O dia que fiz Pelé chorar no set de Brasil 70 - A Saga do Tri e descobri segredos da minissérie de 5 episódios da Netflix (Exclusivo)
Diego Souza Carlos
Apaixonado por cultura pop, latinidades e karê, Diego ama as surpresas de Jordan Peele, Guillermo del Toro e Anna Muylaert. Entusiasta do MCU, se aventura em estudar e falar sobre cinema, TV e games.

Prevista para chegar ao serviço de streaming em poucos dias, série baseada nos bastidores da Copa do Mundo de 70 chega com a promessa de animar público e jogadores para campeonato deste ano.

Ser jornalista cultural é viver paralelo ao imprevisto. Uma vez atuante na área, nunca sabemos o que nos espera a cada nova oportunidade profissional. Como repórter do AdoroCinema, nestes anos trabalhando no site, tive experiências memoráveis - de entrevistas com nomes como Fernando Meirelles, Tatiana Maslany, Laura Dern, Ryan Coogler , Gloria Pires e Rick Riordan ao acesso a filmes que mudaram gostos pessoais e, eventualmente, me fizeram queimar a língua.

Este texto é sobre o dia em que, a convite da Netflix, acompanhei o set de gravações da minissérie Brasil 70 - A Saga do Tri, e ganhei um apreço por um aspecto tipicamente brasileiro que sempre evitei: o futebol. Como já disse em outras ocasiões, acompanhar as gravações de qualquer produção audiovisual nos dá uma dimensão muito maior sobre o fazer cinematográfico, algo que reconfirmei em um dia atípico do ano passado.

Um set vivo: Assim foi o último dia de gravações em campo de Brasil 70

Marcelo Maragni / Netflix

Quem adora cinema sabe muito bem que tudo o que é apresentado na tela é apenas uma fagulha do real escopo de cada produção. Naquela manhã cinzenta de agosto de 2025, após dias de frio, o sol recepcionou a mim e a outros três jornalistas em Carapicuíba, São Paulo. Este dia solar marcava o encerramento das gravações em campo da série produzida pelo serviço de streaming em parceria com a O2 Filmes, antes de seguirem para o Rio de Janeiro e viajarem para fora do país.

Através da dramaturgia, tivemos o privilégio de ver o Brasil ser vencedor da Copa do Mundo de 70 de diversos ângulos, algo que poderá ser assistido em poucos dias por todo o Brasil e pelo restante do mundo através da plataforma responsável por DNA do Crime e Sintonia. Apesar de termos uma tenda especial para acompanhar os registros através de 3 monitores, aproveitamos o vasto e esverdeado campo para chegarmos mais próximos da ação.

Quem é quem em Brasil 70? Comparamos o elenco da Netflix com os jogadores da vida real – incluindo Pelé

Inclusive, seguindo o praxe de outras empresas de audiovisual em revitalizar locações como parte do empréstimo, o Estádio Governador Orestes Quércia, mais conhecido por Estádio do Niterói, recebeu um belo upgrade para receber as filmagens da Netflix: o gramado foi revitalizado conforme o que era feito mais de 50 anos atrás (nada de sintético aqui!) e as arquibancadas foram pintadas de azul para facilitar o trabalho da pós-edição, como um chroma-key gigantesco, ao lado de tapumes posicionados na parte traseira das traves.

Rodeando o campo, placas de propaganda perimetrais podiam ser vistas com, além dos patrocinadores, os dizeres “Bem-Vindos” com a língua de cada país, incluindo Tchecoslováquia, Uruguai e México. Tratava-se de um set vivo, com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Além da platéia de figurantes animada e da entrada dos jogadores e torcedores no campo, podíamos ver pequenos grupos jogando bola nos arredores, drones voando para lá e para cá, além de pequenas gravações (uma do AdoroCinema, feita por mim, inclusive).

Alexandre Schneider/Netflix

Na arquibancada, um público misto seguia as deixas da assistente de direção e de Francisco Meirelles (Pssica), mais conhecido como Quico, tanto na movimentação quanto no nível de entusiasmo. De longe, era possível ver os diversos sombreiros mexicanos feitos especialmente para a série - apenas uma das muitas confecções de vestuário. Assim como qualquer outro set, pessoas andavam por todos os lugares, com a diferença de que havia tanto profissionais com as roupas da nossa época como personagens caracterizados com trajes dos anos 70 - policiais, jogadores, técnicos e torcedores.

No período da tarde, antes de conversarmos com os diretores Paulo e Pedro Morelli - pai e filho cineastas -, passamos por depósitos de figurino com centenas de uniformes, incluindo réplicas de chuteiras de tamanhos variados, todos confeccionados exclusivamente para a minissérie. Um trabalho assustador, no bom sentido, é claro.

Em conversa recente com Lucas Agrícola, o Pelé, descobri que o ator ombinou com a equipe da Netflix para ficar com alguns adereços: tanto roupas da época quanto dois uniformes - um deles, inclusive, já emoldurado em sua casa.

Mais de 500 audições para encontrar o Pelé: Os esforços que moldaram Brasil 70

Alexandre Schneider/Netflix
A bola definiu o começo dessa escalação.

