X-Men ’97
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3,5
Enviada em 14 de agosto de 2026
Tudo o que envolve os X-Men hoje chama muita atenção. A Marvel já prepara o novo filme dos mutantes com Jake Schreier na direção e, enquanto essa nova fase não chega de vez aos cinemas, X-Men ’97 continua sendo a principal casa do grupo. Isso ganhou um peso ainda maior depois da primeira temporada, que estreou em 2024 e conseguiu ir muito além da nostalgia. A série atualizou personagens, trabalhou temas que sempre fizeram parte dos X-Men e entregou alguns dos melhores momentos recentes da Marvel na televisão.

Só que entre a primeira e a segunda temporada muita coisa mudou nos bastidores. Beau DeMayo deixou a Marvel antes mesmo da estreia da série. A segunda temporada já estava em produção naquele momento e boa parte da história havia sido planejada, mas os roteiros passaram por revisões depois de sua saída e a Marvel começou uma troca de liderança que será ainda mais clara a partir da próxima temporada. Por isso, esse segundo ano acaba funcionando também como uma fase de transição. Ele ainda carrega ideias que nasceram na equipe anterior, mas ao mesmo tempo precisa preparar X-Men ’97 para continuar sem a pessoa que comandou sua história no começo.

E isso aparece em uma temporada que quer crescer em praticamente todas as direções. Temos mais mutantes, mais grupos, mais épocas, mais histórias dos quadrinhos e um dos maiores vilões dos X-Men. Só que aquilo que deveria ampliar a série também se transforma no maior problema da temporada. X-Men ’97 abre espaço para personagens como Polaris, Fortão, Lupina e Homem Múltiplo, além de grupos como X-Factor, X-Force e os Acólitos. Para quem conhece os quadrinhos, existe um prazer imediato em ver essas figuras ganhando espaço na animação e interagindo com personagens que já acompanhamos. É quase como assistir páginas das HQs começando a se movimentar.

Mas cada novo personagem também precisa de tempo, e X-Men ’97 simplesmente não possui tempo para todo mundo. A temporada tenta apresentar personagens, criar relações, continuar histórias antigas e ainda desenvolver vários núcleos ao mesmo tempo. Em alguns momentos, parece existir uma lista de encontros que o roteiro precisa cumprir antes de seguir para o próximo ponto. O resultado é curioso porque a quantidade de mutantes realmente faz o universo parecer maior, mas também diminui o espaço daqueles que deveriam estar no centro. Wolverine e Tempestade são dois exemplos claros. Estamos falando de personagens que fazem parte da base dos X-Men, mas que passam boa parte da temporada praticamente afastados do que realmente movimenta a história.

Em alguns episódios, X-Men ’97 parece menos uma série sobre a equipe principal e mais uma série sobre todo o universo mutante ao redor dela. Isso não seria necessariamente um problema se os novos núcleos tivessem tempo para crescer. Só que muitos começam, apresentam uma questão e precisam rapidamente abrir espaço para outra coisa. Polaris talvez seja um dos melhores exemplos. A relação dela com Magneto surge com espaço para sustentar boa parte do lado emocional da temporada. Existe uma discussão sobre pai, filha, abandono e legado. Só que aquilo que poderia atravessar vários episódios precisa ser resolvido rapidamente porque a história já está olhando para o próximo arco.

Algo parecido acontece com Ciclope e Jean Grey. A relação dos dois com Nathan foi uma das bases da primeira temporada. A segunda parte justamente de uma situação que permitiria aprofundar isso ainda mais, mas esse arco acaba dividido entre vários outros acontecimentos. Existem bons momentos e cenas que funcionam, mas raramente existe tempo para permanecer nelas. E isso também atinge Vampira e Gambit. A relação entre os dois ganha enorme importância no desfecho, mas boa parte do peso emocional ainda vem da temporada anterior. O luto de Vampira e tudo aquilo que aconteceu em Genosha sustentam o reencontro muito mais do que aquilo que essa nova temporada conseguiu desenvolver entre os dois.

Esse talvez seja o principal problema da temporada inteira. X-Men ’97 possui material para várias temporadas e tenta colocar boa parte dele dentro de apenas nove episódios. A série sempre teve um ritmo rápido. Isso já existia no primeiro ano. Grandes histórias dos quadrinhos eram adaptadas, misturadas e transformadas em poucos capítulos. Só que agora existe ainda mais coisa competindo pelo mesmo espaço. A separação dos X-Men no tempo, por exemplo, parecia ser a grande base da temporada. Parte da equipe estava no passado, outra parte no futuro e aqueles que ficaram nos anos 90 precisavam continuar existindo sem vários integrantes importantes. Só essa ideia poderia sustentar uma temporada inteira, mas a série resolve boa parte disso nos primeiros episódios e segue rapidamente para outra coisa.

