Pluribus surgiu sem grande alarde inicial por parte da Apple TV, muito por conta da confiança de que o nome de Vince Gilligan, criador de Breaking Bad, seria suficiente para atrair a curiosidade do público. Aos poucos, porém, o streaming passou a investir em uma estratégia mais enigmática, com teasers misteriosos e uma premissa provocativa: uma invasão alienígena que não destrói o mundo, mas o torna feliz demais. A ideia de uma mulher que precisa acabar com a felicidade da humanidade soa absurda à primeira vista, mas justamente aí mora o charme da proposta.
Levando em conta o histórico da Apple TV em apostar em séries autorais e pouco convencionais, como Ruptura, o interesse por Pluribus cresce de forma natural. E a série não decepciona nesse aspecto. Há um senso claro de originalidade desde o primeiro episódio, tanto na estética quanto no tom. Gilligan traz uma identidade visual que remete a Breaking Bad, mas agora atravessada por uma camada de ficção científica, sem jamais se apoiar em fórmulas fáceis. Isso garante frescor à narrativa, ainda que também possa afastar parte do público que espera algo mais direto ou convencional.
O que Gilligan faz em Pluribus é, no mínimo, engenhoso. Em vez de seguir o caminho já conhecido das histórias de invasão alienígena, ele subverte completamente a expectativa. Não há destruição, guerra ou resistência armada. O que acontece é o oposto: um “vírus” alienígena une quase toda a humanidade em uma consciência coletiva pacífica e hiperfeliz. Esse simples desvio já reposiciona a série em outro patamar, abrindo espaço para reflexões muito mais amplas do que o habitual dentro do gênero.
A partir dessa escolha, Pluribus passa a questionar temas centrais da experiência humana. O que é felicidade? Ela precisa ser individual? Existe valor no conflito, na dor e na imperfeição? Uma felicidade imposta, mesmo que coletiva, é preferível a uma existência cheia de falhas, mas livre? Gilligan não oferece respostas prontas. Em vez disso, constrói situações que convidam o espectador a refletir por conta própria.
Para criar esse contraste, a série apresenta um pequeno grupo de pessoas imunes ao efeito alienígena. Entre elas está Carol Sturka, uma escritora solitária, amarga e pessimista, interpretada por Rhea Seehorn. Carol funciona como o contraponto perfeito à mente coletiva feliz. Enquanto o mundo parece ter encontrado um estado permanente de harmonia, ela continua presa às suas frustrações, inseguranças e isolamento. Essa oposição é uma das forças centrais da série.
Gilligan também acerta ao estabelecer regras claras para esse novo mundo. A mente coletiva não interfere diretamente na vida dos imunes, não mente e sempre age em benefício deles. Essas regras criam uma estranha sensação de conforto, ao mesmo tempo em que alimentam um desconforto constante. Afinal, se tudo parece funcionar tão bem, por que algo soa tão errado? A série não se preocupa em explicar imediatamente o porquê desse fenômeno ou como ele surgiu. O foco está nas relações e nas reações humanas diante dessa nova realidade.
Esse olhar mais observacional permite que Pluribus explore diferentes comportamentos. Há personagens que rejeitam completamente qualquer contato com a mente coletiva, isolando-se ainda mais. Outros aceitam essa nova ordem com facilidade, seja por terem familiares agora conectados a ela, seja por simplesmente obedecerem a tudo que lhes é pedido, desde tarefas banais até situações extremas. A série sugere que a felicidade, quando vivida de forma isolada, perde parte de seu sentido, ao mesmo tempo em que reforça a importância da individualidade como base da identidade humana.
É justamente nesse equilíbrio entre indivíduo e comunidade que Pluribus encontra sua maior força. A série não defende a dissolução completa do eu, nem glorifica o isolamento extremo. Ela propõe um debate mais complexo, mostrando que precisamos tanto das nossas convicções pessoais quanto do convívio com o outro, mesmo que esse convívio seja marcado por diferenças e conflitos. Gilligan estabelece o cenário e deixa que a natureza humana conduza a história, resultando em perspectivas variadas e, muitas vezes, contraditórias, assim como na vida real.
Por fugir das estruturas tradicionais, Pluribus opta por um ritmo mais contemplativo. A série está mais interessada em observar comportamentos e relações do que em avançar rapidamente uma trama de “salvar o mundo”. Essa escolha, embora coerente com a proposta, traz alguns problemas. A ausência de um objetivo claro pode gerar a sensação de que a narrativa se arrasta em determinados momentos. As respostas demoram a chegar, e o mistério central acaba ficando em segundo plano.
Em alguns episódios, Carol parece presa a um ciclo repetitivo de mau humor, questionamentos e embates com a mente coletiva. Essa repetição é intencional e faz parte da construção da personagem, mas nem sempre funciona a favor do ritmo da série. Em determinados pontos, a falta de avanço no mistério principal gera frustração e a sensação de que a história está se prolongando mais do que deveria. Ainda assim, essa lentidão não chega a quebrar completamente o envolvimento, apenas exige mais paciência do espectador.
Apesar dessas limitações, Pluribus consegue manter o interesse até o fim da temporada. Existe sempre a expectativa de uma revelação, de uma virada ou de uma nova camada sendo adicionada à história. O gancho deixado para a segunda temporada, que já está em desenvolvimento, reforça a ideia de que Gilligan enxerga essa série como um projeto de longo prazo, com espaço tanto para aprofundar o lado científico quanto o dramático.
No fim das contas, Pluribus é uma série que se destaca por sua proposta ousada e pela forma como utiliza a ficção científica como ferramenta para discutir questões humanas. Mesmo quando parece se arrastar, ela instiga. Mesmo quando frustra, provoca reflexão. É uma obra mais interessada em levantar perguntas do que em entregar respostas fáceis, e isso a coloca em um lugar diferente dentro das narrativas de apocalipse.
Com sua comédia silenciosa, situações desconcertantes e debates existenciais, Pluribus se firma como mais uma aposta sólida e autoral no catálogo da Apple TV. Não é uma série para quem busca ação constante ou resoluções rápidas, mas para quem está disposto a observar, refletir e tirar suas próprias conclusões sobre felicidade, individualidade e convivência.