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    Inumanos: Como fazer uma série de super-heróis genérica (Primeiras impressões)

    Conferimos os dois primeiros episódios, exibidos nas salas IMAX ao redor do planeta.

    Nem tudo que a Marvel toca vira ouro. Rei Midas na Hollywood atual, com diversos filmes e séries de sucesso, a Casa das Ideias embarcou em um projeto ousado ao acertar com a ABC a produção de uma série baseada nos Inumanos, cujos dois primeiros episódios seriam exibidos nas salas IMAX ao redor do planeta. Com o material já disponível nas telonas - e ainda inédito nas telinhas -, a impressão inicial é de uma série absolutamente genérica, esquemática e com vários problemas.

    Antes de abordar a série em si, é importante relembrar como se chegou a ela. Empolgada com o sucesso de Guardiões da Galáxia, cujos personagens eram pouquíssimo conhecidos fora do âmbito dos aficcionados pelos quadrinhos, a Marvel acreditava que conseguiria repetir a façanha com os também desconhecidos Inumanos. Seria um trunfo e tanto, já que os Inumanos possuem semelhanças conceituais aos X-Men, no sentido dos personagens terem uma imensa variedade de poderes. Desta forma, a Marvel teria em mãos um grupo de seres poderosos equivalente aos mutantes, cujos direitos cinematográficos pertencem à Fox.

    Por mais que a Marvel até tenha anunciado um filme dos Inumanos para 2019, e Vin Diesel por diversas vezes tenha se interessado pelo protagonista Raio Negro, o projeto jamais saiu do papel. Após um adiamento por tempo indeterminado, veio a decisão de adaptar os personagens como série de TV, seguindo uma roupagem parecida à adotada em Agents of S.H.I.E.L.D., com uma ambientação solar - ou seja, nada do universo sombrio apresentado nas séries produzidas pela Netflix. De olho no potencial das telas gigantes do IMAX, veio então a decisão em situar Inumanos na paradisíaca ilha Oahu, localizada no Havaí.

    Visualmente, a série até funciona. Muito graças às belíssimas paisagens retratadas, mas também pela grandiosidade dos cenários envolvendo a cidade de Attilan, localizada na Lua, onde os Inumanos vivem. Entretanto, o cuidado demonstrado na direção de arte é inversamente proporcional aos efeitos especiais usados no cabelo de Medusa, que possui vida própria - não só a movimentação mas a própria tonalidade são absolutamente artificiais, provocando risos involuntários a cada aparição. É até um alívio quando a personagem tem a cabeleira raspada, por poupar o espectador de tamanha tosquice, que desvia a atenção do que realmente importa: a dinâmica entre os personagens principais.

    É neste aspecto, entretanto, que Inumanos mais demonstra suas fragilidades. Há dois grupos inicialmente próximos que logo se tornam antagônicos: a família real e Maximus, irmão ao rei Raio Negro, que orquestra um golpe de estado. Por mais que a narrativa aponte a família real, agora fugitiva, como os verdadeiros heróis da série, há nela certas características que dificultam a afeição do espectador: Raio Negro gerencia um reino dividido em castas, de certa forma parecido ao apresentado na franquia Jogos Vorazes, onde o povo precisa aceitar as atribuições que lhe são apontadas. Além disto, há uma certa arrogância perante os humanos, considerados seres inferiores. É o que acontece com Maximus, a todo instante lembrado de sua condição de humano - leia-se, sem poderes -, que ainda por cima é contra a tal divisão de castas. Ou seja, a bem da verdade, quem é o vilão nesta realidade?

    Isto, a série jamais coloca em questão: trata-se de Maximus e ponto final! Quem consegue dar uma certa dubiedade ao personagem é seu intérprete, Iwan Rheon. Por mais que (ainda) seja impossível dissociá-lo do vilão Ramsey que fez em Game of Thrones, aqui ele entrega um personagem mais inseguro e humano, que lida com as aspirações do povo por liberdade ao mesmo tempo em que ataca as benesses da realeza, incluindo sua própria condição como humano. Seu alvo é a Terra, local de riqueza abundante, que pode abrigar os Inumanos em condições bem melhores que a árida Lua.

    Diante de tal contrasenso em torno das motivações dos lados em disputa, Inumanos constrói uma base extremamente frágil e passa a apelar para situações esquemáticas. A começar pela insistência nas cenas de perseguição e luta na Terra, com os integrantes da realeza convenientemente separados, ou no próprio desejo de Maximus pela cunhada, Medusa (Serinda Swan, caricata). Isto sem falar na péssima Isabelle Cornish como Crystal, sempre desfilando em cena sem conseguir transmitir qualquer tipo de emoção.

    Por mais que os episódios iniciais até sejam competentes ao apresentar como funciona esta realidade, especialmente em relação a como a terrigênese concede poderes a partir da "verdadeira essência do indivíduo", Inumanos traz poucos momentos em que realmente agrada. Um deles é quando Raio Negro precisa lidar com os policiais na Terra, mantendo a mudez para não feri-los, ao mesmo tempo em que busca escapar. É também neste momento que pode-se perceber melhor a expressividade exagerada de Anson Mount, que promete ser uma marca da série devido às limitações físicas do personagem.

    Por mais que até seja bem produzida e conte com os belos cenários havaianos, Inumanos a princípio demonstra uma preguiça imensa em desenvolver seus personagens principais. Estereotipados ao extremo, são eles os grandes culpados pelo aspecto genérico da série como um todo, que aparenta ser uma imensa desculpa para a produção de mais uma história de super-heróis.

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