Durante o período de gravação da vitória que levou a taça à Seleção de 70, conversamos com o produtor executivo Wellington Pingo, conhecido por seu trabalho em grandes títulos nacionais, como Central do Brasil, Cangaço Novo, Os 3, Terra Estrangeira e Trash: A Esperança Vem do Lixo. Ele nos contou diversos aspectos técnicos dessa produção. Falou das construções de alambrados, do azul específico do tapume-chroma e, claro, da rejeição à grama sintética: “O tempo da bola é diferente”, ponderou.

O papo informal, em um canto onde não havia tantas câmeras, figurantes e atores, foi enriquecedor. Nele, Pingo nos contou que muitas “pessoas das antigas se envolveram”. "Poucos deles foram merecidamente homenageados”, destacou ele ao citar a falta de produções no audiovisual que apresentassem as grandes façanhas dos pilares do esporte.

Assim como vocês poderão ver na entrevista realizada há poucos dias com os diretores, o produtor nos contou em primeira mão como funcionou o sistema de escalação do elenco. Segundo ele, no primeiro teste "víamos se o cara tinha intimidade com futebol". “A bola definiu o começo dessa escalação”, explicou ele ao citar que o processo foi intenso e detalhista, pois além de jogar, os atores precisavam ter uma aparência semelhante a dos personagens e, claro, atuar. Para encontrar Lucas Agrícola foram mais de 500 audições.

Pelé de Lucas Agrícola brilha no campo e em frente às câmeras

Alexandre Schneider/Netflix

Com o sol já alto, pouco antes do meio-dia, fomos para a cabine de exibição assistir às gravações finais. A cena, em especial, mostrava uma comoção generalizada no campo após a vitória. Nas câmeras, podíamos ver diferentes ângulos, de quadros abertos a closes focados na reação dos personagens. Houve um momento, enquanto estávamos esperando o "ação!", que a câmera central focou no rosto de Lucas Agrícola, o Pelé. Além da caracterização incrível, é preciso ressaltar o trabalho da captura de suas reações, em especial no resultado da gravação sobre a tonalidade da pele negra.

Uma vez, conversando com Karim Aïnouz sobre a dificuldade de resguardar a tonalidade da pele negra na tela, o diretor me lembrou que a maioria dos equipamentos utilizados na indústria vêm de países frios, ou seja, são feitos para gravar pessoas de pele clara. Assim como o realizador atua em Motel Destino, muitos outros precisam realizar trabalhos manuais para garantir a cor, a textura e o brilho da pele. Embora isso seja apenas um aspecto visual feito durante a produção, este breve momento me deixou animado para ver o resultado destas cenas no corte final - algo que aconteceu há pouco tempo.

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Uma coisa que apenas nós jornalistas tivemos acesso, além dos profissionais envolvidos no projeto, é justamente comparar esses aspectos prévios com o resultado final. Curiosamente, assistindo à série, pude ver vários momentos em que esse close na pele e no olhar do protagonista ganham a tela. O trabalho meticuloso da fotografia e da coloração, com o cuidado para preservar a negritude de Lucas/Pelé, é algo a se destacar.

Alexandre Schneider/Netflix
O que vimos nos bastidores conseguia trazer a vibração da pele retinta do ator, com os contrastes importantes do amarelo, verde e azul, que tornaram aqueles registros tão bonitos quanto poéticos. Tratava-se da assinatura do diretor ao focar nos olhos e na expressão de Pelé quando venceu a Copa de 70, após um período em que até ele mesmo estava desacreditado com o futuro.

Por fim, antes das entrevistas, acompanhamos a cena em que os torcedores invadem o campo e abraçam o time. Da direção, ouvi com um sorriso no rosto direcionamentos como “É para fingir selvageria, mas não é para ser selvagem” e “Energia total, pessoal!”.

Zagallo de Bruno Mazzeo foi um “um grande trabalho de montar quebra-cabeças”

Marcelo Maragni / Netflix

Depois de acompanhar as filmagens, nos sentamos com parte do elenco e da direção de Brasil 70. Durante a conversa com Bruno Mazzeo, que dá vida ao técnico Zagallo, o ator explicou que até ser convocado para o projeto não tinha tanto interesse em estudar a vida da figura mítica do futebol.

"Tudo o que eu aprendi sobre ele foi novidade", contou o ator. "Não sabia que ele tinha essa importância com a questão tática nem que isso era uma coisa inovadora para a época. Não sabia o básico. A gente tem essa imagem do Zagallo, aquele senhor já tetracampeão, uma figura já consagrada, [mas] na época da série ele estava chegando."

Alexandre Schneider/Netflix
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Bruno explicou que foi atrás de diversas fontes para entender quem foi o técnico em 1970, conversando com pessoas envolvidas com o ex-atleta, documentários, entrevistas e através de pesquisas históricas ao lado dos criadores e roteiristas. A dupla Naná Xavier e Rafael Dornellas, responsável por idealizar o projeto, foi a porta de entrada do artista para um livro escrito pelo próprio Zagallo, uma obra fundamental para a performance de Mazzeo na minissérie.

