Desde o anúncio de All Her Fault, o maior atrativo sempre foi Sarah Snook. Depois de encerrar sua trajetória marcante como Shiv Roy em Succession e de emprestar a voz à protagonista de Memórias de um Caracol, animação indicada ao Oscar, havia uma curiosidade natural sobre qual seria o próximo passo da atriz na televisão. A série ainda nem tinha data confirmada para estrear no Brasil quando Snook foi indicada ao prêmio de Melhor Atriz em Série de Drama no Critics’ Choice Awards 2026. Depois de ela ter vencido a premiação, isso acabou funcionando como o empurrão definitivo para mergulhar na produção assim que ela chegou ao Prime Video.
Mais do que um chamariz, Sarah Snook se prova o verdadeiro eixo de All Her Fault. Existe uma expectativa legítima sobre como atores conseguem se desvincular de personagens muito fortes, e havia o risco de Snook ficar presa à sombra de Shiv Roy. Felizmente, isso não acontece. Aqui, ela constrói uma personagem completamente diferente: mais frágil, emocionalmente exposta e tomada por culpa. Sua Marissa Irvine é uma mulher à beira do colapso, e essa entrega intensa sustenta a série mesmo quando o roteiro oscila.
O protagonismo de Snook é tão forte que, em alguns momentos, acaba ofuscando o restante do elenco. Dakota Fanning, por exemplo, tem presença, mas não atinge o mesmo nível de impacto dramático. O texto de Megan Gallagher tenta oferecer cenas densas para todos, mas a diferença de entrega acaba ficando evidente. Curiosamente, quem consegue acompanhar Snook de forma mais equilibrada é Sophia Lillis, mesmo com pouco tempo de tela. As duas dividem apenas uma cena, mas é o suficiente para mostrar como Lillis segue confirmando o talento que já chamava atenção desde It: A Coisa.
A trama central de All Her Fault é apresentada de forma direta: nos primeiros minutos, acompanhamos Marissa indo buscar seu filho Milo na casa de um colega de escola, apenas para descobrir que ninguém ali o conhece, e que garoto havia desaparecido. A série não perde tempo em estabelecer o conflito, e essa escolha é importante para entender seu verdadeiro foco. Diferente do que o público pode esperar, a produção não se sustenta apenas na pergunta “quem sequestrou Milo?”. Na verdade, essa resposta surge relativamente cedo.
Essa decisão pode causar estranhamento inicial, mas fica claro, ao longo dos episódios, que o interesse da série não está no mistério em si, e sim no caminho que levou até aquele ponto. A investigação serve muito mais como pano de fundo para explorar relações, segredos e decisões mal resolvidas. A possibilidade de um cúmplice, levantada pelo roteiro, ajuda a manter o suspense ativo e dá fôlego à narrativa, mesmo quando já sabemos parte da verdade.
No primeiro bloco da série, esse jogo funciona bem. Existe um vai e vem constante de suspeitas, e o roteiro faz questão de colocar os personagens sob desconfiança o tempo todo. A cada novo episódio, alguém parece culpado, apenas para ser descartado logo em seguida. Isso prende a atenção inicialmente, mas aos poucos se torna previsível. Depois da segunda ou terceira vez, o espectador já entende a dinâmica e percebe que essa troca de suspeitos serve mais para manter o ritmo do que para realmente avançar a história.
A partir da metade da temporada, All Her Fault muda de postura. A série começa a se preocupar menos em criar mistério e mais em amarrar suas respostas. É nesse ponto que o ritmo sofre. Alguns episódios se concentram em conflitos familiares e subtramas que, apesar de relevantes para os personagens, acabam surgindo de forma apressada. Há momentos em que o excesso de explicações, feitas quase sempre por meio de diálogos muito diretos, quebra a fluidez da narrativa e até faz o espectador esquecer, temporariamente, que existe uma criança desaparecida no centro de tudo.
Essa escolha, no entanto, parece calculada. Ao “limpar o terreno” e resolver essas pendências, a série abre espaço para que o desfecho do sequestro aconteça sem distrações. E é justamente nos episódios finais que All Her Fault encontra seu melhor equilíbrio. O encerramento consegue conectar os conflitos emocionais, as falhas de caráter e as decisões questionáveis dos personagens ao evento central da história.
A revelação do porquê tudo aconteceu é construída com cuidado. A série espalha pistas ao longo do caminho, mas dificilmente o espectador consegue juntar todas antes do momento certo. O interesse não está em surpreender de forma gratuita, e sim em fazer com que as ações façam sentido quando finalmente são reveladas. Conforme o final se aproxima, a tensão aumenta, colocando o público no mesmo estado de confusão e desespero de Marissa: saber o que é certo não significa, necessariamente, conseguir agir dessa forma.
Mesmo com seus méritos, All Her Fault não é uma série sem problemas. O excesso de subtramas pesa, algumas se resolvem rápido demais e outras parecem existir sem uma ligação clara com o núcleo principal. A narrativa fragmentada entre passado e presente também pode confundir, mesmo quem esteja atento aos detalhes. Além disso, a ausência de um ator à altura de Sarah Snook no papel de Peter Irvine se torna evidente, especialmente considerando a importância do personagem para o desenvolvimento da trama. Em diversas cenas, a diferença de intensidade entre os dois compromete o impacto emocional.
Ainda assim, All Her Fault se sustenta como um bom thriller, desde que o espectador esteja disposto a atravessar os episódios centrais com um pouco mais de paciência. A série começa instigante, entra em um ciclo repetitivo de acusações no meio do caminho, mas se recupera ao encontrar um propósito mais claro nos episódios finais. Quando tudo está finalmente estabelecido, o roteiro entrega reviravoltas eficazes e um encerramento que justifica as escolhas anteriores.
No fim das contas, All Her Fault é uma produção competente, que talvez se perca em alguns excessos, mas acerta ao apostar no drama humano por trás do mistério. Sarah Snook confirma mais uma vez seu talento e reforça seu lugar entre as grandes atrizes da televisão atual. Mesmo com falhas estruturais, a série consegue deixar uma impressão positiva e se apresenta como um bom início para o calendário de séries de 2026.