Apocalipse sofre pelo mesmo motivo. O começo trabalha seu passado e seu futuro, cria uma presença que parece preparar o personagem para dominar a temporada e coloca uma ameaça que vai muito além de força física. Só que o roteiro precisa cuidar de tantos outros núcleos que ele desaparece por um bom tempo e retorna quando a temporada já está caminhando para o final. A utilização de Gambit resolve parte disso e cria uma ligação direta com a dor da temporada anterior, mas também faz com que Apocalipse perca espaço dentro da própria história que deveria carregar. É um vilão grande demais para uma temporada que já está cheia antes mesmo de ele assumir o centro.

Essa sensação de pressa acaba aparecendo também na maneira como alguns acontecimentos anteriores são retomados. A primeira temporada deixou várias portas abertas, só que algumas delas recebem respostas rápidas enquanto outras mudam de direção. Como sabemos que houve troca de liderança e revisão dos roteiros, é natural pensar nesse contexto enquanto assistimos. O resultado parece fragmentado. Existem ideias que parecem pedir mais tempo, relações que começam a crescer e logo são interrompidas, histórias que poderiam ocupar episódios inteiros e acabam reduzidas a algumas cenas. É uma temporada tentando fazer muita coisa ao mesmo tempo.

Curiosamente, essa quantidade também produz alguns dos melhores momentos. A estrutura de novela continua funcionando porque esses personagens possuem décadas de relações, romances, filhos, rivalidades e problemas familiares para explorar. Ciclope, Jean, Xavier, Magneto, Noturno e Vampira já possuem uma base forte o suficiente para que o roteiro consiga separá-los e colocar novos personagens ao redor deles. Então existe uma vantagem nessa expansão. O universo realmente parece maior. Não estamos apenas vendo os mesmos seis ou sete mutantes enfrentando uma nova ameaça. Existe uma comunidade, grupos diferentes e pessoas com visões diferentes sobre aquilo que significa ser mutante.

O problema é que a série precisa descobrir como administrar esse crescimento. Porque chega um momento em que parece impossível colocar todos esses personagens na mesma história sem que alguém seja deixado de lado. E mesmo com esse problema, X-Men ’97 continua tendo muito do que fez a primeira temporada funcionar. As cenas de ação seguem usando os poderes de maneira criativa. Não é apenas Ciclope atirando rajadas ou alguém utilizando uma habilidade da forma mais óbvia. A animação procura combinar poderes, usar o espaço e encontrar movimentos que parecem retirados diretamente das páginas dos quadrinhos.

Visualmente, também senti uma temporada ainda mais carregada de cores. Os poderes ganham destaque, os personagens chamam atenção dentro das cenas e os confrontos possuem uma energia que mantém a série muito próxima da linguagem dos quadrinhos sem simplesmente tentar copiar uma página. E existe um prazer que não dá para ignorar em ver tantos mutantes ganhando vida. A nostalgia funciona. Mas ela não pode continuar sendo a resposta para tudo. Ver Polaris, X-Factor ou X-Force na tela é divertido porque reconhecemos esses nomes e porque muitos deles nunca tiveram espaço em grandes adaptações. Só que, depois da apresentação, a série precisa encontrar uma razão para eles permanecerem.

Esse é o desafio que a segunda temporada deixa para o futuro. Para mim, ela fica abaixo da primeira. Não porque tenha perdido tudo aquilo que X-Men ’97 fazia bem, mas porque tenta ampliar sua escala antes de descobrir como organizar esse crescimento. Quanto mais personagens entram, menos tempo existe para cada um. Quanto mais histórias são adaptadas, menos espaço existe para desenvolver cada arco. E quanto maior Apocalipse deveria parecer, mais ele precisa dividir a temporada com dezenas de outras ideias.

A troca nos bastidores ajuda a entender o momento que a série atravessa, mas não deve funcionar como desculpa para todos os problemas. O que temos na tela é uma temporada de transição que ainda entrega bons momentos, mantém a ação e o visual da série e continua entendendo por que esses personagens despertam tanto interesse. Só que agora existe uma sensação de inchaço que a primeira temporada conseguia controlar melhor.

X-Men ’97 ainda possui muito crédito com o público. Os mutantes vivem um momento de grande interesse, o novo filme está sendo preparado e a própria animação já provou que consegue existir além da nostalgia. Agora a pergunta é outra: essa segunda temporada foi apenas uma fase de ajuste entre duas equipes criativas ou esse excesso de personagens, histórias e referências vai se transformar no novo padrão da série?

Porque nostalgia consegue abrir a porta. Mas, depois de duas temporadas, X-Men ’97 precisa mostrar que sabe exatamente para onde quer levar todos esses mutantes.