globo.
A obra de Dias Gomes fez sucesso com a história do prefeito corrupto Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), obcecado em inaugurar um cemitério na cidade – mas ninguém morria. Por isso, ele cria diversas estratégias, chegando até a contratar um matador de aluguel.
Divulgação/TV Globo
Durante a exibição, a equipe técnica enfrentou uma série de dificuldades para operar os novos equipamentos, enquanto um turbilhão de cores saturadas invadia a casa dos telespectadores.
No ano seguinte à novela, o avanço tecnológico ganhou força com a exibição da primeira Copa do Mundo a ser transmitida em cores para o Brasil. Isso, claro, foi um grande marco no país do futebol e fez com que a venda de aparelhos de TV aumentasse consideravelmente.
Foi só em 1977, três anos depois, que a programação em preto e branco desapareceu completamente das grades das emissoras no Brasil.