“Quando o mundo inteiro vira um grupo de terapia coletiva... e a única pessoa infeliz tem que salvar todo mundo da 'felicidade forçada.”
Vince Gilligan, o cara que transformou um professor de química em traficante de metanfetamina e um advogado picareta em ícone, agora decide: “E se o apocalipse fosse todo mundo ficar absurdamente feliz contra a vontade?” Bem-vindo a Pluribus (estilizado PLUR1BUS, porque Gilligan adora um trocadilho latino), onde um vírus alienígena (ou sinal cósmico que virou receita de RNA feliz) transforma a humanidade em uma colmeia de sorrisos permanentes, beijos compulsivos e “The Joining”. Exceto por uma dúzia de imunes — e a estrela principal é Carol Sturka (Rhea Seehorn), a romancista de fantasia romântica mais rabugenta, cínica e infeliz do planeta Terra. Basicamente: a pessoa que você menos quer salvar o mundo... é exatamente quem tem que fazer isso.
A premissa é genial e audaciosa: um pós-apocalíptico onde o problema não é zumbis ou radiação, mas felicidade tóxica. Gilligan mistura sci-fi sombrio, comédia negra ultra-seca, drama existencial e um monte de Albuquerque ensolarado que parece o mesmo de Breaking Bad, só que agora todo mundo está dançando em sincronia como num clipe de boyband distópico. Rhea Seehorn carrega a série nas costas — e que costas! Ela transforma Carol em uma anti-heroína perfeita: sarcástica, autodepreciativa, brilhante e profundamente solitária. Ver ela navegar por um mundo de gente sorridente enquanto resmunga “isso é ridículo” é ouro puro. É como se Kim Wexler tivesse sido teletransportada para um episódio de Black Mirror escrito por um pessimista muito engraçado.
Os primeiros episódios são lentos (Gilligan ama um slow burn), mas quando pegam ritmo, entregam tensão, reviravoltas filosóficas e momentos que te fazem rir alto de nervoso — tipo, quando Carol tenta convencer alguém que “felicidade não é normal” e a resposta é um abraço coletivo. A cinematografia é impecável (aquele amarelo poeirento do deserto nunca decepciona), o roteiro respeita sua inteligência (nada de explicações bobas), e o elenco coadjuvante (incluindo uns cameos que vão te fazer gritar) ajuda a construir esse mundo estranho e perturbador.
Não é perfeito: às vezes o pacing arrasta como se Gilligan quisesse testar nossa paciência, e algumas ideias filosóficas sobre individualidade vs. coletividade ficam um pouquinho óbvias no final da temporada. Mas no geral, é uma das séries mais originais e inteligentes do ano — uma provocação que te faz questionar se felicidade forçada é pior que o caos que a gente chama de vida normal.
Recomendo pra quem curte sci-fi cerebral com humor ácido, fãs de Better Call Saul querendo ver Rhea Seehorn brilhar como protagonista, e qualquer um que já pensou “todo mundo está feliz demais... tem algo errado”. Temporada 2 já confirmada, e eu mal posso esperar pra ver Carol Sturka continuar sendo a pessoa mais razoavelmente miserável do universo.
Nota final: 4/5 — perde um pontinho pela lentidão inicial, mas ganha o resto por ser corajosa, inteligente e hilariamente desconfortável. Vale cada minuto no Apple TV+.