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    Criadores de A Divisão justificam imagens sangrentas da série do Globoplay: "A violência precisa incomodar"
    Por Bruno Carmelo — 19 de jul. de 2019 às 09:30

    Conversa com o diretor Vicente Amorim, o produtor José Junior e o elenco sobre a série que retrata a Divisão Antissequestro nos anos 1990.

    Os primeiros episódios da série A Divisão, da Globoplay, causaram espanto entre os jornalistas convidados a uma conversa com os criadores e o elenco. Para retratar a Divisão Antissequestro, ou DAS, o diretor Vicente Amorim imerge os protagonistas Mendonça (Sílvio Guindane) e Santiago (Erom Cordeiro) numa rotina de chantagem, suborno, tortura e muitos tiroteios, iniciados tanto por bandidos quanto pelos próprios policiais.

    Para José Junior, produtor da série pelo AfroReggae Audiovisual, o saldo destas operações, inspiradas em casos reais dos anos 1990, foi positivo: "O DAS nunca pagou resgate, nunca perdeu uma vida. Os métodos não foram os melhores, mas felizmente, ou infelizmente, deu certo". Junior aponta o DAS como única medida efetiva contra a criminalidade, em oposição às UPPs e projetos semelhantes.

    A série não seria, portanto, condescendente com a corrupção e tortura praticada por policiais? Vicente Amorim acredita que não. "A Divisão não faz a propaganda da polícia, nem sua demonização. Na segurança pública, em todo lugar do mundo, não existem mocinhos, só vilões. A série não afirma que os fins justificam os meios, mas faz esta pergunta", justifica.

    Divulgação
    Elenco e criadores de A Divisão

    Os criadores acreditam que a história retrata "a verdade" das favelas e da criminalidade brasileira. "A maior parte do que eu vi no audiovisual brasileiro sobre a polícia é fake", decreta Junior, antes de abrir uma exceção a Tropa de Elite, considerado "referência no cinema nacional por mostrar a realidade nua e crua, que você concorde com ela ou não".

    Amorim concorda: "A ideia é passar uma ideia de desconforto permanente. A violência precisa incomodar, não pode ser normalizada". Para Junior, no entanto, a série só deve chocar o público "da Zona Sul", afirma, em referência às regiões privilegiadas do Rio de Janeiro. "Moradores de periferia vivem isso todos os dias".

    Os atores explicaram que a maior preocupação era fugir dos estereótipos e buscar a humanidade por trás destes personagens "quebrados num nível que não tem conserto", segundo Amorim. "A gente precisava ir contra a sedução de pegar a arma na mão e fazer cara de mau", explica Sílvio Guindane, que interpreta o personagem conhecido como "genocida". Ele explica ter feito longos treinamentos para que o fuzil "parecesse uma extensão do meu braço"

    Marcos Palmeira comemorou a possibilidade de imersão neste universo: "O AfroReggae permitiu acesso a partes da favela onde jamais poderíamos chegar", o que teria sido fundamental para a construção dos personagens. Segundo Junior, tiroteios foram temporariamente interrompidos para as filmagens de algumas cenas. 

    Questionado sobre a proximidade entre a violência dos anos 1990, retratada em A Divisão, e o cenário atual, Erom Cordeiro dispara: "Enquanto não houver uma queda na desigualdade, a situação não vai se desenvolver". Estes crimes só teriam sido resolvidos "porque incomodam a elite higienista e escravocrata" ao lidarem com o sequestro de familiares de políticos e empresários, completa Guindane, antes de sugerir que, se encontraram uma maneira de controlar a criminalidade envolvendo os ricos, deveria ser possível de aplicar as mesmas práticas dentro das favelas.

    A primeira temporada de A Divisão chega ao Globoplay nesta sexta-feira, dia 19 de julho. O longa-metragem baseado na série, com cenas inéditas, está previsto para o primeiro semestre de 2020.

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