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    Crítica: Better Call Saul inverte cenários e traz novas possibilidades em sua 5ª temporada
    Por Barbara Demerov — 23 de abr. de 2020 às 19:08
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    Um ano que nos trouxe vislumbres daquele que era Jimmy McGill e uma transformação sorrateira de Kim Wexler.

    ATENÇÃO! ESTE TEXTO PODE CONTER SPOILERS DE BETTER CALL SAUL.

    NOTA: 4,5 / 5,0

    Desde seu lançamento, Better Call Saul sempre esteve à sombra de Breaking Bad, série que sucede os eventos deste spin-off e ainda permanece viva na memória de seus fãs. Porém, ao longo de suas temporadas, é curioso notar como esta produção - também criada por Vince Gilligan - simultaneamente se afasta e se aproxima da predecessora de uma maneira original, sem ater-se tanto à trama de Walter White (Bryan Cranston) nem afastar-se tanto de seu já conhecido universo.

    Em Better Call Saul, mais do que o foco no personagem emblemático de Jimmy McGill (Bob Odenkirk, que hoje já é um completo Saul Goodman) está a vontade do showrunner em explorar Albuquerque por outros olhares - alguns ainda ingênuos, outros mais experientes na área do crime. Após nos (re)apresentar a Gus Fring (Giancarlo Esposito), Mike (Jonathan Banks), Tuco (Raymond Cruz) e Hector Salamanca (Mark Margolis) e Nacho Varga (Michael Mando), a série já preparou todo o terreno para nos mostrar o quão similares são as histórias de Jimmy e Walter.

    Mas há algumas diferenças, é claro. Better Call Saul sempre fez questão de salientar o quão sensível é Jimmy, até mesmo quando ele finalmente encarnou a persona Saul Goodman no desfecho do 4º ano da série. Porém, nesta 5ª temporada, tal transformação já está para trás: agora, seu verdadeiro problema está simplesmente em dar conta (ou não) de sua nova identidade. Uma identidade pela qual tanto lutou para conquistar. Após a perda do irmão, um orgulho ferido que nunca se fecha, dívidas e muita insegurança, nosso protagonista encontrou uma forma de extravasar suas frustrações e se provar (para si mesmo e para os outros).

    Portanto, a jornada de Jimmy é, de fato, similar à de Walter White. Ambos são personagens que ganham fôlego quando mergulham em suas fontes de poder, na ganância para provar a tudo e a todos do que são capazes. E, a partir do momento em que descobrem até onde podem chegar, não há mais volta. Mas é justamente neste ponto que ambas as jornadas se diluem: se Walter White foi até o fim e perdeu tudo, Jimmy McGill age mais com o coração - até quando é Saul. E é por isso que a próxima temporada de BCS será ainda mai poderosa no sentido de trazer o desfecho do protagonista - um desfecho que o tornou um homem 100% ligado ao dinheiro e à razão, tal como vemos em Breaking Bad.

    A 5ª temporada nos mostra como a evolução de um personagem como Jimmy é algo crescente, pois ele já conquistou o topo de seu jogo e não sabe mais como prosseguir (pelo menos, é isso o que deixa claro a season finale). Por isso, é muito importante observar sua evolução e recuo simultâneos em Kim Wexler, sua parceira no amor e no crime. Kim já havia testado o sabor da ilegalidade em temporadas passadas ao lado do companheiro, mas sua presença cresce de forma exponencial ao longo dos episódios. É impossível não citar seu monólogo no penúltimo capítulo da temporada, quando um misto de medo e entusiasmo toma conta da dupla na frente do perigo.

    No entanto, o voilà desta temporada reside na verdadeira função da personagem na trama e na vida de Jimmy: ela não é - nem nunca foi - uma dama em perigo. Uma vez que o roteiro sempre fez questão de impulsionar (propositalmente) esta visão errônea sobre a personagem como se ela fosse a vítima, a razão pela qual Saul Goodman nunca voltou a ser Jimmy e passou a viver no preto e branco, ele faz com que esqueçamos de sua verdadeira força. E de que sim, ela é capaz de atuar de modo tão frio e calculista quanto Jimmy o faz. É por isso que a surpresa do 9º episódio (Bad Choice Road) não vem do nada, pois Rhea Seehorn transborda a presença incisiva de Kim em cada olhar ou palavra que dirige a Jimmy - isso em todos os episódios prévios ao clímax.

    Se Kim morrerá ou se tornará alguém capaz de superar Jimmy/Saul dentro do ramo da máfia de Albuquerque através da advocacia, não sabemos. Mas esta temporada certamente destrancou uma porta que sempre estava lá - só que alguns espectadores podem não ter percebido isso antes. Tal desenvolvimento sorrateiro, brilhantemente orquestrado até chegar à sua conclusão (ou melhor, ao início de uma nova fase de Kim), certamente foi um dos pontos mais altos do 5º ano.

    Better Call Saul também aproveitou para dar aos fãs longevos um episódio que possui forte toque na nostalgia em Bagman. Impossível não lembrar do início de Breaking Bad com Walter White no deserto, logo na entrada de sua trajetória com a fabricação de metanfetamina. E as semelhanças não são nada por acaso: este é o único episódio que Vince Gilligan dirigiu este ano. Com planos e enquadramentos idênticos de BB, este arco de Jimmy e Mike perambulando pelo deserto por dias possui os elementos mais marcantes de ambas as produções: o poder do silêncio dentro da narrativa e a excelência de seu elenco.

    Ao desenvolver lentamente a narrativa envolvendo a máfia de Albuquerque, Better Call Saul soube dosar o espaço de Lalo Salamanca (Tony Dalton), agora personagem fixo da série, de modo a ser o principal motivador dos arcos de Mike, Gus e Nacho. Sua crescente ascensão e ameaça na vida de Jimmy e Kim evolui muito bem ao longo dos episódios, culminando numa verdadeira chacina naquele que fecha a temporada. Enquanto a trama do casal principal se encontra num patamar de preparação para o que está por vir, a trama de Lalo possivelmente será futuramente resumida apenas na vingança.

    Better Call Saul investe muito bem na tensão e no progresso de personagens já bem construídos dentro de uma base praticamente inquebrável. Assim como em Breaking Bad, esta é mais uma produção que prioriza o tratamento de roteiro e personagens em primeiro plano, pois sabe que esta é a melhor forma de extrair o máximo de emoção do espectador mesmo que nada seja dito em cena. O lugar é familiar e os personagens também, mas ainda assim tudo parece tão novo...

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