Ainda assim, a composição de um Zagallo que nem todo mundo conheceu nos momentos privados foi um desafio. "Infelizmente, o nosso acervo, para qualquer assunto no Brasil, é muito difícil. A gente não tem um grande acervo. Das poucas coisas que eu achei, [encontrei] depoimentos de jogadores em podcast, documentário de alguém de uma faculdade, uma tese... achei várias coisinhas e todos falando muito do Zagallo. Então, teve um grande trabalho nessa série de montar quebra-cabeças, entendeu?"

Alexandre Schneider/Netflix

Para quem espera por um Zagallo mais engraçado pelo astro de Cilada e Filhos da Pátria terá uma curiosa surpresa: a versão do técnico de Brasil 70 não é, necessariamente, regada a humor, mas tem uma comicidade em suas características mais pitorescas.

“É possível que haja”, disse Bruno ao ser questionado sobre a questão. “Justamente por essa figura ser folclórica, tem a coisa da superstição e o próprio vocabulário que a gente acabou trazendo. Acho que dá uma certa comicidade. Tem uma coisa que eu procurei fazer, que é tirar um pouco o meu grave - tenho uma voz muito grave. Eu tentei tirar um pouco, sobretudo quando ele está gritando”, completou ele mostrando mais ou menos como fazia.

O dia que fiz Pelé chorar no set de Brasil 70 - A Saga do Tri

Alexandre Schneider/Netflix

Ver Lucas Agrícola pela primeira vez, pessoalmente, foi uma experiência extasiante. A semelhança do ator com Pelé é tão grande que chega a dar um nó na cabeça de qualquer um. Não apenas a aparência é próxima, mas até mesmo a voz e o jeito de falar do jovem artista são impressionantes para qualquer brasileiro. Vê-lo de longe ao lado dos demais atores, já com trajado com a Camisa 10, foi um tanto surpreendente até mesmo para quem não é tão próximo do futebol.

Depois de trocar algumas palavras com o astro que deve ganhar o mundo em poucos dias, a produção da Netflix também reservou um momento para conversarmos com ele com calma. No papo, ele compartilhou que a dificuldade de encarnar o Rei foi imensa, pois além de ser o protagonista da série, ele também precisou replicar as principais jogadas do atleta. "São jogadas famosas e ele corria para os dois lados, batia com as duas pernas. Fazia coisas espetaculares, então teve um treinamento também do pessoal. Me dediquei ao máximo", compartilhou.

Na família, agora eu sou esse cara, eu sou Pelé!

Grato por ter conquistado esse papel disputado, Lucas disse que Brasil 70 "foi um presente". "Estou muito feliz! A galera deu todo o suporte para treinar e se preparar, porque 10 horas com chuteira no pé não é fácil", revelou ele sobre todo o processo de gravações que levou alguns meses para ser concluído, além das diversas locações.

Outro ponto que ficou presente nessa conversa foi a relação do astro com a família. Quando perguntei a ele sobre "ter um Pelé na família" e a busca de referência com seus entes queridos, Lucas se emocionou ao falar do pai - e isso ficou registrado no conteúdo divulgado nas redes do AdoroCinema.

"Sobre essa vitória de 70, meu pai falou que parava tudo. Não é igual hoje. Parava tudo mesmo, ele me contava. Cara, era um respeito, uma coisa muito louca que acontecia quando o Brasil ia jogar, né?", disse. "E sobre o Pelé na família, é tudo muito novo para mim também. Está acontecendo muito rápido, então a semelhança, as coisas que o pessoal vem me falando... Na família, agora eu sou esse cara, eu sou Pelé", acrescentou Lucas que comentou sobre sua cidade, Santa Bárbara, onde até o prefeito se mostrou orgulhoso da conquista do artista.

Alexandre Schneider/Netflix

"Meu pai está muito feliz. Fiz uma surpresa para ele. Quem é mais próximo sabe que eu passei todo esse processo sem contar nada. Ele não sabia", continuou ele com as lágrimas chegando aos olhos. "Fico até emocionado assim de falar, mas eu não sabia se iria dar certo. Então, fui guardando para mim - e era um sonho do meu pai também que eu fosse jogador. Aí não consegui isso para ele, mas eu acho que esse aqui foi melhor do que ser jogador. Confesso para você que ele ficou muito feliz, chorou muito também."

Ao dizer que a ficha de ambos ainda estava caindo lá em agosto, meses antes da estreia da série, Agrícola falou que fez uma homenagem para o pai. "Agora eu posso ficar em paz em relação a dever algo para o meu pai, para minha mãe. É uma coisa muito legal que fiz e ganhei com unhas e dentes. Estou muito feliz"

O resultado de tudo o que vi no set de Brasil 70 está próximo de chegar ao catálogo da Netflix, já que os 5 episódios da minissérie estreiam nesta sexta-feira, 29 de maio, no streaming. Será que relembrar os marcos da Seleção do Tri será o suficiente para animar os torcedores para a Copa do Mundo de 2026? Comigo, de certa forma, funcionou!

*Boa parte deste relato foi feito em agosto de 2025

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