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Olivia Goldenrose
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Crítica da série
4,0
Enviada em 29 de março de 2021
Assédio moral também ocorre em familias. Talvez até seja aí a sua origem. Relações abusivas entre familiares, explicitam o quanto medo e insegurança são as bases para uma comunidade autoritária e decadente. Mentiras e intrigas temperam uma trama extremamente melancólica. Ótima para quem quer se deprimir ou ter coragem para acordar diante de uns mais antigos métodos de dominaçã: pais inseguros criam idiotas ou réplicas de si.
A primeira vista podemos até pensar que nossos questionamentos ocidentais nada tem a ver com a família Shtisel, que vive no bairro judeu ultra ortodoxo de Geula, no centro de Jerusalém. Um pequeno equívoco, que logo se desfaz lá pelo terceiro episódio da 1a temporada, quando já estamos enredados pela história interessante, apaixonados pelos curiosos, fervorosos, afetivos (a seu modo) e únicos personagens e, definitivamente familiarizados com suas alegrias e dissabores. A trama central é quase toda focada no caçula da família, Akiva e o patriarca com quem ele divide o apartamento, o Rabino Shulem. Narrado em tom de novela e com uma cadência mas lenta, a questão inicial é encontrar uma esposa adequada para o filho mais novo. Porém, conforme a história vai avançando, vamos descobrindo outros personagens e outras subtramas dolorosas e complexas, como a da filha do meio de Shulem, Giti e a filha mais velha dela, Ruchami, interpretada pela sublime atriz Shira Haas (Nada Ortodoxa). Assuntos como casamento arranjado, divórcio, aborto, barriga de aluguel, modernidade, tradição, preconceito (das formas mais variadas), segregação e papéis impostos pela sociedade (destaque para as mulheres) são abordados e tratados de uma maneira que pode causar estranheza, num primeiro momento, aos olhos ocidentais, mas estreitando bem os mesmos, não estão tão distantes de nós. Eles enfrentam as mazelas recorrendo aos rigorosos mandamentos religiosos, em primeiro lugar, mas também tentando de alguma maneira resolver seus revezes "quase" ferindo esses preceitos, arriscando-se muitas vezes em nome do bem estar dos seus. Para essa comunidade tão arraigada a princípios seculares, isso demanda um esforço hercúleo admirável. A história é toda permeada por uma suave e onipresente trilha sonora e belíssimas telas pintadas por Akiva que retrata de maneira silenciosa, mas contundente, momentos chaves desta série tão ímpar.
É uma série que vai se revelando aos poucos de ritmo lento e muitas palavras não ditas, mas que ficam expressas em olhares e comportamentos, no começo vc estranha os hábitos, depois vai se acostumando, o roteiro é ótimo e as atuações também, depois que embala vc vicia. Os costumes dessa vertente do judaísmo são um caso à parte. Muito drama e humor também, estórias bem contadas, o que está difícil atualmente, vale muito a pena.
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