Depois de conquistar a crítica e o público com Bebê Rena, Richard Gadd está de volta com Pela Metade, uma série tão desconfortável quanto fascinante, que explora ao longo de três décadas a relação entre dois meio-irmãos marcados por traumas, violência e uma enorme dependência emocional.
A produção, que Gadd começou a escrever em 2019, acompanha o relacionamento conturbado entre dois irmãos, Ruben (Gadd) e Niall (Jamie Bell). Quando Ruben, o irmão distante, aparece inesperadamente no casamento de Niall, a situação culmina em uma explosão de violência, levando-nos a uma viagem através de suas vidas.
A trama abrange quase 40 anos, desde a década de 1980 até os dias atuais, e revela os altos e baixos da relação entre os irmãos. Vemos o encontro deles na adolescência, os desentendimentos na idade adulta, e todos os momentos bons, ruins, terríveis, engraçados, raivosos e desafiadores ao longo do caminho.
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ATENÇÃO! A matéria contém spoilers do final de Pela Metade!
A história que surgiu antes da “machosfera”
Embora muitos espectadores tenham associado Pela Metado ao atual debate sobre a masculinidade moderna, Gadd afirma que essa não era sua intenção inicial. Ainda assim, ele reconhece, em entrevista à revista TIME, que o contexto social da época influenciou a criação da série: “Em 2019, havia muita discussão sobre a violência masculina e o comportamento dos homens. Nunca me propus a responder perguntas sobre masculinidade, manosfera ou algo do tipo, mas o debate sobre masculinidade despertou algo em mim.”
Um dos momentos mais importantes do final acontece quando Niall visita Ruben na prisão e revela abertamente que é gay. Contra todas as expectativas, Ruben o aceita sem julgamentos e faz uma observação que resume boa parte do conflito do personagem:
'Você desperdiçou a vida inteira dançando conforme a música dos outros, mas nunca encontrou o seu próprio ritmo.'
Além disso, a cena revela um lado completamente diferente de Ruben. Pela primeira vez, ele demonstra vulnerabilidade e confessa ter sofrido abusos sexuais do pai durante a infância. Segundo Gadd, essa dor ajuda a explicar grande parte de suas atitudes: “Até desabar diante de Niall, ele nunca havia se permitido ser vulnerável. Sua principal defesa sempre foi atacar. Ele construiu toda a sua vida tentando compensar aquilo que lhe aconteceu.”
Ao longo da série, ambos os personagens procuram no outro aquilo que acreditam não possuir. Essa necessidade mútua acaba se transformando em uma dependência extremamente destrutiva: “Isso os impede de viver suas próprias vidas. É por isso que precisam tanto um do outro: encontram validação no outro por possuir aquilo que lhes falta. De certa forma, sentem-se completos quando estão juntos, para o bem ou para o mal.”
Gadd também acredita que muitos dos problemas enfrentados por Niall e Ruben surgem de uma visão equivocada sobre o que significa ser homem: “O que os salvaria seria abandonar a ideia de que a confusão em relação à sexualidade ou o abuso sexual diminuem sua masculinidade. Mas, da perspectiva deles, é exatamente assim que se sentem, e isso os prejudica enormemente.”
Um final aberto à interpretação
A situação chega ao limite quando Niall revela que teve um caso com Mona (Amy Manson) e que ele é o verdadeiro pai de Baird. A confissão desencadeia a violenta briga final, durante a qual Ruben acaba matando o irmão.
No entanto, o destino definitivo de Ruben nunca é mostrado na tela. Essa ambiguidade foi uma escolha deliberada de Richard Gadd: “De forma indireta, a série convida o público a preencher as lacunas entre os episódios: os anos que passam e os acontecimentos que ocorrem fora de cena. Por isso, me pareceu apropriado que, para uma relação tão complexa e tortuosa, o final permanecesse aberto à interpretação.”
Assim, Pela Metade encerra sua história sem oferecer respostas definitivas, deixando que cada espectador tire suas próprias conclusões sobre o destino dos personagens e o significado de sua relação.
Pela Metade está disponível na HBO Max!