Dele & Dela chega como um bom início de ano para a Netflix no campo das séries de suspense. A produção aposta em um thriller policial que se sustenta não apenas pelo mistério em si, mas pela ideia de que uma mesma história pode ter versões diferentes e que muitas vezes escolhemos acreditar naquilo que nos é mais conveniente, mesmo quando os fatos apontam para outra direção. Essa proposta, criada por William Oldroyd em sua estreia no formato seriado, é interessante e bem definida desde o início, ainda que nem sempre seja explorada com toda a força que poderia.
A narrativa acompanha Anna, vivida por Tessa Thompson, uma âncora jornalística isolada, emocionalmente distante e em crise com a própria carreira. Quando um assassinato acontece em sua cidade natal, ela passa a se envolver cada vez mais com o caso. Do outro lado está Jack, o detetive interpretado por Jon Bernthal, que desconfia do envolvimento de Anna e conduz a investigação enquanto lida com uma relação cheia de camadas mal resolvidas com ela. A série constrói esse jogo de suspeitas de forma eficiente, criando uma atmosfera constante de dúvida e tensão.
Um dos grandes chamarizes de Dele & Dela está justamente em seus protagonistas. Jon Bernthal entrega mais uma variação de um tipo que já se tornou familiar em sua carreira: um homem duro, fechado, emocionalmente carregado, muito próximo do que ele já fez em produções como O Justiceiro. Não há grandes surpresas em sua atuação, mas ele entrega exatamente o que a série pede. Funciona, ainda que sem muito espaço para nuances novas.
O verdadeiro destaque é Tessa Thompson. Conhecida do grande público por seu trabalho no MCU, a atriz vem mostrando, especialmente após Hedda, um interesse cada vez maior por personagens mais densos e emocionalmente complexos. Aqui, ela carrega a série nas costas, principalmente nos momentos mais dramáticos. Thompson consegue transmitir o isolamento, a culpa e a ambiguidade de sua personagem com muita força, tornando Anna uma figura intrigante mesmo quando o roteiro não aprofunda tudo o que sugere.
O texto assinado por William Oldroyd, Tori Sampson, Bill Dubuque e Dee Johnson, baseado no romance homônimo de Alice Feeney, parte de uma ideia temática forte: a distorção da verdade. A série propõe que cada personagem constrói sua própria versão dos fatos, moldada por traumas, desejos e negações. A princípio, parece que a narrativa irá brincar com múltiplos pontos de vista, alternando percepções entre Anna e Jack. No entanto, essa proposta acaba sendo usada mais como sustentação para os grandes momentos de virada do que como uma estrutura constante da série. Isso não chega a ser um erro grave, mas cria uma sensação de promessa não totalmente cumprida.
Ao longo de seus seis episódios, Dele & Dela consegue manter a atenção do público com facilidade. O suspense é bem dosado, e a série sabe jogar com as suspeitas, apontando possíveis culpados para logo em seguida desmontar essas certezas. O problema começa a aparecer quando percebemos que parte desse jogo depende da omissão de informações que alguns personagens já possuem, mas que o espectador só descobre mais tarde por meio de gravações, revelações tardias ou diálogos explicativos.
Essa escolha narrativa faz com que os plot twists funcionem no impacto imediato, mas percam força quando analisados com mais calma. O choque acontece, e por alguns instantes parece bem construído, mas logo fica claro que muito desse efeito vem menos de uma construção cuidadosa e mais da decisão de esconder dados essenciais do público. A série planta pistas, sim, mas também manipula essas pistas de forma tão insistente que, em vez de criar surpresa, gera a sensação de que estamos sendo conduzidos pela mão o tempo todo.
Essa dependência excessiva das reviravoltas fica ainda mais evidente nos episódios finais. São vários twists concentrados no desfecho, revelando informações que os personagens já sabiam há bastante tempo. Isso enfraquece a lógica interna da história e expõe alguns furos narrativos, especialmente na forma como certos assassinatos acontecem e são explicados. Tudo parece existir apenas para que a série chegue ao seu momento final de impacto, sacrificando camadas emocionais que poderiam enriquecer muito mais a experiência.
Temas importantes surgem ao longo da narrativa, mas raramente são explorados a fundo. A morte da filha dos protagonistas, por exemplo, funciona mais como um gatilho dramático do que como um processo emocional real. Há pouco espaço para o luto, para o pós-luto ou para as consequências psicológicas dessa perda. O mesmo acontece com a discussão sobre o papel dos idosos na sociedade: a série levanta a questão, aponta a importância do tema, mas logo a utiliza apenas como ferramenta para mover a trama adiante.
Apesar dessas limitações, é inegável que Dele & Dela sabe conduzir um thriller. Cada episódio termina com algum elemento que estimula o espectador a continuar assistindo. A investigação avança em ritmo constante, e mesmo com escolhas questionáveis, a série mantém um bom nível de envolvimento. O primeiro grande plot twist é eficiente e energético. O segundo, embora mais previsível, ainda cumpre sua função dentro da lógica da narrativa.
No fim das contas, Dele & Dela é uma série que funciona muito bem como entretenimento rápido. Seus seis episódios de cerca de quarenta minutos passam com facilidade, incentivando a maratona. A história prende mais pelo mistério do que pelos personagens, o que evidencia sua maior fragilidade: a falta de profundidade dramática. Existe potencial para explorar melhor a relação entre Anna e Jack, a vida profissional da protagonista e até o mundo ao redor deles, que muitas vezes parece existir apenas para servir à trama.
Ainda assim, as atuações, especialmente a de Tessa Thompson, elevam o material, e a condução do suspense garante que a experiência seja envolvente. É um começo sólido de ano para a Netflix, mesmo que a série fique devendo quando o assunto é emoção e desenvolvimento humano. Resta saber se os próximos lançamentos da plataforma conseguirão equilibrar melhor impacto narrativo e profundidade emocional ao longo de 2026.