A terceira temporada de Round 6 é, para mim, uma conclusao coerente para a história qu o diretor Hwang Dong-hyuk queria contar. Não é uma temporada feita para agradar o público com vitorias dos personagens favoritos, e sim sobre até onde alguém consegue preservar a própria humanidade quando o mundo inteiro tenta o convencer de que ela não vale mais nada. E é justamente por isso que tanta gente odiou o final.
A frase do Gi hun carrega um simbolismo muito bonito "nós não somos cavalos. Somos pessoas. E pessoas...". O fato da frase ficar incompleta é parte da mensagem, pois não existe uma única palavra que define as pessoas. Somos complexos, erramos, mudamos, amamos, odiamos, perdoamos e nos sacrificamos.
Os organizadores tentam reduzir eles a números, apostas e entretenimento. O Gi-hun morre antes de concluir a frase porque a resposta não pode ser dada por ele, ela fica para o espectador.
Uma das maiores críticas que vejo é "o Gi-hun deveria ter matado os finalistas e virado o novo líder". Mas essa ideia destrói tudo o que Round 6 construiu durante 3 temporadas. Desde o episódio 1 da série, o jogo tenta provar que, quando se trata de dinheiro, toda moral desaparece. O objetivo dos organizadores era provar que todos são egoístas, e o Gi-hun existe justamente para contradizer essa lógica. O In-ho queria quebrá-lo e os VIPs queriam assistir isso acontecer. O sacrifício do jogador 456 é a única derrota verdadeira do sistema, porque ele se recusou a jogar da maneira que esperavam. Se ele matasse todos os finalistas para vencer, o Front Man estaria certo, os VIPs estariam certos e o jogo estaria certo. E a mensagem inteira da série iria embora. A lembrança da Sae-byeok, a jogadora 067, foi um dos maiores símbolos da humanidade do Gi-hun. Desde a primeira temporada, foi uma das pessoas que fez o Gi-hun perceber que ainda existiam pessoas pelas quais valia a pena lutar. No final, ele escolhe voltar a ser esse homem, não significa que ele nunca errou, significa justamente que ele não deixou um erro definir quem ele era, perder sua humanidade.
Sobre os jogos, a primeira temporada marcou justamente pois os jogos equilibraram tensão, suspense, e peso emocional, fazia criar empatia pelos personagens. A temporada 3 recuperou isso bem. Mesmo gostando muito da segunda temporada, os jogos em sua maioria acabam sendo mais divertidos do que tensos e tem menos peso emocional e significado pra formar a narrativa da série, pra levar a algum lugar. Na terceira, o suspense e a tensão voltam completamente, com grande peso emocional e fazendo com que a gente crie empatia pela situação dos personagens. Por exemplo, no esconde-esconde, a tensão vem de que eles tinham que matar ou fugir de pessoas com quem os personagens criaram laços, fazendo cada decisão carregar uma drama enorme e simbolismo. Pra mim é com certeza um dos melhores jogos da série toda, o episódio prende começo ao fim e lembra porque os jogos da temporada 1 marcaram tanto.
Enquanto os jogadores brigam por dinheiro, a Jun-hee (jogadora 222) só pensa na filha. Ela entende que, se o Gi-hun voltar para ajudar ela, tanto ela quanto o bebê morrerão. Então ela escolhe sacrificar a própria vida para garantir que a filha tenha uma chance de viver. Aliás, transformar o bebê na vencedora foi uma das decisões mais cruéis do Frontman e dos VIPs, e tambem uma das decisoes mais simbólicas da temporada. Foi o nascimento de uma vida em um lugar que so conhecia a morte. O dinheiro que sempre representou essa ganancia termina nas mãos de alguém que sequer entende o que ele significa. Outro ponto muito criticado "todo mundo morre", sendo que era exatamente esse o ponto. Round 6 nunca foi uma história onde os favoritos sobreviveriam só porque o público gosta deles. Cada morte reforça o quanto aquele sistema destrói qualquer possibilidade de futuro. A profecia de que ninguém sairia vivo praticamente se cumpre, e isso reforça a ideia de que aquele jogo consome tudo ao redor. Se o Gi-hun sobrevivesse depois de matar um bebê ou os últimos jogadores, ele deixaria de ser o Gi-hun, seria outro personagem, seria jogar fora tudo que a serie construiu na primeira e na segunda temporada. E isso seria muito mais incoerente do que o sacrifício.
Outro personagem que recebeu críticas injustas foi a No-eul, a guarda 011. Durante anos muita gente dizia que queria conhecer melhor a história dos guardas e como são chamados, então na terceira temporada finalmente mostra isso. A história dela com o Jogador 246, a busca pela filha e sua recusa em aceitar aquele sistema ampliam o universo da série. Ela oferece um olhar diferente sobre os jogos e termina com uma pequena esperança, contrastando com o pessimismo do restante da trama. Inclusive quando ela vai tentar tirar sua própria vida e escuta o bebê chorando, então observa o sacrifício do Gi hun, e percebe que, mesmo em um lugar como aquele, ainda há pessoas boas.
Visualmente, a temporada é ótima. Usam cores vivas e elementos infantis para esconder a violência, exatamente como a série sempre fez. A dublagem brasileira também merece muitoo reconhecimento, ela consegue preservar o peso emocional das cenas sem soar artificial, algo muito difícil em uma obra tão carregada de emoção. E as atuações sao um dos maiores mérito da temporada. O ator que interpreta o 456, Lee Jung-jae, faz uma interpretação perfeita. O desgaste físico, olhar vazio, culpa e o desespero mostram a mudança do personagem após tudo que ele enfrenta.
Minha crítica realmente fica para a narrativa do Jun-ho. Depois de tudo o que foi construído desde a primeira temporada, entre ele e o In-ho, acaba sem um desenvolvimento. Quando finalmente se encontram, a conversa é curta, várias perguntas permanecem sem resposta e a trama do policial termina tendo menos impacto do que prometia.